Os jovens Jacinta e João se amavam. Casaram-se há um século, exatamente no dia 10 de setembro de 1921. Oito dias depois, com pneumonia e bronquite, ela morreu, aos 18 anos de idade. João, 23, foi ao enterro com o mesmo terno que vestiu semana antes no casamento em Cedral, comarca de Rio Preto.
Os microscópios não conseguiam enxergar os vírus quando a gripe espanhola chegou ao Brasil em 1918. O tratamento era à base de aspirina. Não existiam antibióticos para combater os sintomas – febre, tosse, coriza e dores no corpo. A infecção no pulmão era fulminante.
Depois, João casou-se com Rosa, tiveram 7 filhos, e eu sou um de seus netos. No final dos anos 1950, meu pai arreou o cavalo, foi à cidade, descansou o animal e tomou o trem rumo a Presidente Prudente. Na cidade grande, com minha mãe, peregrinaram na famosa “rua dos médicos”, eu no colo, até achar um pediatra, que prescreveu a tríplice. Era a minha primeira vacina.
Sempre que ouvia histórias desse tipo em família, dava graças pela evolução da tecnologia e da ciência. Vi pela televisão, fascinado, a chegada do homem à Lua. Maravilhei-me com o advento da internet.
Ciência e jornalismo têm muita coisa em comum. Uma delas é que, quando erram, a solução não é a Inquisição, censura ou prisão. É mais ciência. É mais jornalismo. É mais do mesmo ofício. Isso não ocorre com os produtores de fake news. Interessa-lhes navegar contra para faturar e se divertir com a ingenuidade e a ignorância.
É certo que a vacina contra a covid foi desenvolvida em tempo recorde, mas isso, ao contrário de gerar desconfiança, deve ser motivo para comemoração. Houve um esforço concentrado dos cientistas, governos e empresas para que se chegasse a esse resultado. A sobrevivência humana estava em xeque. Na era da velocidade, tudo evolui espantosamente.
Mesmo assim, marmanjos sem noção ouvem o galo cantar, mas não sabem onde. Os sem vacina rejeitam as evidências, a inteligência, as conquistas e o progresso da humanidade.
O movimento negacionista é tão oco que alguns dão o braço à injeção depois do aceno de brindes, sorvete e ingresso em bordel. Outros, terraplanistas e cabeças-duras, espalham a discórdia, a descrença e a desesperança. São profissionais do medo e da destruição.
Por tudo isso, me chateou bastante ver na Live do GCN o vídeo do prefeito Alexandre, epidemiologista de formação. Perplexo e contido ao mesmo tempo, apontou o estoque de vacinas na saúde pública de Franca em hibernação à espera de milhares de pessoas. Enquanto isso, a Europa enfrenta a quarta onda da pandemia e o mundo se assusta com a nova cepa ômicron, de efeitos ainda incertos. Mais de 600 mil mortes no país. No Estado de São Paulo, o grupo dos faltosos à vacina soma 4,1 milhões.
Quando o médico húngaro Ignaz Semmelweis tentou adotar o protocolo de lavar as mãos em hospitais de Viena na década de 1840, para diminuir a mortalidade na maternidade, foi demonizado por colegas. Precisamos de um evento traumático como a pandemia da covid-19 para aprender, quase dois séculos após, a utilidade de lavar as mãos.
Numa viagem ao passado, o que diriam esses céticos da Idade Média sobre as máscaras e álcool em gel? Não é preciso exercitar a imaginação. Aqui e agora, obscurantistas espalham seus discursos delirantes. Eles estão ao nosso redor como vírus da insensatez, da insensibilidade e da falta de empatia. A estupidez faz parte da natureza humana. A história se repete. Os antivacina estão soltos, incorrigíveis, tolos e cúmplices.
A medicina deu saltos gigantescos. Vieram a penicilina e os antibióticos junto com práticas de prevenção. Evoluímos. Chegamos aos quase 8 bilhões de pessoas porque a raça soube se preservar nos séculos e milênios. Com tantas epidemias, guerras, tragédias e fome, ainda assim estamos conseguindo renovar o alvará de permanência na nave a cada giro de 24 horas ao redor do próprio eixo.
A terceira dose de reforço da vacina anticovid, tomarei daqui a alguns dias andando algumas quadras ao posto do SUS com o sol das primeiras horas. Poderei abraçar meus pais no Natal com mais segurança e agradecê-los pelas vacinas da infância. Aos 65 anos, estou bem de saúde. Não virei jacaré.
Há 100 anos, na juventude de meu avô, a expectativa de vida no Brasil era de apenas 34 anos de idade. Uma pessoa de 40 era idosa. Imunizar-se agora significa muito mais que investir na saúde e longevidade. É uma atitude de preservação da espécie.
Wilson Marini é jornalista e editor do portal GCN.