“Mãe, fui sequestrada. Me ajuda, eles falaram que vão me matar”. Quem nunca escutou algo semelhante ao atender um número de telefone desconhecido? Na era digital, os golpes são cada vez mais comuns e a sensação de insegurança cada vez maior.
“Fui até a delegacia e abri um boletim de ocorrência. Sei que foi total de mais ou menos R$ 18 mil que eles conseguiram extorquir dos meus amigos”, diz Elson Francisco Bonifácio.
Os amigos de Boni, como é popularmente chamado, caíram no golpe do WhatsApp. O drama começou no ano passado, quando uma amiga pediu para confirmar o número de telefone. “Confirmei que era aquele mesmo que ela estava mandando. Em seguida, houve um apagão na área do WhatsApp do meu celular”.
Até aquele momento, o ex-secretário de Esporte, Arte, Cultura e Lazer de Franca não tinha percebido a gravidade deste “apagão”. No entanto, não demorou muito para outras pessoas entrarem em contato e a ficha cair.
“Quando cheguei em casa no final da tarde, um amigo de Pedregulho me ligou e falou: ‘amigo, não tenho o dinheiro agora, posso te mandar amanhã’. Perguntei que dinheiro e ele falou que eu tinha mandado uma mensagem solicitando dinheiro emprestado porque precisava pagar um boleto e estava sem dinheiro no banco e receberia apenas no outro dia”.
Com mais de 4,5 mil contatos salvos, o falso pedido de dinheiro chegou para outras pessoas. Boni foi até a delegacia registrar um boletim de ocorrência. Aos poucos as vítimas foram aparecendo. Amigos doaram R$ 500, R$ 2 mil, R$ 2,5 mil, R$ 3,5 mil até R$ 4,5 mil. No final desta conta, os criminosos conseguiram por volta de R$ 18 mil.
Segundo Boni, o dinheiro perdido não foi recuperado e o sentimento foi de revolta. “Foi uma frustração tremenda para mim nesse sentido. Fiquei muito chateado mesmo com a situação”.
Não é a primeira vez que Boni sofre com a ação dos criminosos. Ainda secretário na gestão Gilson de Souza (PROS), recebeu uma ligação de um primo de Passos (MG), que estava indo visitá-lo em Franca, mas o carro quebrou na rodovia e precisava de R$ 800 emprestados para pagar o mecânico. “Como estava numa reunião, passei para a minha secretária na época, disse para ver o que o meu primo precisava e que depositasse esse dinheiro”.
Após deixar a pasta em abril de 2020, o agente voltou com a Boni Produções. Foi quando aconteceu o segundo golpe. Ao tentar se registrar como MEI (Microempreendedor Individual), Boni pagou uma falsa taxa de R$ 300 e a resposta recebida foi que a Receita Federal estava com problemas. “Fui na Receita e falaram que não tinha nenhum problema, que a empresa tinha 32 anos e estava tudo certo”.
Depois de tanta dor de cabeça, Boni pede cuidado para a população. “As pessoas precisam tomar cuidado para que nem tudo que chega no celular ir abrindo ou confirmando”.
Caso Tati Freitas – Instagram
O WhatsApp não é a única rede social que é alvo de criminosos. A maquiadora Tati Freitas passou momentos de tensão ao ter sua conta do Instagram invadida no dia 25 de março. “Recebi uma notificação que um celular tinha acessado a minha conta e pediu para eu sair. Cliquei no botãozinho, saiu, e na hora que tentei voltar, já não acessava mais”.
Os criminosos colocaram eletrônicos e eletrodomésticos abaixo do preço à venda. “Várias pessoas vieram me avisar no WhatsApp, falando que invadiram o meu Instagram, que estavam vendendo as coisas e perguntaram se era eu mesmo”.
Seguidores mandaram mensagem pedindo detalhes dos produtos, mas nenhuma venda chegou a ser realizada. “As pessoas se sentiram tentadas a comprar, porque o valor é muito abaixo do produto. Então as pessoas perguntam muito”.
