19 de março de 2026
NOSSAS LETRAS

Coisa Nossa

Por Lúcia Brigagão | especial para o GCN
| Tempo de leitura: 3 min

São Paulo, nossa capital estadual, sempre me fascinou. Não é bonita, não é charmosa, não oferece atrações fantásticas, como muitas capitais europeias; é mistura (des) humana de raças, etiologias, credos, crenças e religiões. Públicos diversos. A região da 25 de março, por exemplo, é o protótipo da miscigenação de raças e povos de diferentes etnias.  Balconistas e donos de loja cooptam clientes em suas línguas de origem bem alto e de forma insistente e estridente que tornam o ar carregado por causa da variedade de sons. É nossa Babel moderna, cercada de mercados para todos os bolsos. Pelos lados da Faria Lima, o que se percebe é o reduto de outro público, outras faces, outros carros, outros estabelecimentos, prédios imponentes, povo de terno e gravata, bolsas de grife. Outro mundo.

Não compete com Londres por exemplo, no quesito museus, ruas de comércio, parques, tráfego, casas de espetáculo, bairros residenciais: há guetos onde o dinheiro se amontoa, claro, mas as capitais europeias em geral a apresentam esse tipo de concentração de forma mais sofisticada e versátil. Pela Avenue Foch, em Paris, circulam os Safra, Chico Buarque, Fernando Henrique Cardoso, Maluf. Andando devagar e a pé pela região de South Kensigton e St.John’s Wood, em Londres,  dá para cruzar nas lojas e calçadas com o David Beckham, ver artistas do cinema que moram em mansões antiquíssimas e belíssimas aguando jardim, com a Kate Winsley esperando ônibus. Além dos políticos do mundo inteiro e dos donos do petróleo.

Mas São Paulo é única, por exemplo, na gastronomia.  O que apresenta em termos de culinária é de arregalar os olhos de qualquer público, de qualquer origem. Há disponibilidade das gastronomias portuguesa, francesa, italiana, suíça, tailandesa, japonesa, indiana, marroquina, mexicana... dá pra fazer tour gastronômico da melhor qualidade, com a vantagem de, muitas vezes, o restaurante escolhido ficar aberto até bem tarde, o que é difícil na Europa.

Recentemente me levaram para conhecer o Museu da Casa Brasileira. Nunca havia ouvido falar dele. A casa, nem tão antiga assim, pois da metade do século passado, exibe mostra fantástica e permanente dos Remanescentes da Mata Atlântica, mais acervo bastante rico de móveis e peças domésticas das casas brasileiras. Fica dentro de parque com arvoredo sensacional.  E oferece exposições sazonais. A que estava, e ainda está no ar, é a História da Tradicional Botica Granado.  No país que está começando a cultuar o passado, acompanhar história que começou em 1870 no centro do Rio de Janeiro e ainda mantém portas do estabelecimento abertas e com o mesmo nome é, no mínimo, emocionante. A Botica Granado era a pharmácia oficial da família real, só para dimensionar seu prestígio.

No pátio do museu há jardins e o restaurante surpresa, absolutamente brasileiro, tanto nos nomes dos pratos, quanto na matéria prima do cardápio:  o Capim Santo. O cardápio é da chef Morena Leite. Sensacional. Difícil escolher. Sugiro para petiscar, o Blinis de Tapioca com Surubim Defumado. Como entrada, o Ceviche de Lagosta com Biri-biri. Prato principal, o Risoto de Camarão, com Banana, Gengibre e Cachaça e, sobremesa, o Crème Brulé de Três Limões. Na saída pegue (e pague) o vidrinho de Brigadeiro de Capim Santo, a canequinha de ágata com a marca da casa. Mas não esqueça de dar uma volta de despedida pelos jardins e, ao entrar, escolher mesa sob as centenárias árvores.

Nem em Paris, nem em Londres há restaurante assim...