Uma cena vem se tornando comum em Franca: motoristas somem "misteriosamente" após causarem acidentes de trânsito na cidade. Não importa se é em um poste, um carro ou uma pessoa, os “fujões” não pensam duas vezes e desaparecem do local. Somente no último fim de semana, quatro casos deste tipo foram registrados - um deles fatal.
O delegado Eduardo Lopes Bonfim, responsável pela SIG (Setor de Investigações Gerais), acredita que, na maioria das vezes, os motoristas não param por terem combinado bebidas alcoólicas com a direção de veículos.
“Acredito que eles fujam por terem ingerido bebidas alcoólicas. Se fica comprovada a situação de uso de álcool, a situação fica bem pior na delegacia. Então, simplesmente eles fogem do local para fugir do flagrante”, disse o delegado.
A atitude de fugir gera um sentimento de revolta tanto nos familiares como na população. Em um dos quatro casos do fim de semana passado, o entregador Luiz Antônio Lopes, de 54 anos, morreu depois de ser arrastado por um motorista que sequer acionou o socorro.
“Ficamos muito revoltados. Ele nem sequer freou no momento do acidente. Foi um covarde, muito covarde mesmo. Porque mesmo se ele estivesse bêbado, se ele tivesse socorrido e parado, a gente não estaria com esse sentimento. Acidente acontece com todo mundo. Agora é esperar a justiça do homem e de Deus. Que seja feita justiça”, disse Zilda Lopes, irmã do entregador.
Os laudos ainda não saíram, mas de acordo com informações do dia do acidente, Lopes foi arrastado por mais de 50 metros e sua motocicleta a mais de 110 metros.
Depois do acidente, o motorista do Celta prata fugiu, chegou a ser identificado, mas se apresentou na delegacia junto com seu advogado. Em seu depoimento, ele informou que não viu a moto, mas que o veículo estava com a lanterna traseira.
“Meu irmão era muito cuidadoso com a moto dele. Não acreditamos que a moto estava com a lanterna queimada. Agora vai ficar a saudade de uma pessoa que era muito importante para a família”, continuou Zilda.
Outro acidente que o motorista também fugiu foi o de um músico, de 46 anos, que teve a frente da motocicleta que conduzia cortada por um carro na avenida São Vicente.
"Nem ao menos olhou pra trás. Me viu caindo e fugiu. É uma vergonha. Ainda deixou cair o para-choque com a placa. Pelo menos agora a gente consegue identificar ele. Vamos ver o que vai virar, porque a moto ficou destruída. Mas ele é um covarde, esse tipo de pessoa precisa ir pra cadeia", desabafou o músico, que preferiu não se identificar.
Motorista fugiu do local de acidente, mas deixou para-choque com placa para trás
Ainda segundo o delegado Eduardo Bonfim, todos os acidentes que o condutor foge do local são investigados para que a pessoa seja responsabilizada.
"Após o Boletim de Ocorrência ser feito, ele é encaminhado para o setor de investigação. Os investigadores vão até os locais e conferem se há câmeras de segurança ou mesmo se encontram alguma testemunha que presenciou algo. Quando veem placas dos veículos, ajuda muito também. A Polícia Militar também já faz um levantamento na hora da ocorrência. Depois disso abre-se um inquérito, para que o crime não fique impune", continuou o delegado.
Bonfim acredita que a pessoa que foge do local do acidente não tem consciência e não pensa nas consequências.
"Não podemos generalizar, mas pra mim a pessoa que foge não tem consciência, não deve ter família. Porque se tivesse família, tomaria algum tipo de providência. Um simples telefonema pode salvar a vida da pessoa (vítima de acidente). Às vezes, ligar para o bombeiro salva a vida do acidentado" concluiu o delegado.
Fuga em caso de lesão ou morte agrava pena
"Se eventualmente o acidente causar a morte ou lesão de outra pessoa, a fuga pode agravar a pena do motorista, pois caracterizaria omissão de socorro. Diz a lei 'deixar de prestar socorro, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à vítima do acidente'", afirmou o promotor.
Carro x poste
A reportagem tentou entrar em contato com a CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz), que não divulgou os números de quantas ocorrências deste tipo em Franca foram registradas em 2022.
Em 2018, último registro informado pela companhia, Franca foi a cidade da região com mais registros de acidente em postes - 129.
"De acordo com o levantamento da CPFL, cada ocorrência de colisão contra postes, interrompe o fornecimento de energia de 115 clientes, com um tempo médio de 4 horas para o restabelecimento", disse a CPFL na época.
Segundo o promotor de Justiça Cláudio Scavacinni, em tese, fugir do local do acidente configura crime de trânsito, com penas civis e criminais. Além de agravar uma possível pena.
Os acidentes envolvendo carro e poste são rotineiros e, agora, os motorista abandonam o veículo, até mesmo de luxo, no meio da rua para não serem flagrados no bafômetro.