08 de julho de 2026
CONTO

Os lobos da estepe

Por Luzia Izete da Silva | especial para o GCN
| Tempo de leitura: 2 min

A noite se aproxima e sua escuridão revela o correr dos lobos, no silêncio estrondoso das luzes do céu. Não o silêncio profundo das estrelas inatingíveis, mas o estrondo de bombas, de armas disparadas tão distantes, cujo brilho no céu, cujo estampido marca como raio-x a vida dos que se escondem dos lobos. E à noite eles são de toda espécie. A angústia dos sem-destino a olhar para trás, vendo tal destruição de suas vidas que tanto demorou para se erguer. Tem às suas frentes a incerteza se irão retornar e se algo sobrará intacto, seja em suas mentes, seus corpos ou seus destinos. Sim, destinos, fados, sinas. Não há escolha senão lançarem-se a rumo incerto na escuridão ou ao raiar do dia.

E quando tudo passar, quando as bombas cessarem, quando mãos inimigas se apertarem em acordos pré-futuro, quando as estrelas da noite voltarem ao seu silêncio e solitárias puderem ser vistas na escuridão, os lobos estarão nas estepes, longe dos rebanhos, quando o dia amanhecer infinito sol no horizonte, grande será a reconstrução, apenas das coisas visíveis e palpáveis, ressalte-se. Menos homens-filhos terão voltado para rever suas mães, menos pais terão seus filhos nos braços e lapsos de continuidade serão a lembrança cotidiana. Mas todos tomarão seu dia nas mãos e dar vivas por estarem de volta - os que conseguirem - e este dia será longo, longo o suficiente para recomeçar. Suas mentes continuarão a ouvir o estrondo das bombas, verão nos relâmpagos o brilho sintético do caos noturno cuja confusão instala o indelével drama a marcar em carne viva a ira dos lobos. Na dualidade dos lobos, onde está o grande mal, o grande erro? Estar no caminho? Ser o caminho?

A guerra é por si irracional e primitiva. No atual estado de avanços em que estamos ela já deveria ter sido apagada do software humano. No entanto persiste. Um atavismo. Poderia não ser, tal seu grau de repugnância. Enquanto os lobos, solitários em seus desejos, seus ódios, e apertos de mãos ao findar suas ganas, fazem brilhar seus olhos ávidos nas noites, confundindo estrelas e bombas, medo e coragem, passado e presente, futuro e incertezas, mães, pais, filhos, jovens cheios de vida, trilham caminhos estreitos, feitos de silêncio e medo. Suas memórias jamais apagarão o torpor dos lobos. Que a alma de Tapac vigie a alma ucraniana.