Desde sua fundação, quase duzentos anos atrás, muitas pessoas foram essenciais para a construção da história de Franca. De modo particular, uma dessas revolucionou o setor educacional e contribuiu de forma decisiva para a ampliação da economia da cidade, por décadas essencialmente baseada na indústria calçadista: Clóvis Eduardo Pinto Ludovice, o fundador da primeira universidade francana.
Nascido em São Carlos, Clóvis, que era advogado, chegou a Franca na década de 70 e nunca mais quis se mudar. Era tão grande admirador da cidade que foi um dos primeiros membros a integrar o grupo Apaixonados por Franca, fundado pelo delegado Daniel Radaeli em 7 de abril de 2012.
Em outubro de 2019, Clóvis morreu vítima de insuficiência respiratória. O advogado, que preferia ser chamado de educador, teria completado 80 anos neste sábado, 13. Seu nome é lembrado como o de um homem visionário e sonhador, cujo trabalho proporcionou a milhares de pessoas o ambiente necessário à formação superior e, com isso, uma melhor perspectiva de futuro.
A Unifran
Clóvis, junto com seu sócio, Abib Salim Cury, foi o idealizador da primeira instituição privada de ensino superior, pesquisa e extensão universitária de Franca. A princípio, Unifran era a sigla para União das Faculdades Francanas, com cerca de 1.500 alunos e alguns poucos cursos, como Letras e Pedagogia, que tiveram início dentro da fundação Pestalozzi. Foram anos até que os diretores conseguissem transformar o título - e a instituição - numa universidade.
A partir desta conquista, inúmeros cursos começaram a ser abertos na Unifran, inaugurados de acordo com a demanda profissional da cidade e que se tornaram atrativos para moradores não só de Franca, mas de todo o estado de São Paulo, Sul de Minas Gerais, Norte do Paraná, e muitos outros.
“O sapateiro, que é nossa atividade, tinha condições de se formar em outra área que era do desejo dele. Hoje nós temos inúmeras pessoas que começaram num chão de fábrica e que se capacitaram dentro dos diversos cursos que a Unifran oferece”, disse Radaeli, amigo de Clóvis.
Não há quem não reconheça que o empenho em trazer oportunidades de capacitação para a cidade foi um marco histórico na formação das pessoas e de uma nova economia. “Facilitou muito para a cidade, principalmente para os jovens que queriam estudar e não tinham condição de viajar, mas tinham condição de parcelar uma mensalidade”, lembra o ex-prefeito de Franca, Sidnei Rocha. Para ele, todo o entorno da universidade também foi impactado positivamente com uma nova infraestrutura e abertura de prédios, padarias, farmácias e restaurantes.
O curso de medicina
Depois de implantar dezenas de cursos de graduação e conquistar mais de 14 mil alunos, Ludovice teve mais uma marcante conquista: o curso de Medicina. Foram anos de trabalho e incontáveis viagens a Brasília, lutando contra a burocracia estatal, até que, em 2012, o então ministro da Educação, Fernando Haddad, autorizou a abertura da primeira turma.
“Me lembro bem de um dia que ele estava muito ansioso, já que era a data em que ele deveria receber o sim ou não para a aprovação do curso. Eram umas 20h15 e ele me falou: ‘Maria Tereza, não vai dar certo, não vou conseguir. Até agora não tive o resultado’. Nesse momento, o telefone tocou e disseram que o curso havia sido aprovado. Foi uma grande alegria. Uma conquista e tanto”, recordou Maria Teresa Segantin Ludovice, viúva de Clóvis.
Em mais de quatro décadas, o advogado foi um dos principais responsáveis por encabeçar o crescimento da universidade, que em 2013 passou a integrar o grupo Cruzeiro do Sul, já com todo o resultado do trabalho de Ludovice. Oferecia então cursos de graduação, especializações, mestrado e doutorado.
“Eu tenho dito e cada vez mais tenho a convicção de que ele foi um homem muito a frente do seu tempo. Deixou uma marca em Franca, um legado, que talvez ainda não tenha sido dimensionado na sua totalidade, em todo seu impacto. Muito antes de qualquer outra pessoa, quando qualquer um diria que era impossível fazer, o doutor Clovis teve a visão de que haveria grande demanda por cursos superiores. Criou os alicerces que o permitiriam transformar seu sonho em realidade e acelerou fundo. Podia ter dado tudo errado, mas funcionou, e muito bem. Obviamente, ele teve a ajuda de seus colaboradores, mas se não fosse este ímpeto inicial, se não houvesse a visão do lider, o sonho de uma universidade continuaria a ser apenas um sonho. O mérito é dele”, disse o jornalista Corrêa Neves Júnior.
A continuação da jornada na escola Toulouse Lautrec
Apesar de ter se afastado do comando da Unifran com a chegada da Cruzeiro do Sul, Clóvis continuou promovendo transformações importantes na educação de Franca. Junto com sua esposa, Maria Teresa, comprou a escola Toulouse Lautrec em 2015. A escola já existia há décadas e tinha uma sólida tradição e reputação de qualidade, mas ambos iniciaram um intenso programa de investimentos e reformas para preparar a Toulouse para as próximas décadas.
“Nós voltamos às nossas origens. Fui professora por muitos anos de pré-escola e fundamental 1 e 2, dei aula em universidade. O Clóvis fez pedagogia e foi professor de História. Então, foi um recomeço com muitos sonhos. O primeiro era fundar o ensino médio na Toulouse Lautrec. Assim fizemos”, disse Maria Teresa.
A escola ainda planeja novas reformas na estrutura para receber ainda mais alunos, além de investir numa profunda transformação digital. Para a viúva e grande parte das pessoas que conviveram com Ludovice durante a sua jornada de realizações, a expansão da escola é uma forma de manter vivo seu legado educacional para a cidade. “O colégio Toulouse Lautrec é o detentor da memória deste homem que tanto fez para a cidade de Franca”, reforça, emocionada, Maria Teresa.