A paulistana, que mora em Franca há cinco meses, levou um dia inteiro para recuperar sua conta no Instagram. “A pessoa invadiu meu Instagram e trocou o meu e-mail. Conseguiu trocar a senha do meu e-mail, então perdi o acesso dele, que foi o mais difícil de recuperar”.
Se engana quem acha que os problemas pararam aí. Durante o processo de recuperação, Tati fez uma nova conta e conseguiu trazer mais de mil seguidores para o novo perfil. A maquiadora foi alvo de críticas ao publicar stories emocionada e desabafando sobre tudo o que estava acontecendo.
“Algumas influencers de Franca falaram que eu não podia estar chorando nas redes sociais. Falei como assim? O Instagram é meu. As pessoas estão acostumadas com robôs, mas eu não sou robô. Vou chorar mesmo”, conta.
Além das críticas, Tati teve problemas com parcerias. “Uma parceira minha falou: ‘ai, se você não conseguir recuperar sua conta para a gente não é viável continuar a parceria’. Eu tipo, okay então. Não tive culpa, não foi uma coisa que eu tinha controle, mas afeta minha vida”
Com mais de 7 mil seguidores, a página do Instagram de Tati Freitas traz o dia a dia dela. Formada em moda e gastronomia, a maquiadora tem parcerias com marcas de bolsa, lingerie, roupas, clínica de estética, entre outras.
Tati busca seguir em frente, mas lamenta o acontecido. “Querendo ou não vai estar associado ao meu nome. Mesmo que a pessoa depois entenda, como que você depois convive sabendo que alguém caiu num golpe em uma conta que é minha. Ia me sentir culpada”.
O que diz a Polícia Civil
Segundo o delegado Eduardo Lopes Bonfim, é muito comum o recebimento de boletins de ocorrência sobre golpes digitais. “A semana inteira a gente recebe boletins não apenas que são confeccionados pela CPJ (Central de Polícia Judiciária), como também, os boletins eletrônicos”.
Bonfim explica que os crimes cibernéticos são tendências, uma vez que não aparece o rosto das pessoas. “Muitas vezes as contas são montadas em bancos digitais com o uso de documentos falsos ou usando documentação perdida, ou furtada, dificultando muito a possibilidade do esclarecimento ou recuperação desse dinheiro”.
Ainda que cada caso seja um caso, existem aqueles cuidados que são importantes tomar para evitar possíveis problemas. “Sempre que for comprar alguma coisa na internet, olhar direitinho se o site é o site oficial. Leilões falsos também é um crime que vem acontecendo muito. Procurar saber se aquela firma existe. Se o endereço citado é realmente o lugar que está sendo descrito”.
“Outra coisa é o golpe da OLX da venda de carros. A pessoa entra em contato com a vítima ou um possível comprador e refaz esse anúncio com um preço bem mais em conta para o veículo. Então, tomar cuidado com coisas baratas na internet, porque geralmente são golpes”, completou.
Ainda segundo Bonfim, são dezenas de crimes digitais recebidos semanalmente. Mesmo assim, existe um que vem chamando atenção pela frequência. É o golpe do Instagram, igual aconteceu com Tati Freitas. “Um dos golpes mais comuns é hackear o Instagram de alguém e fazer a venda de produtos eletrodomésticos normalmente, dizendo que a vítima vai mudar de cidade ou país, e as pessoas acabam comprando porque está mais barato”.
As pessoas que se sentirem vítima se algum golpe, podem realizar o boletim de ocorrência on-line (clique aqui!) ou na CPJ, localizada na rua Dr. Marrey Júnior, 2411, no bairro São José.
Caso Luiza Helena Trajano
Nem a acionista, atual presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza e uma das mulheres mais ricas do Brasil se livrou da ação dos marginais. Assim como aconteceu com Boni, pessoas se passaram por Luiza Helena Trajano para pedir dinheiro.
Em publicação feita em seu Instagram no dia 12 de abril, Luiza Helena disse que estava sendo vítima de uma fraude. “Pegaram uma foto minha e estão se passando por mim no WhatsApp, pedindo dinheiro. Por favor, não mandem e não cliquem em nada. É fraude”, diz o texto.