09 de julho de 2026
DIA DAS MÃES

Mãe recebe medula óssea de filho e vence leucemia: 'Dei a vida a ele e ele me devolveu'

Por Heloísa Taveira | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Arquivo pessoal
Mãe e filho no dia em que a medula de Gabriel foi transplantada em Vanessa

O Dia das Mães neste ano terá um novo significado para uma família francana. Em abril de 2020, há pouco mais de dois anos, a professora da Educação Básica Vanessa Cristina César, de 41 anos, teve o diagnóstico de leucemia linfoide aguda. Mesmo depois de um tratamento extenso de quimioterapias, não havia solução. Vanessa precisava de um doador de medula óssea para se curar da doença.

Foram 12 meses de ciclos de internação e pilhas de remédio. O cabelo caiu, fraqueza e mal-estar eram constantes, mas ainda assim Vanessa nunca desistiu ou desacreditou que poderia vencer a leucemia. O que não imaginava era que seu filho Gabriel César, de 19 anos, seria a pessoa que salvaria sua vida.

Ao final das quimioterapias, quando Vanessa soube que ainda havia resquícios da leucemia, as equipes do Hospital das Clínicas iniciaram a busca por um doador de medula 100% compatível. Não havia no banco de doadores. Na família, os irmãos também não eram compatíveis.

Foi quando, em abril de 2021, os médicos tentaram um teste com Gabriel. “Os médicos falaram que não queriam alimentar esperanças, mas que queriam tentar com o meu filho. Tinha chance de dar certo, mas como ele é apenas 50% compatível, então podia não dar certo também”, falou Vanessa.

A equipe médica solicitou que a mãe e o filho fossem para o HC, já com roupas, porque Vanessa já poderia ficar internada e o Gabriel passaria por exames. Após os exames, constataram que era melhor tentar o transplante da medula com o filho, já que era uma medula nova e Gabriel não tinha problemas de saúde.

“Nós chegamos lá e já falaram quanto tempo nós íamos ficar, e não era pouco, não. Eu fui com a mente que eu ia, mas logo ia voltar. Me enganaram, porque foram 17 dias no hospital, mas foi uma enganação boa, pelo menos”, brincou Gabriel.

Vanessa Cristina e seu filho, Gabriel César

A poucos dias de ter completado 18 anos, acompanhar a mãe em todo o seu tratamento e ficar 24 horas por dia em um hospital durante 17 dias fizeram com que Gabriel se tornasse uma pessoa muito mais madura e responsável, como ele mesmo se descreve. Em brechas de desânimo, ele foi a mão amiga de sua mãe.

“Minha preparação foi muito psicológica, porque eu sou filho único dela, sou a pessoa que ela mais vai ouvir, então nunca quis demonstrar tristeza. Minha preparação psicológica foi fazer a parte psicológica dela também, porque sempre fui bem-humorado, sempre fazia piada, queria levar para o lado leve. Sabia que a gente estava em um hospital, mas já que estávamos, queria fazer ela rir.”

Ao chegar o dia da cirurgia, Gabriel, que nunca tinha passado por qualquer procedimento por menor invasivo que seja, afirmou que foi tranquilo. “Fiquei com um pouco de medo, mas não doeu. Acordei e já tinha sido feito tudo, e foi o melhor sono que já tive”.

Após a retirada da medula de Gabriel, começaram os preparativos para o transplante de Vanessa. O procedimento é como se fosse uma transfusão de sangue, mas a medula só “pegaria” definitivamente após 25 ou 30 dias.

“Eu tinha comigo que ia pegar em 15 dias. Desde o começo, senti que seria isso. A médica até me chamou no quinto dia para falar que a medula estava dando indícios de ‘pega’ e no 15º ela pegou. Fiquei muito feliz, porque todos os dias conversava com a minha ‘medulinha’ nova”, disse Vanessa.

Após 54 dias, a professora teve alta. A princípio, ela precisava ir ao hospital duas vezes por dia nos 15 primeiros dias para tomar a medicação. Depois, todo mês para fazer a biópsia necessária. Hoje, já com a DRM (Doença Residual Mínima) negativa, ela vai ao hospital a cada três meses.

Laços mais fortes
Mesmo com uma boa relação de mãe e filho, os dois relatam que os laços ficaram muito mais próximos depois desta etapa vencida. “A gente nunca foi tão próximo assim como nos tornamos. Dezessete dias dormindo e acordando juntos nos deixou com uma relação muito mais forte”, disse Gabriel.

Para Vanessa, aos 40 anos, houve um renascimento em sua vida. “Eu dei a vida a ele, só que ele me devolveu a vida. Eu renasci, e se não tivesse acontecido isso, talvez eu não estaria aqui para contar essa história”, disse a mãe.

“O Gabriel foi imprescindível para mim. Todo o humor dele me ajudou muito nessa fase, ele não deixou a peteca cair, não. Eu já tinha todo esse amor de mãe, mas para mim mudou tudo, tudo é tão maior agora.”

Para o filho, o motivo de orgulho para a mãe já é mais que o suficiente. Além disso, a admiração entre eles, que já era grande, se tornou ainda maior. “Eu já achava que ela era uma pessoa guerreira, mas depois disso eu comecei a ter mais respeito por ela. Por ela ser mais guerreira do que eu imaginava. Vendo tudo que ela passou, um desafio a cada dia. Admiro não só por ser minha mãe, mas pelo ser humano que ela é”.