A maior estiagem dos últimos 100 anos, obras que se arrastam há mais de dez anos complicadas por discussões judiciais e a topografia de Franca fazem parte da lista dos principais fatores responsáveis pela grave crise hídrica que a cidade enfrenta. De janeiro a setembro, apenas 565,8 milímetros de chuva foram registrados, metade do que choveu no mesmo período do ano passado. A seca, aliada à obra ainda inacabada do rio Sapucaí Mirim e à distância dele até Franca são decisivos na falta d’água que transtorna a vida da população e tira o sono dos gestores e funcionários da Sabesp.
O racionamento, que já dura mais de um mês, poderia ter sido evitado se as obras da nova captação de água no Sapucaí Mirim, projetadas para aliviar o sistema do rio Canoas, estivessem concluídas. Culpar a Sabesp, os sucessivos prefeitos, os deputados e vereadores têm sido o argumento mais utilizado pelos moradores de Franca, cada vez mais irritados com o prolongado racionamento que abastece de água casas e estabelecimentos por 36 horas, seguido por torneiras secas nas 36 horas seguintes. Se a irritação é compreensível e justa, o mesmo não se pode dizer da conclusão sobre os "culpados". O problema que levou ao atraso foi fundamentalmente provocado por uma das empresas responsáveis pelas nova captação, que simplesmente abandonou as obras e passou a discutir o contrato na Justiça. Foram longos anos de canteiros parados.
As obras começaram em abril de 2013, divididas em duas grandes partes, cada qual a cargo de uma empresa diferente. A primeira ficou responsável pela Estação de Captação de Água propriamente dita, localizada junto ao rio Sapucaí Mirim, um afluente do rio Grande, distante 21 km de Franca. A segunda tinha como responsabilidade interligar, com galerias e adutoras, a Estação de Captação com as Estações de Distribuição da Sabesp espalhadas por Franca. Foi exatamente nesta etapa que surgiu o maior dos problemas.
Exatamente três anos após iniciadas, quando corria 2016 e inúmeros atrasos no cronograma já eram registrados, a empresa pediu recuperação judicial e abandonou as obras. Começaria então uma longa discussão na Justiça para definir quanto deveria ser pago à empresa pelos trechos concluídos. A batalha só seria encerrada com um acordo, firmado em 2019. No mês de novembro, a nova empresa contratada para concluir a interligação da Estação de Captação com Franca começou a trabalhar. “A Sabesp não perdeu um segundo sequer. Ela não pode ser acusada de má gestão”, disse o superintendente da companhia em Franca, Gilson Mendonça.
Apesar do entrave, cerca de 95% de todas as obras estão hoje prontas. Centro de captação de água, estação de tratamento, estações elevatórias, bombas. No total, dos 39 quilômetros de rede de adutoras previstos, 38 já estão completamente finalizados – só faltam as chamadas “caixas” nas adutoras, que podem ser de descarga, ventosa ou ancoragem.
Funcionários trabalhando na instalação da ventosa na tubulação
O prazo legal, definido em contrato, para que a empresa conclua as obras é dezembro de 2022, mas a expectativa é mais otimista: hoje a concessionária trabalha com a previsão de que até o primeiro semestre de 2022 ao menos o complexo do Aeroporto, na Zona Sul de Franca, já possa estar suprido com a água que vem do Sapucaí, o que significa abastecer 30% da cidade. Se esta previsão se confirmar, não haverá racionamento a partir do ano que vem porque o alívio no sistema será suficiente para garantir água na torneira de toda a população. Mesmo, se a estiagem severa se repetir.
"Esta é uma obra que não será para essa seca, será uma obra para o resto da vida. Nós estamos trabalhando com um horizonte de 2080 e até lá não vamos ter problema nenhum, aconteça o que acontecer, em termos de situação climática", disse o diretor-presidente da companhia, Benedito Braga. São quase 60 anos de abastecimento garantido, segundo avaliação da Sabesp.
O abastecimento
Quase R$ 300 milhões já foram investidos na obra que terá uma capacidade de produção de 800 litros por segundo. Com isso, o abastecimento de toda cidade será praticamente dobrado, com uma capacidade hidráulica de cerca de dois mil litros por segundo nos sistemas combinados do rio Canoas e Sapucaí Mirim. Vale ressaltar que a nova captação do Sapucaí não substitui o "velho" Canoas, que seguirá como o principal fornecedor de água para a cidade. A razão, além de logística, é também econômica. A água que vem do Canoas é mais barata, pela distância e elevação, do que a captada no Sapucaí. A diferença é que com os sistemas combinados, um rio supre a eventual escassez do outro.
