11 de julho de 2026
NOTÍCIAS FALSAS

Padre da Santa Rita usa grupo de WhatsApp para espalhar 'fake news'

Por | da Redação
| Tempo de leitura: 7 min
Reprodução/Redes Sociais
O padre Marco Antônio Bognotti: mentira propagada e muita ironia em grupos de WhatsApp
O padre Marco Antônio Bognotti, pároco de uma das mais antigas e tradicionais igrejas de Franca, a Santa Rita, decidiu usar o WhatsApp para espalhar notícias falsas. No último domingo, às 9h34 da manhã, o padre compartilhou uma publicação mentirosa no grupo Franca Politicamente e causou polêmica. 
 
A postagem, que mostra uma mulher usando drogas cercada por outras pessoas, acusa uma professora supostamente filiada ao Psol, que se chamaria Vitória Donda, do Rio de Janeiro, de cheirar cocaína durante um "protesto da educação no RJ". Compartilhada com frequência, a publicação é uma clássica notícia falsa, desmentida sistematicamente desde 2016. A mesma imagem já foi usada para atacar políticos na Argentina e na Espanha. 


Questionado pelos próprios membros do grupo, o padre se defendeu. "Eu não tenho bola de cristal", disse em áudio depois de ser repreendido por outros participantes, que apontaram se tratar de fake news.
 
O grupo Franca Politicamente é composto por 184 participantes. Entre eles, professores, advogados, vereadores, secretários municipais, ex-secretários municipais, ex-candidatos à prefeitura de Franca, jornalistas, outros padres, a deputada Graciela Ambrósio (PL) e o prefeito Alexandre Ferreira (MDB). Segundo a descrição do grupo, o objetivo é discutir "assuntos relacionados à Franca, podendo se estender a assuntos de âmbito nacional de momento, porém sem muita repetição, pois o foco é Franca". Entre as regras, o grupo também avisa, em letras destacadas, que é "proibido compartilhar fake news".
 
O alerta, no entanto, não intimidou o padre, que defende postar qualquer conteúdo sem nenhuma preocupação - mesmo, mentirosos. "Agora tenho que fazer escrutínio de cada coisa que tenho que apresentar aí? Quer acreditar, acredita, não quer acreditar, não acredita. Se é fake, se é faique, se é funk (sic). O que tem que ver que eu espalho Jesus Cristo, o amor de Deus? Uai. Se eu recebo de um grupo que também é sério, se é PM, G7 da Polícia Militar, uai!? Agora eu tenho que ir lá escrutinar o fulano, o beltrano, o ciclano, pra postar? Se é verdade, não sei. Se é mentira, não sei. É impossível. Eu não tenho bola de cristal (...).", disse, em tom jocoso, num áudio enviado ao grupo depois de ser questionado.
 
A postura do padre incomodou alguns membros do grupo, que o alertaram sobre a notícia ser completamente mentirosa. "Temos que ter cuidado com o que compartilhamos, às vezes repassamos algo sem sentido nenhum. Eu já tinha visto essa história aí. Uma 'pesquisada' no Google de 2 minutos resolve", alertou Elaine do Copacabana, que também integra o grupo. 
 
A reação do padre aos comentários de desaprovação foi fazer mais piadas, atacar "a esquerda" e compartilhar uma figurinha de um soldado apontando uma arma. 
 
 
Na discussão, Policarpo Soares, presidente da Liga das Escolas de Samba de Franca, chegou a compartilhar um vídeo questionando o escândalo das rachadinhas, no qual Flávio Bolsonaro, o filho do presidente, é acusado de reter para si parte dos salários de seus funcionários. Para o padre, "esta rachadinha já virou um trincado". Na troca de figurinhas, o padre ainda enviou mais um soldado armado e uma senhora segurando um ramo de alguma planta com a legenda "vou te benzer".  Tudo, ainda antes das 10 horas de domingo.
 
 
 
Mas o debate estava longe de terminar. A flagrante mentira compartilhada pelo padre e suas respostas irônicas quando confrontado com a verdade motivaram novas manifestações de reprovação. "Sua benção, Padre. O senhor não procura saber se é verdade o que compartilha? Veja, essa postagem tem o alerta de que é encaminhada com frequência.  Quer dizer que muitos estão compartilhando. O senhor voltou no grupo onde pegou isso e informou que é fake news? Tenha um bom dia.", alertou a professora Keise Kelly Donzelli. 
 
A reação negativa à postagem fez o padre enviar um longo áudio ao grupo. "O que tem a ver o amor de Deus, Jesus Cristo, altar, hóstia, taça milagrosa, uai eu 'prestei'. Se não gostou? Deleta. Para mim é a mesma coisa (...).", disse.
 
