19 de março de 2026
ARTIGO

A História do Livro

Por Sonia Machiavelli | especial para o GCN
| Tempo de leitura: 4 min

Pela capacidade de resistir se transformando ao longo do tempo, o livro como produto físico, plataforma para registrar o pensamento e difundi-lo, compõe história rica. Hoje, Dia Mundial do Livro, data instituída  pela UNESCO em 1995, empreender uma viagem através dos séculos é uma maneira de celebrar sua existência.

Nas línguas de origem latina, onde se mantém como livro, libro e livre, o substantivo deriva de “liber”, lâmina de madeira usada para escrever. As lâminas manuscritas eram numeradas e depois coladas ou costuradas por uma das bordas. Antes da invenção da imprensa por Gutemberg, o livro se constituía de único exemplar em forma de rolo ou códice, folhas reunidas que formavam um volume. Bem antes, assírios e babilônios escreviam em plaquetas de argila; judeus em rolos de couro; gregos e romanos em tabuinhas de madeira recobertas com cera; egípcios, em rolos de papiro, subproduto do papirus, planta que cresce às margens do Nilo.

No fim do Império Romano, a matéria prima do livro passou a ser o pergaminho, que resultava de uma pele de cabra, cordeiro ou ovelha preparada para ficar resistente mas macia. O nome guarda o da cidade grega onde se originou, Pérgamo.

O livro enquanto pergaminho assumiu valor artístico com ornamentação em miniaturas - as chamada Iluminuras. Tive o privilégio de conhecer há alguns  anos, em Dublin, na companhia da amiga Rita Moscardini e outros companheiros de viagem, o Livro de Kells, em exposição permanente na biblioteca do Trinity College. É o livro mais antigo da Irlanda. Escrito em latim, contém os quatro Evangelhos do Novo Testamento, além de notas explicativas e as Iluminuras, que representam cenas do cotidiano da Idade Média. Kells é o nome de mosteiro milenar. Os monges copistas eram os artistas responsáveis por essas obras de arte que, de tão belas, passaram a ser concebidas no imaginário popular como “obras de anjos”.

No século XII, através dos  árabes, o papel chega à Europa. Os muçulmanos haviam arrancado à força dos chineses os segredos de sua fabricação. Foi o primeiro passo para que o livro passasse a ser mais difundido. O segundo, e decisivo, foi a invenção da imprensa com caracteres móveis, gigantesca contribuição de Gutenberg à humanidade. Com menor custo, o livro tornava-se mais acessível. O primeiro foi a Bíblia, que demandou dois anos de trabalho. Rapidamente o livro tornou-se “um produto industrial, de formato variado, constituído de frontispício, índice, indicação topográfica, com ou sem ilustrações baseadas em arte-final ou fotografias; as folhas são reunidas ou dobradas em cadernos, costurados e brochados ou encadernados”, conforme o define a enciclopédia Mirador.

Do primeiro exemplar da Bíblia, em 1455, aos nossos dias, são mais de cinco séculos de livros impressos. Mas desde o começo deste milênio uma revolução vem mudando a forma de publicar e de ler.  A revolução digital  introduziu o e-book, palavra inglesa que tem em português o significado de livro eletrônico. Numa explicação simples, é um arquivo que funciona no computador, em tablet  ou celular. As diferenças? Algumas. A mais crucial para as gerações habituadas ao impresso, como a minha,  é que enquanto o livro  tem layout estático, o e-book o apresenta dinâmico, ou seja, o texto "flui" para se ajustar ao tamanho da tela, já que e-books não têm páginas. Em decorrência, claro, não têm números de página que possam servir  como meio de navegação e referenciar em uma tabela de conteúdo ou índice. Mas oferece tabela de conteúdo que possui hiperlinks para os capítulos individuais e/ou seções do livro. Para substituir o índice, o leitor usa a função de busca do e-reader para procurar palavras ou tópicos específicos. As já antigas notas “ao pé da página” se tornam "notas finais".

Os jovens nascidos neste milênio têm grande facilidade em ler no e-book. Os mais  velhos, não muita. Mas, como toda mudança que impacta a história da humanidade, veio para ficar. Basta olhar em retrospectiva para ver como se adaptaram rápido às novas invenções os leitores das tabuinhas de madeira ou argila, dos  papirus, dos rolos, códices, pergaminhos.

Leitora  alfabetizada o papel, estudante que  recebeu em estado de epifania o “primeiro livro” no meio do ano, encontro ainda alguns empecilhos na leitura do livro digital. Costumo sentir com as mãos o formato; com as narinas, o cheiro; com  os dedos, a textura do papel. E guardo comigo a sensação que Clarice Lispector descreveu em “Felicidade Clandestina”, ao traduzir o sentimento de uma menina leitora com olhos mergulhados nas páginas de um livro muito desejado: “Era uma mulher com seu amante”.

Sobre os que talvez perguntem a respeito do motivo da escolha do 23 de abril como Dia Mundial do Livro, escreverei  na próxima semana. Não mais sobre forma, mas a respeito de conteúdo, ou seja, do livro como  transmissor de conhecimento, propiciador de entretenimento, estimulador de reflexões  e com poder de mover a alma ao recriar mundos.