A antropóloga francana Ana Elisa Bersani defendeu sua tese "Pase Mizè: A linguagem do sofrimento e os haitianos em São Paulo", nesta última semana, junto ao departamento de Antropologia Social da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Seu objetivo é explorar a temática de migração contemporânea dos haitianos na cidade de São Paulo
A antropóloga já vinha se engajando na causa social desde o terremoto no Haiti em 2010. “Comecei a me aproximar do tema das migrações e deslocamentos associados a situações de crise e desastre, em 2012, quando iniciei uma pesquisa de mestrado no contexto do pós-terremoto de 2010 no Haiti”, relatou Ana Elisa.
Bersani realizou uma pesquisa por três anos, de 2016 a 2019, sobre a chegada e acomodação dos migrantes e também como funcionam os serviços prestados para essa população altamente vulnerável.
Tendo como plano de fundo a terrível situação dos migrantes e refugiados no atual contexto global e o dramático aumento do número de recém-chegados em solo brasileiro, Bersani mostra como a chegada dos haitianos se tornou um marco na política de migração e asilo no Brasil nas últimas décadas e descreve os desafios enfrentados na criação de serviços de assistência e de saúde nas cidades que mais receberam migrantes no país nos últimos anos.
De acordo com a tese, “a relevância do trabalho se dá pelo diálogo que estabelece com o campo da saúde e, mais especificamente, da saúde mental, abordando questões prementes na atualidade acerca dos processos de deslocamento e da sua relação com noções de sofrimento e vulnerabilidade”.
A atuação ativa da antropóloga como colaboradora, tradutora e mediadora nos serviços de atendimento ao imigrante permite que a pesquisa aborde os constrangimentos econômicos e sociais, bem como as barreiras linguísticas e culturais que devem ser enfrentadas para que esses indivíduos tenham seu direito à saúde assegurado.
Elisa deu início ao seu trabalho voluntário em 2015 e desde então mantém sua luta à causa. “Ao longo dos últimos sete anos, tenho atuado como antropóloga no campo da saúde apoiando os profissionais na compreensão sociocultural dos processos de saúde e doença, um trabalho que me levou a diversos contextos junto à organização médica humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF), como o Haiti, Moçambique, a República Democrática do Congo e, mais recentemente, a fronteira do Brasil com a Venezuela", diz a antropóloga Ana Elisa Bersani.
"Finalizar o doutorado com uma tese que trata da acomodação dos migrantes haitianos na cidade de São Paulo e da importância da saúde para a efetivação dos seus direitos é uma realização enorme que envolve anos de estudo, envolvimento e dedicação”, concluiu.