Um menino aguarda ansioso a chegada dos pais adotivos. Um olho na janela, outro para a vida em aberto.
Sabe-se que ele participa da rotina do orfanato, vai às aulas e brinca com outros órfãos. Hoje é o dia que tanto aguardou, foi longa sua a espera. O tempo passa diferente em cada fase da vida, e quando nos sentimos desamparados ainda mais.
O menino que é esperto, de poucos pertences, vai para sua nova vida com apenas essa velha mala. É quando vemos a bagagem.
Quantas mãos a tocaram essa mala? Quantas viagens e sonhos testemunhou? É modelo antigo, de couro, surrada pelo tempo. Dentro dela, o menino guarda seus tesouros, a parte do tempo em que foi feliz e cuidado. Vai levar esse retrato da inocência já perdida. São objetos tão simples, mas singulares para ele, mostraríamos se tivéssemos mais tempo. Pequenas memórias manuseadas por quem o amara (pais, amigos, tios, avós?).
Os novos pais chegam. Euforia. Abraços e outros gestos de pura alegria. E os quatro seguem para a vida que segue: os pais adotivos, o menino e a velha mala. Um quinto elemento também segue com o grupo até o portão, e além: eu quieto escondidinho dentro da mala, guardado como se minha vida também fosse memória de um órfão encontrando a felicidade possível.
E o mundo gira, gira e não cabe em nenhuma mala. Quanta bagagem nos parece a memória do que fomos ou projetamos ser. Quer sejam boas ou más lembranças, somos nós que decidimos o que continuar levando ‘na mala’. O que pesa o suficiente para ser ponte na travessia que não finda.
Um soluço embarga minha narrativa. É a tradução do desejo que haja para cada órfão braços abertos de pessoas amorosas.