10 de julho de 2026
DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Autodeclarados pretos e pardos são menos de 20% nas universidades de Franca

Por Vinícius Nunes | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Vinícius Nunes/GCN
Maria das Graças Silva: 'A falta do negro na sala de aula não é apenas na universidade, isso começa desde o primário'

Mesmo sendo maioria no Brasil, a quantidade de pessoas autodeclaradas pretas e pardas representam menos de 20% dos alunos nas universidades de Franca. Da mesma forma, a quantidade de pessoas em cargos de liderança da Prefeitura e na política é muito baixa em relação ao total de pretos e pardos no país.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua trimestral do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica), no segundo trimestre de 2021, 44,2% pessoas se autodeclararam brancas, 8,8% pretas, 45,9% pardas e 1,1% amarelas, indígenas ou sem declaração. Sendo assim, os pardos e pretos representam 54,7% da população brasileira.

Mesmo sendo a maioria quantitativa, é possível ver que essa população apresenta maior dificuldade para conseguir acesso à educação de nível superior. Na Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Franca, já é possível ter uma base dessa desigualdade. Nesta universidade, existem 1.818 alunos matriculados, dos quais, 304 se autodeclaram pretos, pardos e indígenas, o que representa 16,72%. No curso de Serviço Social, são 20,21% dos alunos, em Relações Internacionais 19,08%; História 15,93% e Direito 13,20%.

O estudante de arquitetura na Unifran (Universidade de Franca), Jackson Lima, 20, explica por qual motivo acredita que essa diferença existe. “O Brasil foi um dos últimos países que aboliram a escravidão e, quando isso aconteceu, não deram nenhum suporte, o que fez com o povo negro não tivesse oportunidade de estudar e trabalhar direito. Sou pardo e não consigo pagar para estudar. Quem é mais pobre tem que escolher entre trabalhar ou ir para escola. Eu só estudo porque tenho bolsa. Se fosse para pagar, eu não conseguiria”, disse Jackson.

Assim como o jovem explica, muitos deixam de estudar devido ao valor das mensalidades de universidades. A Unesp oferece ensino superior gratuito e, quando comparada com outras faculdades de Franca, é possível ver uma diferença na quantidade de alunos autodeclarados pretos, pardos e indígenas.

Na FDF (Faculdade de Direito de Franca), onde o curso de graduação tem uma mensalidade de R$ 928, em 2021, esse grupo representa 10,83% dos alunos desta universidade, sendo 155 pessoas de um total de 1.430.

No Uni-Facef, o curso de administração possuí um total de 482 alunos, dos quais, 48 se autodeclaram pretos, pardos e indígenas, sendo cerca de 10% nas salas de aula dessa graduação. No curso de medicina, são 11,38% e, em piscologia, 6,1%.

Foi solicitada pela reportagem a mesma relação com todos os alunos da Uni-Facef, mas os dados não foram fornecidos. Os números também foram solicitados para a Unifran, mas até a publicação deste texto, as informações não foram fornecidas.

Pretos e pardos na política e governo

Na política e governo de Franca, é possível ver um número baixo de pretos e pardos. Em uma pesquisa apresentada pela Unesp, o “Mapa da Desigualdade da Região Administrativa de Franca 2021”, dos 15 vereadores da cidade, nenhum se autodeclara preto ou pardo. Na liderança das secretarias da Prefeitura de Franca, há apenas uma pessoa negra.

Na última quinta-feira, 18, na Câmara Municipal de Franca, aconteceu um evento em comemoração ao Dia da Consciência Negra, celebrado neste sábado, 20. Ele foi coordenado por Maria das Graças Silva, membro da Pastoral da Comunidade Afro de Franca.

Segundo Maria, dias antes do evento, ninguém soube informar se haveria algum evento para a comemoração da data. "Perguntei para uma secretária se teria algum evento na Câmara sobre a Consciência Negra, e ela não sabia me dizer. Então, eu disse que se fosse possível, nós gostaríamos de organizar e contei a ela que eu já sabia o motivo deste ano não ter nada organizado ainda: é porque não temos nenhum vereador negro neste pleito”, disse Maria, fazendo uma crítica à falta de pretos e pardos na política.

Maria das Graças também fez críticas ao baixo número de estudantes negros nas universidades. “Quando eu fiz faculdade, havia apenas duas negras na sala. A maioria dos alunos era branca. Eram umas 40 pessoas no total, e só se via nós duas negras na sala. E essa falta do negro na sala de aula não é apenas na universidade, isso começa desde o primário, passa pelo ensino médio e na faculdade, nem se fala.”

Das 10 secretarias da Prefeitura de Franca neste mandato, apenas uma pessoa em cargo de liderança destes postos é negra: Lucimara de Oliveira Correia do Prado, secretária de Desenvolvimento. “Eu acho fundamental a representatividade do negro. Ser negro e estar alocado em pontos importantes da cidade nos faz, sim, pensar em por que não mais de um. Por qual motivo não somos a maioria representativa? Segundo o IBGE, cerca de 56% da população brasileira se autodeclara pretos e pardos. Somos a maioria em termos quantitativos, mas não enxergamos a maioria em todos setores que participamos. Não vemos a maioria nas escolas, universidades, em cargos de lideranças e até mesmo no governo”, disse a secretária.

Lucimara acredita que é possível mudar essa realidade, gerando maior igualdade e oportunidades para todos. "Enquanto governo, quando a gente pensa em ações de capacitação e qualificação profissional, atendemos a maior parte da população, dos minoritários - 76% da população mais pobre do Brasil é composta de pretos e pardos. Então, quando propomos ações no governo como essas e de acesso de ponte entre as vagas disponíveis e capacitação para essas pessoas, nós estamos trabalhando para diminuir a desigualdade."

De acordo com Janaina Lucas dos Santos, 41, membro de diversos movimentos antirracistas de Franca, as cotas raciais são outra ferramenta fundamental para gerar igualdade. “Desde a época da escravidão, era proibido ao negro estudar, a cota ajuda muito, pois, assim se estrutura mais e consegue melhores oportunidades. O número de negros na universidade é muito baixo e somos a maioria da população”, explica Janaina.

Janaina destaca que o Dia da Consciência Negra é uma data muito importante para que todos pensem sobre o preconceito e as desigualdades, e faz um pedido: “Quero que nesse 20 de novembro todos tenham consciência sobre o racismo. Devemos conversar sobre o preconceito, seja em casa, nas escolas e com toda a família. Através do diálogo, vamos acabar com o racismo. Deveríamos trazer essa consciência todos os dias, uma consciência que todos, não só o negro, deveriam ter. O racismo não faz mal apenas para o negro, mas também faz ao branco. Todos saem prejudicados”.