11 de julho de 2026
LIGAÇÕES

Ministro da Justiça nega ter falado com Bolsonaro sobre operação contra Milton Ribeiro

Por Paulo Saldaña | da Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min
Marcelo Camargo/Agência Brasil
Ministro Anderson Torres escreveu neste domingo: 'Asseguro CATEGORICAMENTE que, em momento algum, tratamos de operações da PF'

Em meio a suspeitas de interferência do presidente Jair Bolsonaro (PL) nas investigações que atingem o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, o ministro da Justiça, Anderson Torres, publicou neste domingo, 26, mensagem em que nega ter tratado do caso com Bolsonaro.

Torres estava nos Estados Unidos com o presidente quando, segundo Ribeiro, Bolsonaro telefonou para ele e avisou ter um "pressentimento" de que haveria uma operação da PF (Polícia Federal) contra o ex-ministro.

Como titular da Justiça, Torres tem sob a aba do seu ministério a Polícia Federal, responsável pela operação Acesso Pago, que prendeu e fez busca e apreensão em endereços de Ribeiro e pastores citados em irregularidades na liberação de verbas do MEC (Ministério da Educação).

O ministro da Justiça foi procurado na sexta-feira, 24, e não quis responder. Dois dias depois, posicionou-se em publicação em sua conta no Twitter.

"Diante de tanta especulação sobre minha viagem com o Presidente Bolsonaro para os EUA, asseguro CATEGORICAMENTE que, em momento algum, tratamos de operações da PF", escreveu neste domingo.

"Absolutamente nada disso foi pauta de qualquer conversa nossa, na referida viagem."

A Polícia Federal investiga o balcão de negócios no MEC. Os pastores, ligados a Bolsonaro e Milton Ribeiro, negociavam com prefeitos a liberação de verbas da educação mesmo sem cargos no governo.

Em um telefonema interceptado pela Polícia, Milton Ribeiro diz que falou com Bolsonaro e este lhe adiantou que achava que haveria operação contra o ex-ministro. A defesa de Bolsonaro nega qualquer interferência.

A conversa, entre Ribeiro e a filha, ocorreu no dia 9 de junho. O ex-ministro diz ter falado com o presidente naquele dia, quando Bolsonaro e Torres estavam em viagem.

A cronologia dos atos dentro da investigação mostra que, em 9 de junho, o delegado Bruno Calandrini já havia solicitado as buscas e apreensões contra Ribeiro. O pedido foi feito em 4 de abril e autorizado pelo juiz Renato Borelli, da Justiça Federal do Distrito Federal, em 17 de maio.

O suposto vazamento da operação e a suspeita de interferência de Bolsonaro na investigação resultaram em pedido do MPF (Ministério Público Federal) para que o caso fosse enviado ao STF (Supremo Tribunal Federal).

A própria PF também investiga as acusações do delegado Bruno Calandrini, feitas no dia da prisão do ex-ministro, sobre uma suposta interferência indevida no caso.

A Folha de S.Paulo apurou que a ida de Torres na comitiva com Bolsonaro foi decidida de última hora e que, a princípio, não havia previsão para o ministro acompanhá-lo na Cúpula das Américas. O atual diretor-geral da PF é Márcio Nunes, amigo de Torres -ele era secretário-executivo da Justiça antes de ser nomeado como chefe do órgão.

Ribeiro foi preso na quarta, 22, e solto no dia seguinte por decisão do juiz federal Ney Bello, do TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região).

As investigações de um balcão de negócios no MEC miram também os pastores Gilmar Santos, Arilton Moura, o ex-assessor do MEC Luciano de Freitas Musse e Helder Bartolomeu, genro de Arilton.

O grupo dos pastores negociavam liberação de recursos federais da educação com prefeitos, além de comandar parte da agenda do ministro em eventos fora de Brasília. Musse, Helder e o genro do pastor Gilmar, chamado Wesley Costa de Jesus, receberam depósitos em tratativas de para realizar um encontro com Ribeiro no interior de São Paulo.

O episódio se transformou em uma crise para o governo a poucos meses da eleição. Milton Ribeiro se desligou do cargo uma semana depois que a Folha revelou áudio em que ele diz priorizar pedidos do pastor Gilmar sob orientação do presidente Bolsonaro.

Os desdobramentos da operação Acesso Pago arrastaram pela segunda vez em três anos e meio a Polícia Federal para dentro de uma investigação sobre interferência política e expuseram novamente as tensões internas no órgão, alimentadas pelas seguidas crises no governo Bolsonaro.

Entre policiais, a leitura é que uma nova crise interna se instalou a partir da revelação da Folha da mensagem em que o investigador relata a colegas que a investigação foi prejudicada por um suposto tratamento diferenciado dado ao ex-ministro. Acompanhe a linha do tempo: