O ousado projeto de revitalização do prédio da estação da Alta Mogiana, anunciado há poucas semanas pelo prefeito Alexandre Ferreira (MDB), enfrenta dificuldades para superar as fases iniciais e está muito longe de um desfecho. Um mês após o anúncio, a Prefeitura de Franca declarou "deserta" a licitação.
Como nenhuma empresa manifestou interesse pelo projeto até às 14 horas da última quarta-feira, 8, a Secretaria Municipal de Infraestrutura segue analisando e avaliando o processo. Um novo edital deve ser aberto.
Enquanto a situação não é resolvida, os comércios ao redor precisam lidar com vizinhos, muitas vezes, indesejados.
"Percebo que está aumentando a quantidade de usuários de drogas, andarilhos e pedintes, principalmente atrás do antigo prédio da Estação", diz o lojista Milton Caetano Faria, de 57 anos.
Não é exagero de Milton. A reportagem esteve no prédio da Alta Mogiana na última quinta-feira, 9, onde - pelo menos - cinco barracas estavam montadas nas proximidades da antiga loja da Cometa.
Além das moradias improvisadas, a sujeira abarrotava o local. Ao lado do prédio, foram encontradas fezes e marcas de urina. Por conta da exposição ao sol, os excrementos exalam um cheiro insuportável para quem passa pela região.
Os problemas não param por aí. "Recentemente foram furtadas todas as proteções das calçadas, onde tem a parte de esgoto e saída de hidrante, inclusive na porta da minha loja", lamenta Milton. "A gente não pode falar se foram eles, mas a insegurança em relação ao comércio cresce todos os dias".
A loja de Milton tem longo histórico de furtos. Criminosos entraram e levaram R$ 5 mil em produtos no ano passado. "Tive que reforçar o sistema de monitoramento da minha loja".
O sentimento é de permanente insegurança. "Vou praticamente toda semana para São Paulo. Chego à noite, 21h, 22h ou 23h. Fico inseguro de parar o carro na porta e descarregar a mercadoria sozinho".
O vendedor Disney Cesar de Oliveira, de 55 anos, é outro que diz que a população tem receio de passar pela região. "As pessoas ficam com medo de andar ali". Apesar da constatação, Disney, que há 24 anos trabalha na área, ainda não foi afetado diretamente pelo problema. "Se roubam ou mexem, pelo menos aqui no comércio da gente, eles não mexem não. Pelo contrário, eles falam que até vigiam".
O comerciante acredita que quem tenta ajudar os moradores de rua por, na verdade, estar atrapalhando. "Você dá um dinheirinho aqui, uma comida ali, uma roupa de frio ou uma coberta. Ele não vai sair da rua. A impressão é que está atrapalhando. Está mantendo eles na rua".
Problema antigo
“Fui roubado cinco vezes em um mês. Duas vezes entraram e levaram em torno de R$ 10 mil. Virei um escravo disso aqui. Já passei três noites acordadas aqui na porta, louco, com sangue nos olhos, para pegar a pessoa”, diz o comerciante Juliano Neto, de 55 anos, em entrevista ao portal GCN em janeiro deste ano.
Juliano é proprietário de uma loja de artigos musicais na rua General Osório. Na época, até avisos estava recebendo embaixo da porta. Alguns deles, dos próprios andarilhos e moradores de rua do bairro.
"Tenho recebido bilhetes embaixo da minha porta, um acusando o outro. Fulano de tal, que mora em tal lugar, vai arrombar e roubar sua loja".
Em frente ao estabelecimento de Juliano, o comerciante Noronha Júnior, de 35 anos, também acompanha a degraação da região. A segurança foi reforçada na tentativa de evitar os vizinhos indesejados. "Alarme, cerca elétrica, solicitando policiamento quase frequentemente".
"A Estação é um dos berços de todo o começo da história de Franca, junto com o Centro e outras regiões. Porém, a gente vê um descaso total, com falta de iluminação, falta de policiamento e falta de cuidado", finaliza.
Mesmo antes da publicação do edital de reforma em maio deste ano, os lojistas já sofriam com problemas de segurança na Estação.