11 de julho de 2026
TRAGÉDIA

Desastre em Petrópolis tem culpados que todos conhecem, diz herdeiro da família real

Por Ivan Finotti | da Folhapress
| Tempo de leitura: 7 min
Divulgação/Arquivo pessoal
Foi o trisavô de João Henrique de Orleans e Bragança, o imperador d. Pedro 2º, que fundou a cidade em 1843

"Esse desastre tem culpados que todos conhecem", diz João Henrique de Orleans e Bragança, herdeiro da família real que fundou e foi a dona de quase toda a área urbana de Petrópolis, no Rio de Janeiro. "São os vários prefeitos e vereadores da cidade que incentivaram a ocupação dos morros da região."

"Falava-se abertamente disso nos anos 1970. Os políticos traziam gente de Nova Iguaçu e Caxias, davam terrenos em áreas de risco, sem escritura nenhuma, em troca de as pessoas mudarem o domicílio eleitoral para a cidade. 'Venham para Petrópolis que tem terreno para construir', diziam na época. E até hoje é assim", afirma Orleans e Bragança, antes mesmo de ouvir qualquer pergunta do repórter.

"Não tinha Ministério Público, não tinha preocupação com o ambiente, não tinha associação de moradores. Seja de esquerda, centro ou direita, os políticos não ligam. Só fazem obras para aparecer e não querem saber se quase metade dos moradores de Petrópolis está em área de risco. Não ligam se morrerão soterrados", exalta-se o príncipe.

Frequentador da cidade no final dos anos 1960, durante a infância e a adolescência, João Henrique se afastou da região serrana na década seguinte, quando passou a ir para a casa do pai em Paraty. E é lá que mora até hoje. "Meu pai teve imóveis em Petrópolis, mas se desfez há muito tempo", conta ele.

Quando tinha por volta dos 14 anos, ele passava longos verões em Petrópolis, mas ficava na casa da avó de um amigo, em frente ao rio Piabanha, um dos que transbordou na inundação desta semana.

Questionado pela reportagem, ele conta um pouco das boas recordações que tem daquela época. "[Me] Lembro dos bailes de Carnaval. Tínhamos um grupo que andava de bicicleta chamado Amarelinho. Nossas sete bicicletas eram amarelas e terminávamos o passeio na sorveteria Central, onde havia sorvete de queijo, coisa que não se via no Rio. Era o despertar da paquera", diz hoje, aos 67 anos.

Foi o trisavô de João Henrique, o imperador d. Pedro 2º, que fundou a cidade em 1843. Por isso, até hoje é conhecida como Cidade Imperial. A história, no entanto, começou 21 anos antes, em 1922, quando dom Pedro 1º, a caminho de Minas Gerais, pousou em uma fazenda ali e se encantou com a região. Tanto que comprou para si a fazenda do Córrego Seco.

João Henrique não sabe o porquê desse nome. "Não sei se havia mesmo um córrego seco, mas meu trisavô construiu lá sua casa de verão, que hoje é o Museu Imperial de Petrópolis", conta. Dom João 2º passou muitos verões na cidade, de onde despachava e decidia os rumos do império.

A certa altura, resolveu colonizar a região usando o princípio da enfiteuse, pelo qual doava lotes para os imigrantes. Em troca, receberia uma taxa anual e um imposto chamado laudêmio, de 2,5%, cobrado quando o novo dono do imóvel decidisse vendê-lo. Esses valores ainda são recebidos por seis primos de João Henrique, que herdaram os rendimentos.

"Acho que esse sistema deveria acabar", diz João Henrique, que diz também pagar pela enfiteuse à Marinha, por ter uma casa às margens do mar em Paraty. "Quando dom Pedro 2º fez isso, o laudêmio fazia sentido. Ele doou a cidade inteira, mais de mil lotes, sem receber nada."

"E não era um privilégio da família real. Outras famílias, além da Igreja Católica e da Marinha, ainda recebem por meio disso até hoje. Mas, na minha opinião, isso já está ultrapassado como ideia", finaliza o príncipe.

120 mortes

o menos 120 pessoas, incluindo 13 menores de idade, morreram devido ao forte temporal que atingiu na tarde de terça-feira (15) a cidade de Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, causando inundações, enxurradas e deslizamentos. Foram resgatadas com vida até a noite desta quinta-feira (17) 24 pessoas.

A DDPA (Delegacia de Descoberta de Paradeiros)? da Polícia Civil do Rio de Janeiro já registrou ao menos 116 desaparecimentos.

Durante o trabalho dos policiais, três pessoas que antes constavam na lista de desaparecidos foram localizadas no colégio estadual Rui Barbosa e outras 15 tiveram o óbito confirmado. Seis identificações estavam duplicadas.

