08 de julho de 2026
BALTAZAR GONÇALVES

Na República da Incerteza

Por Baltazar Gonçalves | especial para o GCN
| Tempo de leitura: 2 min

A vida é sonho, dizia o dramaturgo e poeta espanhol Calderón de la Barca. Dante Alighieri acorda no inferno da existência e com ele seguimos longa jornada até encontrarmos saída. Platão nos conduz para fora de uma caverna escura onde, escravizados por falsas impressões, negávamos a luz do conhecimento. Nietzsche esboça o ser humano evoluído moralmente ocupando lugar acima do bem e do mal e legislando a decadência da humanidade.

Na república da incerteza continuamos a desprezar fato e realidade; como reconhecer verdade se todos parecemos insanos? O alienista de Machado de Assis meteria nós todos no manicômio ou daria liberdade irrestrita aos loucos do planalto? Como distinguir o que está do lado de fora dos nossos sentidos senão pela ciência da intuição? Nesse mar tenebroso poesia é salva-vidas. Sem tirar nada de mim, a poesia me espreme até as vertebras se comprimirem, me dilui e amplia, me faz pequeno e eleva meu espírito alto. A poesia me dimensiona no tempo e no espaço, se me perco me acho, e esboça o real tamanho da insignificância no amalgama da História. 

Na porta do poema “übermensch” do meu livro Diário dos miseráveis (Penalux, 2020), visualizo alguém numa encruzilhada a tomar uma decisão. A indecisão causa calafrio, esse passo conduzirá de volta ao inferno de antes ou ao claro fora da caverna? Entre seguir ou retroceder, o medo da  escolha errada paralisa quem demora. Transcrevo a seguir o poema “übermensch” ouvindo a voz de um ser alado ancestral magnifico que adverte quem parado no meio do caminho lê.   

De costas para o abismo saiba dele

Não o tema nem o deseje

A vida está como sempre esteve

Bocarra faminta na engrenagem desdentada

Da pouca luz do lume frouxo faço epifania

Aqui eu é menos que sombra

Divido o parco conforto sem a pressa habitual

Viver um dia por vez levará de igual modo

Ao fim, contudo respeito o nada conclusivo

O ciclo de estar sob escombros

Valerá a pena se debaixo de todo peso

A leveza da montanha fizer algum sentido

O preço do vislumbre é a insanidade

No fundo do fundo raso a eterna dúvida

Frente à máquina de esmagar músculos

Aos que tateiam no escuro à porta do inferno

Reacendo o novo lume e desenho

No vão enorme entre os degraus seu nome;

E abro a porta

Para o belo salto ornamental estúpido

Para quem busca a verdade inexistente

Do lado de fora