Padre Marco continuou defendendo ainda que a posição que ocupa, visto como exemplo de moralidade e conduta para os fiéis da igreja que comanda, não faz com que as atitudes dele tenham ainda maior peso na comunidade. 
 
"Só por causa que sou padre, sou delegado, sou juiz federal, se eu sou não sei o que, tenho que postar aquilo que é 100% verdadeiro? Pessoal, é muito difícil. Então não faz nada, anula tudo, fica neutro, pronto. Tem certas coisas que é fake aí que para mim eu passo a noite normal. (...) Agora vou ficar aí dando satisfação, interpretação A e B e C, se é verdadeiro ou se é falso."
 
Para ele, a emissora Globo de televisão publica notícias falsas, mas as pessoas não reclamam. "Não assisto nem televisão direito. Vejo tanta baboseira nessa Globo, tanto fake nessa Globo, ninguém fala nada. Ninguém fala nada. Eu aplico uma coisinha aí… Se é professor ou não, para mim… Eu ponho a minha opinião… entendeu? Quem sou eu para julgar um pecador, quem sou eu para julgar uma pessoa que cheira cocaína. Eu não posso julgar. Estou só dizendo que não sou da esquerda. Só isso. Ok, pessoal?"
 
A repercussão negativa das palavras do padre se intensificou. Outros membros do grupo lembraram o padre que ele era um formador de opinião que admitia não pesquisar antes o que distribui para se certificar do que é mentira ou verdade. Ao final da discussão, que se estendeu até a tarde, o padre diminuiu o tom, dizendo que foi um erro "inocente".
 
"É muito simples. Mando no particular e mando a pessoa avaliar para mim (...). O importante é enriquecer o grupo. Não é verdade? Jesus não veio para atrapalhar (...). Precisamos da salvação (...) Persistir no erro, ou faz de propósito ou é para infernizar (risos). O importante é criarmos paz, união, comunhão entre nós, alegria. Porque nossa vida aqui é curta. Entre o nosso batismo e a nossa morte, nossa história aqui é muito petitinha, petitinha, perto da história da salvação (sic). Não é verdade?".

'Faltou discernimento'
O padre Marco disse nesta segunda-feira, em entrevista ao portal GCN, não ter agido de má-fé, afirmando ter faltado discernimento ao compartilhar a notícia falsa. “Recebi num grupo que estou com policiais militares de São Paulo e fiquei indignado. Quis mandar como um comunicado. Eles me explicaram e eu entendi. Faltou mesmo discernimento da minha parte. Até já pedi perdão. Agora, vai ser um olho no peixe e outro no gato”.

Apesar da promessa de ficar com "um olho no peixe, outro no gato", o padre segue ativo nas redes sociais. Nesta segunda-feira, 1, postou video de apoio ao presidente Bolsonaro e ironizou outras religiões.



Bispo fala em cautela
Bispo da Diocese de Franca, Dom Paulo Beloto disse desconhecer a fake news espalhada pelo Padre Marco. "Fui ficar sabendo só agora com o contato de vocês (reportagem). Preciso até falar com ele para entender, antes de falar alguma coisa", disse o líder religioso.

Mesmo sem ciência do ocorrido, o Bispo reforçou que a Diocese realiza frequentes instruções aos religiosos. "A orientação de todas as igrejas é para que tenham discernimento, cautela e cuidado para não se envolverem nestas notícias falsas", disse.

Francisco condena 'fake news'
O Papa Francisco, maior líder dos católicos no mundo, é crítico rotineiro das fake news, às quais responsabiliza pelo ambiente de polarização em todo o planeta. Em 2018, o assunto foi escolhido como tema da Dia Mundial da Comunicação, celebrado anualmente pela Igreja Católica.

"As informações infundadas são aquelas que contribuem para gerar e alimentar uma forte polarização de opiniões", disse na ocasião a Santa Sé, em nota oficial. Trata-se de uma distorção muito instrumentalizada dos fatos, com possíveis repercussões no plano dos comportamentos individuais e coletivos".

O proprio Papa Francisco criticou, pessoalmente, as fake news também em 2018. "As notícias falsas são um sinal de intolerância e de atitudes hipersensíveis e levam apenas à propagação da arrogância e do ódio. Esse é o resultado da mentira", disse Francisco. "O drama da desinformação é desacreditar do outro, apresentá-lo como inimigo, até chegar à demonização que favorece os conflitos", afirmou o sumo pontífice.