19 de março de 2026
NOSSAS LETRAS

Escritores nos ajudam a viver

Por Sonia Machiavelli | especial para o GCN
| Tempo de leitura: 4 min

Durante oitocentos anos os árabes ocuparam a Península Ibérica. Por todo esse tempo os cristãos tentaram em vão expulsá-los; somente no século XV o conseguiram. As batalhas travadas tiveram efeito exponencial, levando à unificação do território espanhol por volta de 1490. Esse fato coincidiu também com o início das grandes navegações e a descoberta do continente americano por Cristóvão Colombo, o navegador genovês patrocinado pela coroa espanhola.

As décadas que se sucederam à formação da Espanha foram permeadas por intensas atividades culturais, que solidificaram a língua castelhana e propiciaram o surgimento de artistas que entre 1550 e 1650 marcaram o chamado Século de Ouro. Na literatura, o teatro e a poesia elevaram a língua espanhola a um patamar que a tornou conhecida na Europa através da escrita de Gongora, Calderón de la Barca, Lope de Vega e ... Miguel de Cervantes, ícone dessa época fértil e criador de um novo gênero, o romance.  “Dom Quixote de La Mancha”, publicado em duas partes, a primeira em 1605 e a segunda em 1615, se tornaria o livro de ficção com maior número de traduções no mundo. Em suas páginas o leitor encontra, além das façanhas de um louco que se acredita cavaleiro andante e seu humilde, mas lúcido escudeiro Sancho Pança, pensamentos que revelam verdades atemporais: “A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os homens receberam dos céus. Com ela não podem igualar-se os tesouros que a terra encerra nem que o mar cobre; pela liberdade, assim como pela honra, se pode e deve aventurar a vida, e, pelo contrário, o cativeiro é o maior mal que pode vir aos homens.”  Ou então: “Embora eu saiba que não existe magia no mundo que possa mover e forçar a vontade- como alguns simplesmente acreditam- é livre a nossa vontade, e não existe erva nem encanto que a force.” E mais adiante: “O medo é que faz que não vejas, nem ouças, porque um dos efeitos do medo é turvar os sentidos, e fazer que pareçam as coisas outras do que são.”

Se a Espanha teve seu “século de ouro”, a Inglaterra não ficou atrás. Coincidente, o dos ingleses foi aquele compreendido pelo reinado de Elizabeth I, quando o renascimento atinge seu clímax, com maiores destaques na literatura e poesia. Período de rápida transformação em todos os setores da sociedade, nele o teatro cresce. Aparecem autores que rompem com o estilo vigente na Corte e granjeiam o aplauso popular em representações cênicas que surpreendem e agradam à rainha. Com o apoio desta, fortalece-se um nome cuja arte continua reverenciada neste nosso milênio:  William Shakespeare. Poeta e dramaturgo, ele escreveu tragédias como Romeu e Julieta, Hamlet, Otelo, Macbeth; e comédias como A megera domada, Sonhos de uma noite de verão, O mercador de Veneza. Isso, só para citar as icônicas.

Shakespeare transformou o teatro inglês e alargou as expectativas e os limites sobre o que se poderia conseguir através de caracterização, história, língua e gêneros. Pela atualidade temática suas peças continuam encenadas ao redor do mundo. Ele é o autor mais citado na história da língua inglesa e muitas de suas frases fazem parte do nosso cotidiano. Frente a um problema complexo e de difícil solução, podemos recorrer a Hamlet: “Ser ou não ser, eis a questão”. Sobre estranhamentos, nos lembrar de Romeu e Julieta: ''Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe vossa vã filosofia''. Diante de um pai envelhecido que vê a impiedade dos filhos, resgatar o Rei Lear. E quem nunca se pegou pensando como um personagem de “Como gostais”: “o mundo inteiro é um palco/E todos os homens e mulheres/ não passam de meros atores/Eles entram e saem de cena/E cada um no seu tempo/ representa diversos papéis”?

O 23 de abril foi escolhido em 1990 pela Organização das Nações Unidas/ Unesco para celebrar o livro. À parte a curiosidade histórica de terem o espanhol Cervantes e o britânico Shakespeare vivido na mesma época, e morrido no mesmo dia 23 de abril de 1616, o primeiro aos 69 anos e o segundo aos 51, sem terem se conhecido, pensemos além da coincidência:  grandes escritores ultrapassam o tempo e suas palavras ecoam em todas as gerações que o leem. A morte não os apaga, pelo contrário, os aviva.

As edições impressas de Dom Quixote sobem a centenas. Assim as peças e os poemas de Shakespeare. Ambos continuarão a serem lidos pelas gerações futuras com o mesmo deslumbramento daquelas que nos Seiscentos foram a eles apresentadas.

Independentemente da plataforma, impresso ou digital, as histórias que contam, o lirismo transpirado dos poemas, os desvelamentos da alma, o mergulho nas características humanas captadas numa escrita inconfundível para serem mostradas aos leitores de forma especular, fazem desses autores dois monstros sagrados da literatura de todos os tempos. Eles nos ajudam a viver quando criam personagens, situações e diálogos nos quais muitas vezes nos vemos representados e assim nos conscientizamos de nossa humanidade- alegria e tristeza, luz e sombra; amor e ódio, riso e dor... Entre as dicotomias, as nuances que também nos definem.