"Evito ao máximo (andar sozinha), mas quando é preciso, o sentimento é de desespero. Medo de que algo mais grave aconteça, como perseguição, roubo e estupro. Qualquer movimentação é suspeita. O medo é tão grande que nos assustamos até com a própria sombra".
A fala é de uma estudante de fonoaudiologia, de 19 anos, que mora no Parque Universitário, na zona Sul de Franca.
A jovem, que preferiu não se identificar por medo da ação dos criminosos, já foi perseguida nas proximidades da Unifran (Universidade de Franca). No mês passado, quando voltava para casa por volta das 21 horas, observou dois homens com atitude suspeita. A dupla aparentava estar furtando veículos estacionados na rua Dr. Fernando Costa.
Os suspeitos pararam o que estavam fazendo e começaram a encarar a estudante. Ao lado de uma amiga, decidiu mudar o caminho e passar pela rua Dr. Pedro de Toledo, ao lado da universidade, por ser mais iluminada e receber um número maior de pessoas. "Passava mais confiança para nós".
Confiança que acabou minutos depois. "Assim que subimos a rua, fomos seguidas por um homem mais velho, que mesmo podendo nos ultrapassar, continuou atrás da gente e andando bem colado".
O desespero terminou quando as estudantes viraram na rua Dr. Francisco Prestes Maia, onde ficam seus apartamentos, e o homem seguiu pela avenida Dr. Armando de Sales Oliveira. "Ficamos apavoradas".
As histórias de insegurança no Parque Universitário não acabam por aí. "Há algum tempo conseguiram invadir um prédio aqui no bairro e uma moradora chegou a colocar uma cômoda na frente da porta pra não conseguirem arrombar o apartamento dela".
Ainda segundo ela, os bares da região também oferecem riscos. "Há furtos de celulares dentro dos bares, acontece muito e não dá pra perceber facilmente por causa da movimentação".
Os problemas continuam
O estudante de ciências biológicas José Vitor da Silveira, de 23 anos, já presenciou uma tentativa de furto da porta de sua casa. “Uma noite estávamos na rua, quando tentaram assaltar a (república). Cachorro latiu. Tentaram abrir, mas não conseguiram”.
José Vitor não foi o único. "Já tentaram invadir muitos lugares de madrugada, como repúblicas, prédios e casas, já roubaram carros e agrediram pessoas", diz Edison Alves Junior, de 20 anos.
O estudante de psicologia mora há quatro meses no Parque Universitário e já nota um aumento na criminalidade. "De dois meses pra cá tem piorado bastante, muita gente com medo de sair à noite sozinho".
Medo que obrigou Júnior a redobrar os cuidados com sua namorada, que também estuda da Unifran. "Com quase todo mundo de férias e tendo pouca gente nas ruas do Parque, estava indo buscar minha namorada na faculdade para ela não voltar sozinha à noite".
Grande parte dos estudantes que moram no Parque Universitário veio de outras cidades e utiliza as férias do mês de julho para visitar a família. Com as residências vazias, Júnior acredita que a tendência é a situação piorar ainda mais. "O parque estará vazio. Será muito perigoso para quem andar sozinho nas ruas e muito fácil invadirem casas com ninguém dentro".
Apesar da insegurança, a namorada de Júnior, Isabel Ferreira Alves, de 19 anos, diz que hoje não mudaria de bairro, mas faz ressalvas. "Porque não me resta opção, mas não pensaria duas vezes em me mudar".
Como continuará morando no Parque, a estudante de fonoaudiologia toma suas próprias precauções. "Evito sair sozinha à noite e até mesmo de dia (...) sempre tenho que confirmar a tranca e evito andar com celular".
Insegurança até para quem não mora
Os problemas não se limitam aos moradores do Parque. Caso da estudante de jornalismo Laís Lazarini, de 20 anos. "Eu saio da aula à noite e vou para casa de uma amiga. Coisa de duas esquinas de distância. Por mais que seja perto e tão rapidinho para chegar, é sempre muito sofrido, porque você sempre fica com muito medo".
Ainda segundo Laís, o sentimento de insegurança é sentido em toda a cidade, principalmente por mulheres. "É uma insegurança que, pelo menos, para mim não acontece só lá. Em todos os lugares da cidade eu sinto isso".
"As vezes eu saio para perto da minha casa, onde posso voltar tranquilamente a pé, mas eu peço Uber porque não quero correr o risco de acontecer alguma coisa pior", completou.
O que diz a Polícia Militar
O 15° Batalhão da Polícia Militar do Interior do Estado de São Paulo informou que o monitoramento ostensivo no Parque Universitário é realizado por viaturas de Rádio Patrulhamento, com apoio da ROCAM, Ronda Escolar, Força Tática e de policiais em escala de serviço extraordinária.
“A Polícia Militar está atenta aos números e no enfrentamento de crimes, tem procurado combater a violência e a criminalidade, prendendo em flagrante os autores das infrações penais”, diz nota enviada.
A reportagem questionou a Polícia Militar sobre o número de chamados já registrados no Parque Universitário neste primeiro semestre e qual tipo de crime é comum ser praticado na região, mas não obteve resposta até o fechamento deste texto.
A PM pede à população que denuncie irregularidades ou atitudes suspeitas através dos telefones 190 (Emergência da Polícia Militar) e 181 (Disque Denúncia).