(Semana passada publiquei, neste caderno Nossas Letras, o resultado de uma pesquisa que fiz acerca das respostas de autores e autoras consagradas sobre o ato de escrever. Dada minha correspondência com escritores e escritoras de língua portuguesa, recebi a leitura e análise e respostas do poeta moçambicano Ercson Sembua, ele que tem poemas publicados na antologia TANTO MAR ENTRE NÓS: DIÁSPORAS organizada por mim e à venda no site da Editora Kotter. Leia a seguir as palavras de Ericson Sembua. Baltazar Gonçalves
Lí e reli o artigo que tem como título esta grande e difícil pergunta: POR QUE ESCREVER? Considero-a absolutamente necessária. Uma das questões mais fundamentais na literatura, sob o meu prisma, é justamente essa. POR QUE ESCREVER? E devo realçar que não é fácil de responder. Eu cá estou maravilhado com a riqueza das respostas. Aplaudo então o bom senso na seleção feita. Embora existam ainda outros grandes nomes por acrescentar, sabe-se que é praticamente impossível mencioná-los todos. Já li boa parte dos nomes que foram citados no artigo e todas respostas se revelam válidas a mim, naturalmente.
Allen Ginsberg respondeu que escrevia poesia porque, entre outras coisas, gostava de cantar. Em contrapartida, Manuel Bandeira confessou que fazia versos porque não sabia fazer música. É um caso para se admitir o relativismo no concernente às razões que cada escritor tem para escrever. Algumas razões são influenciadas pela cosmovisão, outras pela cultura, outras ainda pelos influxos menos consideráveis; penso que o que realmente importa à literatura é que a resultância seja benfazeja.
Estimo bastante a resposta da Rachel Queiroz. Não somente porque ela salienta a contingência nas razões para escrever, mas também pelo cerne de sua resposta, que deve constituir um legado. Segue-se singelo e faustoso quando, no escoar de sua resposta, ela diz que escreve para dar testemunho do seu tempo, de sua gente e, principalmente, de si mesma. Essa concepção fez-me pensar em certas entidades que, cônscias ou incônscias, ocupam-se seriamente em escrever a cultura e o tempo de outrem. É um problema muito sério, embora antigo. Ora, por que um brasileiro escreveria sobre o Halloween, se tem o Saci Pererê? Por que um moçambicano hodierno retrataria a realidade da época colonial num romance, enquanto esta já nos foi contada por escritores daquele tempo, sem contar que temos hoje o advento do terrorismo no norte do país, que também pode resultar num belo romance? Se um escritor escreve a cultura e o tempo alheios, quem escreverá por ele o que a ele cabe? Urge repensar a literatura, não apenas em matérias genéricas e de linguagem, mas no teor temático e na moldura temporal também.
Em conformidade com as respostas apresentadas por Cecília Meireles, Júlio Cortázar e Moacyr Scliar, pode-se afirmar que a conexão diversa que cada um deles experimentou, na infância, com a literatura, serviu-lhes de estímulo para persistir em engendrar exercícios literários com mais frequência e solenidade. Todos estes começaram a escrever porque liam. Eis o salutífero corolário de ter livros em casa e de exortar a cultura de leitura às crianças; é, pois, a partir do exercício da leitura que as crianças aprendem e apreendem a vida. Penso que não se pode negar o enorme valor que têm esses três escritores para a cultura de seus respectivos países e para a literatura universal. É necessário enfatizar também que boa parte dessa glória reunida foi possível graças ao exercício da leitura. Eu cá creio que ainda é possível criar grandes nomes que iluminem o valor da cultura; os exemplos estão ao nosso alcance, cabe a nós segui-los.
Penso que esta resposta dada por Paulo Francis ["Escrevo romances para me perpetuar, para ter fama, glória, dinheiro, amor, essas coisas comezinhas da vida."] é a realidade abstrusa de alguns autores hodiernos, principalmente dos neófitos e/ou aspirantes. Entretanto, não considero que seja um propósito próprio de um verdadeiro literato. Confesso, porém, que não sei em que contexto Paulo Francis aplicou aquela resposta, pode ser que o tenha dito em tom de sarcasmo, justamente para exprobar os que seguem aquela linha.
Algo me arranha a alma na resposta dada por João Cabral de Melo Neto. Uma ideia que subscrevo porque me identifica. É quando ele diz assim: "Tenho a impressão de que a gente escreve por dois motivos. Ou por excesso de ser — é o tipo do escritor transbordante, como a maioria dos escritores brasileiros; é uma atitude completamente romântica — ou por falta de ser. Eu sinto que me falta alguma coisa. Então, escrever é uma maneira que eu tenho de me completar." Eu cá partilho da mesma ideia. Desde que ousei escrever, calculei esse raciocínio. Agrada-me saber que ando muito bem acompanhado nessa linha de pensamento.
É-me intrigante quando, no exercício de sua resposta, Carlos Drummond de Andrade argumenta, "sem exagero, sem fazer fita", que não é propriamente um escritor. Penso que esta é uma atitude emblemática de perfeccionistas e estetas. Em diversas formas de expressão artística, inclusive na literatura, toda a inspiração, toda a transpiração, toda a aspiração e toda a respiração têm um único propósito — alcançar o clímax da essência do belo. Ora, o clímax do belo é absolutamente intáctil. É por isso que considero todo e qualquer exercício artístico como uma tentativa. E esse é um fenômeno agradável; penso que se fosse possível alcançar o clímax da essência do belo, não haveria mais razão para prosseguir com as tentativas —haveria, na arte, uma espécie de Armagedon.
Eu já tinha dito, no início dessa mensagem, que essa era uma pergunta muito difícil; e, se ela fosse dirigida a mim, eu gostaria de responder como Fernando Sabino, cuja reação passo a transcrever: "Tenho a impressão de que se eu soubesse responder a essa pergunta deixaria de ser escritor. Não haveria condição. Não saberia dizer, não. Está além da minha compreensão. Esta pergunta é tão grave como se perguntassem: ‘Por que vive? Por que ama? Por que morre?’. Talvez eu escreva para atender a essas três presenças que são as únicas que existem na vida de um homem. Não sei por que escrevo. Eu nasci, virei homem e vou morrer.". Essa talvez seja a resposta mais sincera e genuína dentre as que mais estimei.
Confesso que não soube compreender essencialmente a resposta de Gabriel Garcia Márquez — "[Escrevo] para que meus amigos me amem mais"? Parece ter algum sentido, mas não consigo harmonizá-la em um quadro lógico. Se eu soubesse em que contexto ele o disse, talvez pudesse reavaliar a resposta.
José Saramago respondeu a pergunta revelando que escrevia porque não queria morrer. Fernando Pessoa assumiu que escrevia para salvar a alma. Augusto dos Anjos, em sua resposta, admitiu que escrevia para entreter o espírito. Acrescento também Anne Frank que, em seu Diário, revelou que escrevia para aliviar suas dores. Convoco também Emil Cioran que, em um de seus Cadernos de 1957 a 1972, apontou que escreve para sobreviver. Todas as outras respostas fazem uma oblíqua referência a vida. Penso que a arte — neste caso a de escrever — tem tudo a ver com a vida. Escreve-se para sobreviver à vida. Escreve-se para sustentar a vida. Escreve-se para amar a vida. Escreve-se para viver. E o corolário de toda e qualquer criação artística é um perfeito plágio da vida.
Penso que a resposta sintética dada por William Faulkner — uma frase de apenas quatro palavras compostas por sete sílabas — pode servir como a súmula de todas as outras. POR QUE ESCREVER? — "Para ganhar a vida".