Os artistas que deixaram o circo para ganhar o pão de cada dia exercendo outras atividades comemoram o retorno ao picadeiro. Franca conta com dois circos instalados na cidade, mas a lembrança da última companhia que esteve por aqui foi marcada pelo fechamento da lona devido à pandemia.
Em 18 de março de 2020, o Circo Tihany, que estava com seu espetáculo em cartaz há 20 dias na cidade, precisou fechar suas portas por conta do vírus. Sem ter para onde ir, seus integrantes permaneceram na cidade por mais de 100 dias, sobrevivendo com a ajuda de doações da população.
Agora, a magia está de volta a Franca. Depois de quase dois anos sem espetáculos circenses, duas companhias se instalaram da cidade: o Max Circus e o Up Circus.
O palhaço que precisou vender biscoitos nos semáforos ou que virou entregador de açaí volta a fazer o público sorrir. O trapezista que passou parte da pandemia vendendo maçã-do-amor e balas nas ruas e praças, já pode provocar aquele frio na barriga da plateia.
O mágico que virou serralheiro já pode provocar curiosidade nas pessoas com sua habilidade de ilusionismo. Até o proprietário do circo, que precisou encarar a estrada fazendo fretes para sobreviver, volta a sonhar com as arquibancadas lotadas.
“Ainda está difícil porque o público está com receio da doença, mas graças a Deus estamos podendo trabalhar novamente. O problema foi ficar parado porque o circense nasce dentro do circo e não sabe fazer outra coisa", diz Jair de Almeida Signoreli Júnior, proprietário do Up Circus.
"Nesse tempo que ficamos parados, tivemos que reinventar. Tivemos que sair às ruas, vender maçã-do-amor, bolas, balas. Uns viraram pedreiro, outros serralheiros. Eu mesmo virei caminhoneiro. Peguei meu caminhão, fui puxar frete. Mas a vida da gente é no circo”.
Júnior, como é conhecido, diz que o palhaço sempre foi a atração principal de todos os circos. Apesar de fazer as pessoas rirem, sofreu muito com a pandemia. “O palhaço é um dos principais artistas dos circos. Como os outros artistas, ele também foi fazer suas brincadeiras na rua para ganhar um dinheiro e sustentar a família. Meu filho, por exemplo, que é o palhaço do circo, também passou a entregar açaí para sobreviver. Minha nora aprendeu a fazer bolo para vender. O que foi aparecendo, fomos fazendo. Não tinha como escolher o que fazer nesse período que ficamos parados por causa da pandemia”.
Júnior, proprietário do circo, fez frete na pandemia e comemora reabertura do circo: “Fui para a estrada”
Rafael faz apresentação no globo da morte e atua como palhaço do circo: “Fazemos de tudo”
O mágico, Eder Vilmo, também é de família tradicional, nascido e criado em circo, virou vendedor nas ruas. “A pandemia foi um momento crítico para nós. Passamos um período bem complicado e precisamos nos reinventar. Tivemos que trabalhar na rua vendendo doce, maçã-do-amor. Como eu sou serralheiro, fui fazer uns bocós para sobreviver. Graças a Deus não contraí o vírus”, diz o mágico, que também é locutor do circo.
De origem de Itajaí, Santa Catarina, o Up Circus tem capacidade para mil pessoas, mas está funcionando com uma limitação de 400 pessoas e com todos os protocolos recomendados pela Saúde. Segundo Júnior, o circo é alegria e não combina com esse momento de dor por conta das mortes em decorrência da Covid.
“A vida tem que continuar. Eu tenho um exemplo: meu pai foi viajar com minha mãe e bateu o carro na estrada. Minha mãe veio a falecer nesse acidente, e à noite tinha um espetáculo. Eu tive que trabalhar”.
Os circos atuais vêm se modernizando. Além dos números tradicionais, como dos palhaços, mágicos, globo da morte, trapezistas e malabaristas, também são inseridos super-heróis como Mulher-Gato e Homem-Aranha – atração do momento nos cinemas.
Nascido no circo, Rafael de Almeida, diz que faz de tudo no circo desde pilotar moto no globo da morte a atuar como palhaço. Ele conta que está feliz por voltar ao picadeiro e fazer as pessoas se emocionar e tirar gargalhadas do público.
“A gente que é do circo faz um pouco de tudo. Nossa família é tradicional no ramo desde meu tataravô. Durante essa pandemia ficamos parados um ano e meio e tivemos que trabalhar em outra atividade. É bom voltar com os espetáculos e poder dar momentos de alegria às pessoas”, disse o artista.
Mesmo assim, Júnior acredita que a magia e a tradição do circo nunca vão morrer. Ele garante que a motivação é a paixão pela arte. “Nada substitui um espetáculo ao vivo. Quem está na estrada é por amor, nem tanto pelo dinheiro. Eu poderia sobreviver com meus caminhões fazendo frete, mas isso (circo) é uma paixão. Meus avós e meus pais são de circo, minha família vive no circo, meus filhos, minha netinha. Depois virão os bisnetos, vamos passando de geração para geração”, finalizou Júnior.