10 de julho de 2026
PRESSÃO TOTAL

Sem dinheiro, 25 mil francanos migram para o SUS e levam PSs à beira do colapso

Por Heloísa Taveira | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Dirceu Garcia/GCN
Waléria Mascarenhas, secretária de Saúde: pacientes que migraram da rede particular tem dificuldades para entender o SUS; falta de vagas na S. Casa é crítica

Os últimos anos têm sido desafiadores para os sistemas de saúde no mundo todo. Desde 2020, a pandemia da covid-19 se transformou num pesadelo para os gestores de sistemas de saúde, especialmente na rede pública. Faltaram leitos, equipamentos, profissionais. Três anos depois, a covid-19 não é mais a responsável por liderar as demandas da rede de urgência e emergência. Mas suas consequências, somadas a outros fatores, continuam a criar impactos negativos - e a desafiar a capacidade dos gestores, além da paciência da população.

Se a covid não é mais o pesadelo que foi até bem pouco tempo, as doenças respiratórias típicas desta época do ano, somadas a um violento e extenso surto de dengue registrado em todas as regiões da Franca, trouxeram novas complicações para o já fragilizado sistema de saúde. Além disso tudo, o que não representa pouca coisa, o número de pacientes também aumentou - exponencialmente. De março de 2021 a junho deste ano, mais de 25 mil pessoas deixaram seus convênios particulares e migraram para o SUS (Sistema Único de Saúde). São pessoas que nunca tinham passado por uma UBS, UPA ou PS e agora são atendidas na rede pública.

Na prática, o número representa o equivalente à população de aproximadamente outras quatro cidades da região: Cristais Paulista (8.700 habitantes), Restinga (7.700), Itirapuã (6.500) e Rifaina (3.650). Tudo isso incorporado, de uma vez, ao que a Saúde de Franca já atendia.

Sirley Tavares, de 47 anos, é uma das francanas que abandonaram a rede particular e conta agora com a pública. A pespontadeira, junto com sua família, manteve convênio com um hospital privado da cidade por quase 30 anos, mas por questões financeiras, teve que cancelar.

“Só deixei (mantive) o plano do meu filho, que é mais barato, porque ele precisa. O plano dele está R$ 189 e, se aumentar, pode ir para até R$ 217. É puxado, mas fazemos um esforço para pagar até ele ter idade de bancar sozinho ou com nossa colaboração”, disse Sirley, cujo filho tem 16 anos.

Ela e seu marido fazem parte das milhares de pessoas que migraram para o SUS. Neste ano, Sirley precisou de atendimento e apesar das diferenças, elogiou o trabalho. “É bem mais demorado do que no convênio, mas fui muito bem atendida. Já fiz os exames, já voltei no retorno e agora só falta retornar ao ginecologista para mostrar o resto dos exames”.

Pronto-socorros e UPAs
A secretária de Saúde Waléria Mascarenhas percebeu que embora a demanda tenha aumentado de forma geral, ela se concentrou na rede de urgência, que são os pronto-socorros e UPAs. De acordo com a secretária, muitos dos pacientes ainda não entendem o SUS e não sabem quando devem procurar a Atenção Básica ou os Prontos-socorros.

Para conseguir adequar o atendimento, o Pronto-socorro Infantil passa por uma mudança física – que está em andamento – e um aumento de profissionais na equipe. No Pronto-socorro “Álvaro Azzuz”, nos dias de maiores picos, como às segundas, terças e quartas-feiras, também aumentou a grade de médicos. “São de sete a oito médicos atendendo ficha (quem chega precisando de atendimento), quatro na ala de observação e um psiquiatra”.

Waléria admite que hoje a demanda é muito maior que a oferta e que um dos principais problemas é a falta de vagas de internação - especialmente, na Santa Casa. Somente na última semana, as unidades de urgência de Franca registraram 43 pacientes esperando a liberação de um leito na Santa Casa de Franca, que opera com 100% de sua capacidade. Sem ter leitos one possam ser internados, os pacientes se acumulam nos PSs.

“A fila nunca vai zerar, toda hora vai ter algum pedido de internação, então nunca zera, mas tem que diminuir. O paciente não pode ficar esperando mais de 24 horas, então temos, sim, que nos que alertar. O ideal seria o paciente chegar e já ser internado, mas é surreal, até por conta do número de leitos que nós temos. Mas (temos que conseguir) que seja resolvido entre 12 e 24 horas”, disse a secretária.

Para tentar solucionar o problema, considerado grave pelas autoridades, a Prefeitura se reuniu com Ministério Público, Santa Casa e Departamento Regional de Saúde nesta última semana. O encontro foi convocado pelo prefeito Alexandre Ferreira (MDB). O Grupo Santa Casa propôs a abertura de 50 novos leitos, desde que haja investimento do Estado para isso. Waléria ressaltou que não sabe quanto tempo esses novos leitos demorariam para ser instalados, mas faz um alerta: eles são necessários a curto prazo.

“A vaga, independente de onde seja, precisamos dela agora. Onde conseguir, em um tempo menor, é o ideal, até para a assistência hospitalar do paciente”, explica.

O drama de quem vive
Henriete Bonamim foi uma das que sentiram na pele a angústia de ter que esperar pela liberação de um leito nesta semana. A filha, de apenas 12 anos, foi diagnosticada com pneumonia e regulada com urgência para a internação. Mesmo com o pedido, a vaga só saiu quase três dias depois.

“Ver a sua filha ali, debilitada, piorando a cada dia, é uma sensação de impotência enorme, de não poder fazer nada. A gente via a preocupação dos médicos, de que tinha algo mais grave acontecendo e eles fizeram tudo o que puderam. Chegou uma hora que não tinha o que fazer, era aguardar mesmo a vaga”, relembra, angustiada, a mãe.

Apesar do momento dramático, Henri ressaltou que muitas pessoas se mobilizaram para conseguir o leito e para apoiar a família. “A gente entra mesmo em desespero, pensa que se não sair a vaga a filha pode até morrer, até mesmo porque, a princípio, não sabíamos o diagnóstico correto. O que me deu forças foi ver que muitas pessoas oraram, apoiaram e isso me manteve de pé”.

Três dias depois de conseguir a vaga na Santa Casa, a menina teve alta e já está em casa.