08 de julho de 2026
BALTAZAR GONÇALVES

A próxima vítima

Por Baltazar Gonçalves | especial para o GCN
| Tempo de leitura: 3 min

A morte ronda a cidade, a manchete do jornal espalhou a notícia de que estamos em perigo. Não todos, os homens estão mais seguros. Nem todos os homens porque um deles é um assassino à solta. Parece que existe um perfil de vítima definido, até agora seis mulheres foram brutalmente assassinadas.

Tive acesso aos documentos, segundo a polícia essas mulheres mortas têm perfil semelhante: vivem sozinhas por opção, independentes com bom emprego ganham o suficiente para vaidades excêntricas e viagens, são instruídas porque estudaram, são da classe média mas economizam. Tudo isso foi revisto pela equipe que investiga as conexões entre os casos. Todas elas viajaram ano passado e estavam de malas prontas para mais uma aventura. Alguém argumentou que o assassino seja um homem de hábitos sedentários, que não viaja e que, portanto, não conheceria o mundo que vai além da cidade.

Dada a força aplicada nos golpes fatais, o estrago das feridas, parte da população estarrecida concluiu que a força do assassino é sobre-humana. Em nota para o jornal, o chefe da investigação agradeceu os comentários nas redes sociais de quem se acha à altura da polícia, mas retificou que são contraditórios. Nas palavras dele, “esse monstro é humano e conhece bem os destinos das vítimas, poupou-lhes o prazer da viagem porque imagina ser dele a vez de gozar privilégios”.

Como se vê, nada se conclui em argumentar sem conhecer as fontes. Estamos tateando no escuro desse mistério. Não se sabe muito, apenas que o objeto da investigação seja: homens que viajaram para o mesmo destino que as vítimas teriam ido se os seus corpos agora não alimentassem vermes.

Nesse momento, enquanto o medo sussurra boatos de boca em boca, a última luz do estacionamento foi acesa. O expediente bancário terminou há duas horas. No protocolo da agência, Lavigne ajeita a alça do sutiã e sorri cansada.

A moça desce três andares, vai pela escada porque tem medo de elevadores. Vê o único carro ainda estacionado, a garagem está vazia, a impressão de ser vigiada causa arrepio que chega ao cóccix. Amanhã é feriado, todos já saíram.

Lavigne tem vinte e nove anos e é segura de si. É dessas mulheres que não precisam de homem em casa. Paga contas antecipadamente para ganhar desconto, tem senso de justiça, doa cupons para a caridade e dá gorjeta esnobe nas lojas do Shopping.

Mas agora, enquanto procura as chaves, Lavigne está nervosa porque notou a sombra de alguém atravessando o pátio do estacionamento vazio. À porta, três passos, mete a chave com força e quebra o metal, finge atender o celular, a luz do ecrã ilumina seus olhos verdes grandes arregalados de medo. É mesmo um homem a figura que se aproxima. Não há outra coisa a fazer. Lavigne dá a volta e abre o porta malas. Entra às pressas no carro. Está de gatinhas sobre o banco traseiro quando a figura enorme bate o porta malas num estrondo ensurdecedor.

No banco do motorista, Lavigne procura a chave de reserva que deixara no porta luvas. O silêncio cresce para dentro dela feito mão invisível sufocando. A chave não está aqui, adivinha em pânico. A figura é mesmo um homem, bem alto e forte, usa chapéu panamá, casaco azul petróleo, e tem na mão direita a chave reserva do carro de Lavigne. A moça tenta uma saída, a porta não abre por dentro, a buzina... Ela grita, mas ninguém pode ajudar.

Lavigne se lembra do punhal debaixo do banco de trás, a certeza de que se salvaria ilumina seu rosto, e por isso contorce e vira estendendo o braço armado, último gesto por sua vida.

Dentro do carro, o homem já tem o punhal de Lavigne na mão.

Dura um décimo de segundo a identificação no olhar cruzado. Então, ele bate a cabeça da moça com violência contra a direção. Uma, duas, três vezes. O sangue jorra do nariz, dos ouvidos. A moça vomita, tenta respirar. Viva, mas cega. O sangue cobre o que do mundo ainda pode ver. Um golpe de fúria desce certeiro da garganta até o coração.

Estranhamente, o último pensamento de Lavigne foi de remorso.

Sentiu-se culpada por não ter arquivado o extrato de movimentos futuros que fizera pela manhã.