10 de julho de 2026
COVID-19

Mães vacinadas temem imunização infantil; médico responde

Por Higor Goulart | da Redação
| Tempo de leitura: 7 min
Arquivo/GCN
Até a última quarta-feira, 26, quando a Vigilância Epidemiológica atualizou os números, 1.139 crianças receberam a 1ª dose contra covid-19 em Franca

Janeiro começou com um importante passo para dar uma esperança ao sofrimento proporcionado pela pandemia: a imunização de crianças. Após bastante discussão, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou os imunizantes da Pfizer e Coronavac. Mas, o que deveria servir de proteção para as crianças francanas, se transformou em um grande temor entre os pais e responsáveis.

Muitos levantam questionamentos: se crianças nunca fizeram parte do grupo de risco, por que as imunizar? Os imunizantes passaram por pouco estudo! Meu filho pode ter reações futuras? Por que eu tenho que me responsabilizar? Em meio a essas dúvidas, um questionamento se torna o principal: qual o benefício em imunizar meu filho?

Buscando esclarecer, o portal GCN reuniu as principais dúvidas e os questionamentos dos pais, que foram respondidos pelo pneumologista Paulo Antônio Faleiros. Confira:

Termo de assentimento

Entre os principais temores dos pais na imunização do filho está o termo de assentimento. O que seria apenas um documento de autorização, virou a grande dúvida na hora de imunizar a criança, principalmente por um pequeno trecho do documento: “sob minha responsabilidade, autorizo sua vacinação.”

Essa única frase foi capaz de fazer a supervisora administrativa Marylin Lemes da Silva desistir de imunizar sua filha de 11 anos. “Quando entrei no site da Prefeitura, tem um termo de assentimento. Até aí, tudo bem, já que pra mim seria apenas mostrar que eu concordo. Mas, quando fui ler, mais abaixo eu li que assinaria sob responsabilidade da vacinação dela. Por que é minha responsabilidade?”, questionou.

Marylin explica que nunca precisou assinar nenhum termo ao imunizar sua filha. Todos os imunizantes que a filha recebeu não necessitaram de nenhuma assinatura da mãe. “Nunca precisei assinar nenhum termo de outras vacinas. Por que dessa eu preciso? É porque foi feita de última hora e sem estudo prolongado. Aí eles querem transferir a responsabilidade para nós que nem temos capacidade de estudo para desenvolver uma vacina? Por isso tomei a decisão de não vacinar minha filha.”

Assim como a decisão de Marylin, a da gerente comercial Rosmari Fernandes não aparenta ser puro negacionismo. Ambas receberam as doses contra o vírus. O que converge é o temor pelo documento. “Quando você se imuniza e autoriza a alguém fazer algo com seu corpo, não tem tanto medo quanto quando você autoriza em fazer isso em alguém que você é responsável. Por isso eu fico muito apreensiva em relação ao meu filho”, contou.

Josiane Teixeira, que é auxiliar de produção e tem um filho de dez anos de idade, também compartilha do mesmo medo. Assim como Marylin, ela recorda nunca ter assinado nenhum termo para receber imunizantes de outras doenças. “O termo nos deixa muito assustados. Desde que nasci, todas as vacinas que tomamos eu não assinei nenhum tipo de termo. Por que elas foram realmente testadas e comprovadas. Agora, com essa vacina, por que assinar, já que eles deveriam passar uma segurança?”, perguntou.

O receio dessas mães é compreendido por especialistas. Segundo o pneumologista Paulo Antônio Faleiros, a insegurança é “comum e justificada, afinal em nenhuma outra vacina esse esse termo de assinar”. Mas, o médico explica que se trata de uma decisão técnica. “Isto foi uma decisão técnica para garantir a segurança jurídica do Estado, que está politizando demais as decisões em relação à pandemia”, explica.

O médico então sugere uma alternativa para pais que não desejam imunizar os filhos. “Poderíamos, então, fazer um termo de responsabilidade para pais que não querem vacinar seus filhos. Se eles tiverem quadros graves, sequelas e até mesmo morte devido à covid, eles sentir-se-iam tão seguros em não os vacinar?”.

Futuras reações

Além do medo de assumir a responsabilidade pela imunização dos filhos, muitos responsáveis também temem as futuras reações que as vacinas podem desencadear. Para explicar esse medo, muitas mães se apoiam no caso de uma criança de Lençóis Paulista, no Interior de São Paulo, que teve uma parada cardíaca momentos após receber a primeira dose de Pfizer.

