Durante anos, num canto do jardim florido e embatumado de plantas das mais variadas espécies e procedências, o coité floriu – discretamente – e deu frutos, que ninguém sabia se eram ou não comestíveis. Não que fossem feios ou repugnantes. Antes diria, descômodos, para servir de refeição. Olha a maçã. Daí sua popularidade, imagino. O glutão apanha, dá uma limpadinha da casca na camisa e, não importa se azeda ou doce, morde, mastiga e engole. Pela facilidade do processo talvez por isso esteja tão ligada à história bíblica.
O coité, ainda bebê, mudinha pequena e miúda, foi ganho pelo dono da casa, presente de prima distante que a trouxe da fazenda dos pais. Pediu que a mulher plantasse e prometeu – à guisa de incentivo e justificativa para a estranha planta entrar num jardim planejado, que todos, especialmente ela, ficariam surpresos quando viessem flores e, depois, frutos. Bastante descrente e desconfiada, pediu ao jardineiro que a colocasse num canto do imenso gramado. Ficou anos lá. Um dia, apesar de ter produzido estação após estação estranhas, miúdas e discretas flores, ela deu frutos: bolas verdes, do tamanho do coco da Bahia, grudadas nos ramos. “Vamos abrir a fruta!”, alguém sugeriu. Apesar da casca resistente, o conteúdo era baba grossa, espessa. E ninguém soube o que fazer com o que não pareceu em absoluto comestível, de cheiro não de todo ruim, mas em absoluto apetitoso. Produziu, por anos, aquelas bolotas inexplicáveis e sem, imaginava-se, qualquer serventia. Nunca serviu de proteção ao caminhante cansado e a teoria da relatividade seria outra, caso Isaac Newton escolhesse o coité e não a macieira.
Agrônomos amigos da família nunca foram consultados sobre a utilidade do coité na alimentação humana, mas descobriu-se que podiam - e eram - utilizados por índios como canecas para água, ou pratos para sopas ou mingaus. Nas tribos eram abertos e, depois da retirada do recheio, lavados, secos ao Sol, no que ganhavam rigidez e tornavam-se impermeáveis, facilitando novas e diversificadas utilidades. Recebiam desenhos decorativos, de certa rusticidade, absolutamente coloridos. São, descobri depois, matéria prima para enfeites que alegram ambientes, bonequinhas cujas saias são a casca arredondada do coité, com tronco e membros de, por vezes cordas, por vezes emaranhado de linhas. Tudo, inclusive as cabaças descobri, são matéria-prima para a ilimitada criatividade humana.
Lição de economia ouvida, lida, jamais praticada: qualquer indivíduo que queira ser pelo menos bem sucedido deve unir criatividade com empreendedorismo.
Outro uso interessante para o coité, depois de seco: ser transformado em luminária. Devidamente trabalhado – aplicação de pedras coloridas, furinhos de desenhos estrategicamente planejados; pintados com tintas coloridas, viram luminárias que, colocadas em varandas de casas rústicas e criativas, tornam-se elementos de decoração despretensiosos, informais e aconchegantes, nem por isso, baratos. Cada peça, devidamente decorada e assinada é considerada arte rústica e, dependendo da fama do artista/artesão, são vendidas por cinco notas daquelas que são decoradas com o lobo-guará. Sangrei, por anos, substancial fonte de abastança nascida no meu próprio quintal. Joguei no lixo, literalmente, minha possibilidade de pé de meia.
Nascer pobre é sina. Não ter pé de meia recheado é falta de engenho e arte.