Os pontos de apoio da Prefeitura de Petrópolis, montados para atender as vítimas do temporal, estão recebendo equipes da DDPA para registrar os desaparecimentos. Para auxiliar na localização, é preciso informar o nome completo da pessoa desaparecida, número da identidade, caso disponível, as características físicas e a roupa usada.

Até a tarde desta quinta (17), o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro já havia contabilizado 59 pessoas desaparecidas em razão dos deslizamentos, sendo que 13 foram encontradas com vida. As comunicações estão sendo recebidas pelo Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos.

No fim da tarde, voltou a chover forte em Petrópolis, e a Defesa Civil emitiu alerta de mobilização para evacuação de moradores das áreas de risco do bairro Quitandinha. As vias Washington Luiz e Coronel Veiga tiveram que ser fechadas em razão de inundações, e a queda de uma árvore interditou a subida da serra.

Segundo a Defesa Civil municipal, foram registrados 60,5 mm de chuva em apenas uma hora. Na terça (15), dia do primeiro temporal que devastou a cidade, foram registrados 260 mm de chuva em seis horas.

Mais cedo nesta quinta, o órgão acionou 14 sirenes, para aviso de previsão de chuva forte. Foram alertados os moradores das localidades da 24 de maio, Ferroviários, Vila Felipe (Chácara Flora), Sargento Boening, São Sebastião (Adão Brand, Vital Brasil) e Siméria.

A previsão é de pancadas de chuvas moderadas a intensas até sábado (19).

À tarde, a Defesa Civil interditou e evacuou a rua Nova, na comunidade 24 de maio, e a vila Manoel Corrêa, na rua Teresa. A medida preventiva foi adotada após o rolamento de blocos rochosos.

O órgão vem fazendo vistorias na região desde terça-feira (15) e constatou o risco de novas ocorrências. Na tarde desta quinta, uma casa chegou a ser atingida, mas ninguém ficou ferido.

Segundo o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), é muito alta a possibilidade de ocorrência de eventos de movimentos de massa na região serrana, especialmente em Petrópolis, devido aos elevados acumulados de precipitação nas últimas 48 horas (> 250mm) e nas últimas semanas.

"Estes fatores indicam um elevado nível de umidade do solo que pode favorecer a ocorrência de deslizamentos de terra mesmo na ausência de chuva, ou chuva fraca", diz previsão do órgão.

Cerca de 200 policiais civis, entre peritos legistas e criminais, papiloscopistas, técnicos e auxiliares de necropsia e servidores de cartório, estão atuando no apoio terrestre e aéreo na cidade. Também trabalham no município 540 bombeiros, 210 policiais militares e nove helicópteros do estado.

O Corpo de Bombeiros montou um hospital de campanha e há 190 equipamentos, entre maquinário e veículos, para desobstrução de vias e retomada da rotina na cidade. A Secretaria de Estado de Saúde enviou dois caminhões a Petrópolis com medicamentos e vacinas antitetânicas.

A prioridade nesta quinta-feira, além de localizar as vítimas, foi acelerar a identificação dos mortos, reconstruir a estrutura do município e garantir atendimento social aos moradores da cidade, destruída pelas inundações e deslizamentos.

Pela manhã, a Polícia Civil disse que 33 corpos haviam sido identificados no IML (Instituto Médico-Legal). Alguns cadáveres estão sendo armazenados em um caminhão frigorífico instalado no PRPTC (Posto Regional de Polícia Técnica Científica), no bairro Corrêas.

Os corpos de pelo menos 11 pessoas foram liberados para sepultamento. São eles os de Evelyn Luiza Netto da Silva, 11, Pablo Nunes Carvalho, Fábio Aniceto da Costa, Yasmin Eliseu Alves, Zilmar Batista Ramos, João Carlos de Melo Montes, Maria Clara Martins de Castro Souza, Heloise Listenberg Rodrigues, 2, Gustavo Listenberg Rodrigues, 5, Debora Listenberg Moreira, 22, e Eva Afonso da Silva.

Nem todos tiveram a idade divulgada.

A prefeitura afirmou que reforçou o número de profissionais para exumação e sepultamento, além de ter cavado novas covas rasas no cemitério do Centro. O cemitério foi afetado, mas não houve dano substancial, segundo o município.

As autoridades informaram que não têm a intenção de fazer enterro coletivo, para respeitar a programação dos familiares.

Até o fim da manhã desta quinta (17), a Defesa Civil municipal havia contabilizado 399 ocorrências em Petrópolis, sendo 323 por deslizamentos. ?Além disso, 705 pessoas precisaram ser encaminhadas para os 33 pontos de apoio montados em escolas da rede pública.

As aulas estão suspensas para que as famílias possam ser atendidas por profissionais das secretarias de Assistência Social, Saúde e Educação.

O Governo do Rio de Janeiro informou ter determinado urgência no cadastro de moradores que solicitam o aluguel social.