Na época, a Prefeitura de cidade paulista paralisou a imunização infantil e uma investigação foi aberta pela Secretaria de Saúde do Estado. Após análise de dez especialistas, ficou comprovado que a criança possuía uma doença congênita rara, não tendo relação com o imunizante. “Não existe relação causal entre a vacinação e quadro clínico apresentado”, afirmou o órgão em nota.

Apesar de não ter relação, muitos pais permanecem se escorando no caso e temendo futuras reações. “Mesmo comprovando que a vacina não tem relação com essas reações mais graves, como o caso do menino que teve parada cardíaca, a gente fica receosa por não saber quais são as devidas sequelas. Muitas pessoas tiveram depois de terem tomado a vacina. Então, ficamos com medo disso acontecer, principalmente com as crianças que são mais frágeis”, disse Josiane Teixeira.

Além disso, muitos pais se confundem na grande desinformação compartilhada principalmente nas redes sociais. Essas fake news acabam gerando ainda mais dúvidas, mesmo que os responsáveis já tenham se imunizado. Este é o caso da designer de unhas Jane Moura. “Eu me vacinei sim. Só que o medo que tenho de vacinar meu filho pela quantidade de coisas que vemos falar na mídia, nas redes sociais e televisão sobre crianças que estão tendo infarto e que a vacina pode dar trombose futuramente. O meu medo é esse”.

O caso é o mesmo da dona de casa Silvania Nogueira. “Eu me imunizei sim, tomei já as três doses, mas tenho muito medo de dar no meu filho, porque vemos muitos vídeos e ficamos sabendo de muitas coisas. Todas as vacinas estão em fase de teste. Então, tenho medo do meu filho ter alguma reação, que não seja só a dor”.

O medo então se transforma em uma série de questionamentos, como os feitos por Marylin Lemes: “Tudo que eu recebo eu procuro confirmar. Então, todas são fake news. Só que tenho casos de conhecidos que viram ou conhecem crianças que tiveram problemas pós-vacina. A gente fica na dúvida: foi de fato pela vacina ou ela só desencadeou o que já estava no organismo da criança? Então, vamos e voltamos. A decisão oscila bastante”.

Tudo isso apenas se trata de um temor desnecessário, segundo o dr. Paulo Faleiros. Ele diz que o imunizante não é capaz de trazer grandes sequelas para o futuro. “As vacinas são muito seguras. Depois da injeção, o sistema imunológico é ativado e desenvolve anticorpos contra o componente injetado no organismo. Em seguida, a substância é totalmente decomposta e não tem como provocar sequelas de longo prazo”, explicou.

Custo benefício

Mas, afinal, vale a pena imunizar os filhos e ignorar todos esses temores? Isso é o que as mães seguem questionando, mesmo sabendo que muito do medo vem proporcionado pela desinformação. E, ainda assim, elas se apoiam em outro argumento: são poucas crianças que tem casos graves do vírus.

“Desde o início, as crianças não eram um grupo de risco. Elas transmitiam, como vão seguir transmitindo. Até porque não existe estudo nenhum que diz que uma pessoa vacinada deixará de transmitir. Se houvesse, todo o povo que está em fila nos hospitais não teria se imunizado”, argumenta Rosmari Fernandes.

Justamente por isso, Rosmari questiona: “se as crianças desde o início passaram por variantes mais agressivas e chegaram a esse ponto que estamos hoje com os próprios organismos combatendo, qual o custo-benefício de tomar a vacinar?”.

E a resposta para essa dúvida é: “desde o início da pandemia, mais de 1,4 mil crianças já morreram devido à doença no Brasil. E mais de 2.400 crianças apresentaram a síndrome inflamatória multissistêmica grave associada à covid”, responde o pneumologista.

O dr. Paulo Faleiros ainda compara a quantidade de crianças não vacinadas e mortas por covid-19 com a de crianças mortas por outras doenças. “O número de mortes supera o total de mortes por doenças preveníveis com vacinação ocorridas entre 2006 e 2020 no país. Ou seja, a covid, em apenas dois anos, matou mais do que o sarampo, a caxumba, a catapora, a tuberculose, meningite e hepatite B mataram juntas em 14 anos. E ninguém deixa de vacinar seus filhos para proteger contra essas doenças”, argumenta.

Imunização infantil
Apesar da insegurança de parte dos pais, outros tem aceitado bem a imunização infantil. Até a última quarta-feira, 26, quando a Vigilância Epidemiológica atualizou os números, 1.139 crianças receberam a primeira dose contra covid-19 em Franca.