Muita gente se espanta com os valores envolvidos na obra. O que complica e encarece a solução é a topografia da cidade. “Franca tem uma altitude de cerca de mil metros acima do nível do mar. A água (potável) aqui está distante. Não se encontram mananciais próximos da cidade. Tem cidades em que você perfura um poço e rapidamente se tem água em abundância (como Ribeirão Preto, com o Aquífero Guarani), então não dá para comparar com Franca. Aqui, as distâncias dos mananciais são enormes, com alturas gigantescas. O Canoas está a 15 quilômetros e o Sapucaí fica a 21 quilômetros de Franca, o que demanda um grande sacrifício operacional”, disse Gilson.
Neste percurso de 21 quilômetros foram instaladas três estações elevatórias, que são equipadas com três bombas cada uma, responsáveis por empurrar a água "morro acima". Do rio Sapucaí até a Estação de Tratamento de Água Sul, são 300 metros de elevação.
Estudos e alternativas
Para chegar à decisão de captar água no rio Sapucaí Mirim, diversas outras opções foram analisadas em quase duas décadas de planejamento. “Em 2002 já tivemos um estudo de alternativa de abastecimento de água aqui em Franca. A partir de vários aspectos foram analisados, por exemplo, buscar água no Rio Grande, fazer um barramento no Canoas, perfurar poços profundos, buscar água no Santa Bárbara, Aquífero Guarani ou Sapucaí Mirim. A alternativa ganhadora foi captar água no Sapucaí Mirim”, explica Gilson Mendonça.
O superintendente diz que a opção que despontava na época como a melhor era fazer o barramento no rio Canoas, com a construçao de um reservatório, mas as restrições impostas pela legislação ambiental impediram que a alternativa prosperasse. O rio Grande é longe demais (o trecho mais próximo, nas cercanias de Pedregulho, está a 40 quilômetros), duas vezes a distância do Sapucaí Mirim, o que tornaria a obra mais complicada e os custos, proibitivos. O Aquífero Guarani está muito profundo sob Franca e não tem pressão suficiente para abastecer a rede, tornando-se inviável. As outras opçoes também se mostraram impraticáveis. Sobrou o Sapucai Mirim.
Assim que estiver próximo da conclusão, a chance de desabastecimento de água em Franca passa a ser praticamente nula, mesmo em períodos de estiagem prolongada. “No primeiro semestre do próximo ano nós já vamos ter uma situação muito melhor do que temos hoje. A obra não vai estar completamente pronta, porém teremos uma condição de oferta de água muito melhor do que nós temos hoje”, comemorou Braga.
A Estação de Tratamento de Água da região Sul
A captação no rio Sapucaí Mirim.
O fator climático
O rio Sapucaí Mirim, a opção escolhida para abastecer Franca, está com um nível baixíssimo, com apenas 60 centímetros de água sobre o leito.
Em épocas de chuva, esse nível ultrapassa os dois metros e meio. Além disso, a vegetação nas margens do rio se encontra completamente destruída. A mata fechada que cercava a região acabou reduzida a galhos secos e tocos de árvores queimados.
Entorno no centro de captação do rio Sapucaí Mirim.
A região, forte pelo agronegócio, está na vice-liderança de um ranking que mostra a desertificação no Estado de São Paulo: apenas 10,83% da vegetação nativa está preservada em Franca, atrás somente de Barretos, que mantém somente 5,52%.
Essa falta de vegetação foi responsável pelo fenômeno que atravessou a cidade no domingo, 26: o haboob. Imagens de satélite mostram que, na região, o solo de muitas propriedades foi limpo por máquinas agrícolas para prepará-lo para o plantio, já que agora as chuvas são esperadas. Com isso, a camada superficial do solo de ressecou e ficou vulnerável à ventania, formando o tsunami de terra que impressionou o Brasil.
Apesar dos fatores climáticos e do processo de desertificação, os gestores da Sabesp garantem que o novo sistema de abastecimento, baseado em duas bacias, dos rios Canoas e Sapucaí Mirim, afasta de vez o fantasma do racionamento. “Franca está garantida em termos de quantidade de água e em termos de alternativas caso enfrente um acidente, como em 2009. É uma segurança hídrica gigantesca para a cidade pelos próximos 60 anos”, projetou Gilson.