08 de julho de 2026
BALTAZAR GONÇALVES

Amor longe de Roma

Por Baltazar Gonçalves | especial para GCN
| Tempo de leitura: 2 min

Dizem que todos os caminhos levam a Roma, aqui devaneio atalho corte no tecido dos campos simbólicos. É mesmo fácil chegar a Roma, ao ventre nossas mães já diziam: “também terá nome de santo”. Depois vem a redoma em torno do homem, e da mulher nascida indomada tramam adornos. A moral entre relações desenha itinerários a nos conduzir à Cidade Eterna. Mas a verdadeira e longa jornada é para dentro de cada um, podemos renascer longe de “cruz e castigo” e mais perto de “manjedouras” sem a identificação da mente mapeada com o sofrimento fixo.

É preciso atravessar Roma para chegar a Roma e incendiar a escuridão pseudo eclesiástica medieval universalmente polinizada por máquinas de sacríficos humanos. Tudo que era simples foi complicado demais, feito extraordinário para controlar. Eu voltei ao início: deus é terra, capim, vaca, leite, queijo e vermes.

Nesse inverso, olhando para o que é de Roma com olhar de compaixão, não existe paraíso localizado se toda a Natureza é boa. Sob esse olhar amoroso nascem flor lótus e runas ígneas dialogando com arcanos da mãe Terra: a deusa legítima, ventre eterno da consciência futura.

“Queimar Roma” em nível simbólico para celebrar o Natal? Eu escolho caminhos que parecem sem volta... Sei que essa contradição de falar do natal já no horizonte parece anarquista incendiária e desnecessária, e de fato é, como de resto a Poesia quando pisada por coturnos militares sob ovação de marchas negacionistas à favor da “Tradição, Família e Propriedade”. Apesar dos condicionamentos de pensar dentro de caixinhas, nossas bolhas acolhedoras da normalidade guardam espaço para reflexões.

Superar a lenda do rei Arthur e junto dele as espadas fálicas enfiadas na pedra literária fundadora dos ciclos do graal, ciclo iniciado com os saxões degolando até a última sacerdotisa druida gestando filha e filho. O futuro feminino silenciado para o gozo do patriarcado. Superar, como fez Marion Zimmer Bradley com as suas brumas de Avalon onde qualquer pessoa pode amar e ser amada; como fez Saramago em seu evangelho segundo Jesus Cristo e antes dele Nikos Kazantzákis com a ultima tentação.

Eu preciso de estrada sem asfalto e sem as cercas e mais consciência, ‘eu precisa’ do coletivo e da magia das águas nas pedras da cachoeira, do limo e do humo e do líquen, essas coisas que sabemos na terra em busca de ligar e decompor a vida para fazê-la seguir seu rumo.

Derrubaram mais uma árvore, esse galho será decorado com bolas de plástico ou vidro colorido. A minha árvore de Natal é braseiro, ponte sobre a lama seca. Para mim o Natal deveria ser todo dia o ano todo, solidário, inclusivo. Dizer “Feliz Natal” demora, por isso ensaio. As sementes da esperança renascem quando semeadas nos corações, por isso assopro antes no meu peito a brasa incendiária do Amor.

Baltazar Gonçalves é escritor e membro da Academia Francana de Letras.