11 de julho de 2026
APURAÇÃO

Sindicância investiga caso de idosa que morreu após ficar 3h desmaiada no banheiro do PS

Por Higor Goulart | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Arquivo/GCN
Odete de Carvalho Lopes Mathias ficou no PS da tarde da última segunda-feira até o início da manhã de terça-feira

O secretário municipal de Saúde, Lucas Eduardo de Souza, abriu sindicância para investigar a morte de Odete de Carvalho Lopes Mathias, 62 anos. A idosa morreu na manhã da última terça-feira, 30, após passar mais de três horas aguardando por atendimento no Pronto-socorro Municipal "Dr. Álvaro Azzuz" dentro do banheiro da unidade pré-hospitalar.

Odete deu entrada no PS às 15h38 da última segunda-feira, 29. Passava mal e apresentava fortes dores abdominais. Seis minutos após a chegada, passou pelo acolhimento, onde foi avaliada como um caso não-prioritário. Essas informações, divulgadas pela família, foram confirmadas pelo secretário. Depois desse momento, as informações divergem entre o secretário e a família.

Segundo o secretário, quando Odete passou pelo acolhimento, seus sinais vitais não apresentavam alteração. “Foram medidos os sinais vitais, como temperatura, saturação e pulso. Estavam sem alterações. Foi acolhida e orientada a aguardar.”

Mas, na opinião do filho de Odete, Washington Mathias, para qualquer um que observasse o estado da idosa, era claro que se tratava de um caso de urgência. “Minha mãe estava passando muito mal, vomitando e com dores abdominais. Na triagem, disseram que o caso dela não era prioridade. Mas, qualquer um, mesmo que leigo em medicina, se olhasse pra ela ia falar que era questão de internação.”

Como a idosa continuou passando mal e vomitando, ela foi levada ao banheiro da unidade pela sua nora. O secretário afirma que quando a equipe do PS tomou conhecimento do agravamento do quadro e da presença no banheiro, logo a levaram para o atendimento, por volta das 17h. “Assim que tomamos conhecimento dessa situação, de prontidão a nossa equipe foi ao banheiro e a levou ao atendimento médico.”

O filho Washington rebate, dizendo que Odete ficou por mais de três horas dentro do banheiro até que a equipe de enfermagem do PS a encaminhasse para o atendimento médico, isso por volta das 19 horas. “Ela estava passando muito mal e vomitando, foi quando nós a levamos para o banheiro. Mais ou menos às 19h, decidiram levar ela lá para dentro. Como estava cheio de gente, ela teve ainda que aguardar e demoraram para colocar o medicamento”. Odete passou por exames, tomou medicamentos e foi colocada em um leito médico, e enquanto isso seu quadro se agravava.

“O médico avaliou, fez a medicação para dor, colheu os exames e após a chegada dos exames, os medicamentos foram readequados. Em seguida, no mesmo dia, foi solicitada internação”, conta o secretário.

O primeiro pedido de internação na Santa Casa de Franca, feito por volta das 23 horas, por meio da Cross (Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde), não foi atendido, devido à falta de leito no hospital. Assim, Odete ficou mais seis horas no interior do PS, até que, às 5h29 de terça-feira deu entrada na Santa Casa.

“Deu 4 horas, ela passou muito mal, colocaram no oxigênio e viram que era questão de vida ou morte. Foi quando levaram ela para Santa Casa e, por volta das 6 horas, ela deu entrada”, relembra o filho. Desde a remoção do banheiro para a ala interna do PS até a ida à Santa Casa, foram transcorridas mais de 10 horas. Ao todo, desde que chegou ao PS, foram 14 horas.

No hospital, Odete teve uma primeira parada cardíaca, e foi intubada. Duas horas depois, às 8h25, teve uma outra parada cardíaca e não resistiu. Por conta de toda a maratona, além da demora no PS, Washington acredita que houve omissão e negligência médica. “Já de início, ali na parte do acolhimento, deveriam ter visto as condições dela. Quem viu, já notou que era uma pessoa que não tinha condições”.

O secretário Lucas Souza afirma que a Secretaria de Saúde nem a Prefeitura de Franca são se omitiram. “A Secretaria de Saúde e a Prefeitura não são omissas. Uma vez que temos a informação de reclamação ou falha na assistência ou atendimento, encaminhamos para apuração e realizamos a punição que tiver em cada caso”. Segundo ele, todos os processos foram cumpridos, e tudo foi registrado em prontuário. “No prontuário, tem tudo muito bem escrito e justificado, com cada procedimento, tanto da equipe de enfermagem, quanto da equipe médica”.

De acordo com o chefe da pasta, todos os documentos, inclusive o prontuário médico, foram encaminhados à corregedoria e controle interno da Prefeitura e para a Comissão de Ética Médica do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) – delegacia de Franca. “Já foi encaminhado para a sindicância e, caso for identificada alguma falha na assistência, puniremos os responsáveis e daremos as satisfações à população e à família”.

O corpo de Odete foi velado no Velório São Vicente, na tarde desta quarta-feira, 1º, e sepultado logo em seguida no Jardim das Oliveiras.