Um bairro assombrado. Moradores convivendo com o medo, insegurança, violência, sexo na rua, crimes e drogas. A tranquilidade do tradicional bairro da Vila Formosa e da região acabou.
Insatisfeitos, moradores pensam em deixar o local, mas os imóveis perderam valor de mercado. Pontos comerciais começam a fechar as portas. Já os que resistem sofrem com furtos, importunação aos clientes e muita sujeira.
Um grupo de moradores formou uma comissão para buscar uma solução, acionando o Ministério Público. Isso porquê, desde a instalação do Centro Pop no bairro, mudou radicalmente a vida das pessoas dali.
Solange Aparecida Borges, 62, que mora a 20 metros do equipamento social, se reuniu com o Ministério Público semana passada, em nome dos moradores do bairro. Ela protocolou um relatório narrando o que ocorre nas proximidades do equipamento social, a pedido da própria Promotoria Pública.
“Muita coisa que eu falei lá no Ministério Público, eles não sabiam. Muitas coisas não chegam até eles. Inclusive, uma funcionária do Ministério Público me disse ao ler minha escrita: 'As coisas que você colocou no relatório são de arrepiar'”.
A mulher relata que já se deparou com morador de rua que frequenta o Centro Pop armado com revólver em seu portão, além de presenciar sexo na rua. “Aqui tem assassino, estuprador, ladrões, fugitivos. São bandidos disfarçados de moradores de rua. Vem gente de várias cidades pra cá. Um cara me pediu água, e me disse que era de São Paulo, e era integrante do ‘tribunal do crime’ e estava com uma arma na cintura”.
A moradora no bairro há 50 anos segue com seu relato. “Eu já me deparei com um homem, na minha porta, se masturbando. Gritei meu filho. Também já presenciei sexo explícito na minha porta. Eles furtaram os fios de uma loja, venderam e fizeram churrasco com o dinheiro. O dono da loja furtada chorava enquanto que os caras faziam churrasco na calçada do Centro Pop. É assustador o que está acontecendo aqui no bairro”.
Solange aponta também fatos que acontecem dentro do próprio Centro Pop. Sem receio, ela diz que funcionários do equipamento se envolvem como os frequentadores. “Tem muita coisa errada ali. Já peguei uma moradora de rua fazendo massagem em uma funcionária. Tem funcionária que está indo pra cama de morador de rua. Como que um Centro Pop vai pra frente?”.
A líder do movimento busca uma solução do problema que o bairro passa. Ela disse que quase não sai mais à rua com as netinhas, a pedido das próprias filhas. “Aquela paz que nós tínhamos no bairro acabou, estamos vivendo num inferno. A maioria das pessoas está com medo de sair às ruas. Ainda vai acontecer uma tragédia aqui. Eles brigam entre eles, brigas feias, de chutar a cabeça, de ficar desmaiado. Se fazem entre eles, podem fazer com a gente”.
Morador há mais de 20 anos no bairro, Vitor Hugo Flausino, 70 anos, disse a que a região "virou um inferno" após a implantação do Centro Pop.
“Virou um verdadeiro inferno o bairro. Eles não ficam no interior do prédio, eles ficam na rua em bando, atentando os vizinhos. Eles defecam e urinam na porta da casa da gente. O bairro saiu do céu para o inferno. Nós vivíamos até então em paz. Eles furtaram meu vizinho aqui, da academia, três vezes. 90% deles são de fora. Fiquei sabendo que uma perua deixa muitos eles lá na saída de Ibiraci e eles vêm pra cá”, disse o aposentado.
Vitor Hugo disse que já foi agredido com um estilete por um frequentador do equipamento. “Um deles tentou estuprar uma criança aqui perto de casa, eu escutei um grito da criança e fui lá. Eu cheguei a brigar com o cara, que fugiu. Mas ele estava com um estilete e me atingiu no braço”, contou ele, mostrando a cicatriz.
O aposentado falou que os frequentadores do Centro Pop ficam como se fossem "zumbis" andando pelo bairro durante a noite. “Os imóveis desvalorizaram muito. Já pensei em me mudar para outro lugar da cidade, mas quem tem que sair daqui são eles, não eu. Comprei essa casa com muito suor, fiz até financiamento”, disse Vitor Hugo, que mora no Jardim Samelo, a três quadras do Centro Pop.
Outra moradora do bairro, Liz Veríssimo, 42, relata que já foi vítima de furto e roubo dos frequentadores do Centro Pop. “Eles não são moradores de rua, são bandidos. Eles fazem as necessidades fisiológicas na rua, nos terrenos baldios, fazem sexo, usam drogas, gritam, xingam, brigam... É um terror. Eles roubaram o número de minha casa, que é material de bronze e uma bicicleta. Minha casa desvalorizou muito também. Ninguém quer mudar pra cá e quem quer sair não tem jeito, por conta dessa desvalorização imobiliária”.
“Uma vez estava chegando à noite em casa e fui roubada. Em deles puxou minha bolsa, me jogou no chão e correu, mas depois minha bolsa foi encontrada na Pracinha do Canhão (lugar próximo também frequentado por moradores de rua). Isso aqui (Centro Pop) é um projeto falido, nunca resolveu nada, não recupera ninguém. Não tem uma oficina para ensinar um trabalho, não tem nada que sirva para melhorar esses moradores ou recuperar as pessoas viciadas”, disse Liz.
Alessandra Moura, 38, é outra moradora da localidade descontente com a situação, com relato semelhante, dizendo da insegurança e do medo. “Está insuportável. Alguma coisa precisa ser feita por nossas autoridades”.
Pelo menos 500 moradores de rua são cadastrados para receber atendimento no Centro Pop, denominado “Espaço Dignidade”.