08 de julho de 2026
OPINIÃO

Devolvam a casinha dele!

Por Sônia Machiavelli | Editora do GCN
| Tempo de leitura: 4 min

Todo mundo conhece o estilo arquitetônico de um chalé. Esse que começo a descrever foi construído há muitos anos num cantinho da Lapônia, perto do Polo Norte. Ali neva durante vários meses e para que a neve não pese, ameaçando desabar o telhado, este tem forma de V invertido. Assim, pode nevar à vontade, pois os flocos vão formando camadas de pingentes nas eiras e beiras. Troncos robustos sustentam a estrutura da casa. As paredes são de ripas de madeira que se unem caprichosamente por resinas encontradas nos pinheiros da floresta próxima. A fachada norte tem duas janelas, emolduradas por cortininhas delicadas de voal que o vento balança, deixando a imaginação de quem olha adivinhar o que tem lá dentro.

Quando não sabemos alguma coisa, é natural criarmos ilusões. Pode haver potes dourados, baús de marfim, muitas prateleiras onde vão sendo colocados ao longo do ano os presentes pedidos por meninas e meninos. A porta é larga, para que o dono possa entrar de forma confortável, já que ele é bem gordinho. No portal está escrito em vários idiomas o seu nome: Noel.

A alguns passos da janela direita, no jardim onde alguns gnomos fazem ciranda ao redor de uma fonte, está fincada em haste uma caixa de correspondência. Lá dentro amontoam-se cartinhas enviadas durante todo o ano, pelas crianças do mundo inteiro, encaminhadas ao Bom Velhinho, assim tratado na sua terra natal.

Pois não é que ele lê todas, sentado numa poltrona confortável, em sua sala que tem lareira?  Leva um tempão, vários meses, pois elas são milhares de milhares. Seus óculos redondinhos, que se apoiam no alto de suas bochechas, o ajudam, ampliando letrinhas infantis que às vezes são minúsculas. As histórias que ele lê podem ser tristes, alegres ou engraçadas. Todas o emocionam. Depois de ler as mensagens, com os pedidos e as justificativas de por quais razões os autores merecem ser presenteados, anota endereços e os trajetos para chegar a eles. Acontece às vezes de ele cochilar, porque já é velhinho e tem feito esse trabalho há muito tempo! Quando está muito cansado, depois de ler tantas histórias e anotar pedidos, vai dormir no seu quarto quentinho.

Mas quando chega o dia 24, está tudo concluído e então ele chama suas nove renas. A essa altura, elas já estão todas atreladas ao trenó que é suficientemente alto, largo e acolchoado para acolher sonhos, que como se sabe são feitos de matéria muito delicada, da mesma qualidade da matéria de que é feito o coração humano.

Então ele confere, chamando-as uma a uma: Rudolph, Dasher, Dancer, Prancer, Vixen, Comet, Cupid, Donner e Blitzen. O nariz vermelho do Rudolf é o primeiro a brilhar nas noites  brancas. Noel calça suas botas negras, ajeita as vestes vermelhas, apanha o capuz e dá o sinal de largada.

Ao som de campainhas tilitantes o trenó parte, voa pelos ares, corta os céus noturnos e vai parando nas casas dos que enviaram a sua correspondência. Naquelas que têm chaminé, ele deixa o presente ao pé da lareira. Em outras, ao lado da árvore de Natal ou em cantinho enfeitado, indicado em post scriptum nas mensagens.

Tem criança que, a conselho dos avós, deixa os sapatos na entrada da casa, para que ali seja colocado o presente. Quando não dá mesmo para entrar, Papai Noel o acomoda num lugar onde possa ser encontrado. Só ele sabe, porque é mágico. E a magia de Natal acontece para os que nela acreditam. É assim que funciona.

Essa é a grande riqueza dos pequenos. Seu Natal começa no imaginário, que deve ser respeitado, o que não aconteceu em Franca nesse ano. Porque alguns senhores sérios, que já enterraram a criança que neles um dia viveu, traíram o sonho dos pequeninos.

Então, peço a esses senhores cheios de si que ponham a mão na consciência e os olhos no compliance, admitindo que erraram. E, se possível, se não forem por demais arrogantes, que digam qual motivo os moveu.

Adultos são humanos e podem errar por inúmeras razões. Algumas questionáveis, como querer atualizar o Natal colocando Papai Noel numa sala do terceiro andar de um edifício insípido, à qual se chega por elevadores apertados, depois de seguir por calçadas estreitas em rua de muito trânsito. Ou, usando veículo, levar aos bairros uma quitinete pretensiosa que acredita ser casa.

Outras razões são inadmissíveis e nem vou falar delas aqui porque não quero estragar uma crônica que tem a emoção infantil como tema. Mas não posso deixar de fazer um pedido de cidadã francana que durante anos levou o neto para ver a casinha e sonhar com seu morador.

Por favor, senhores, devolvam a casinha à praça, que é do povo. Repliquem casinhas bonitas e autênticas em outras praças, de bairros menos “nobres”, e favoreçam todas as crianças.  Vai ficar muito mais barato que o projeto atual e beneficiar com a poesia do Natal o coração e a alma de milhares de meninos e meninas. Devolvam a casinha do Papai Noel, senhores. Ainda dá tempo!

Sônia Machiavelli é jornalista, escritora e editora do portal GCN.