Há exatamente 365 dias um acontecimento marcava definitivamente uma família moradora do Jardim Aeroporto, zona Sul de Franca. Wesley Pires Alves Filho, então com 13 anos, saiu de sua casa para ir a um varejão e nunca mais voltou.
Desde o dia do seu desaparecimento até hoje, as únicas informações concretas que se têm sobre o adolescente são imagens daquela tarde de sexta-feira, 28 de agosto de 2020. São 8.760 horas de angústia, 525.600 minutos de desespero e 31 milhões de segundos de ansiedade de uma família que não têm nenhuma pista de seu paradeiro.
Como a realidade de várias famílias brasileiras, os pais do jovem trabalhavam durante o dia e deixavam os filhos em casa. Por conta da pandemia da covid-19, os três filhos de Camila Alves e Wesley Alves estavam participando de aulas online e praticamente não saíam.
Após mais um dia de aula, pouco depois das 15h30 daquela sexta-feira, Wesley avisou as irmãs que iria até o varejão que fica a alguns quarteirões de sua casa, na avenida Carlos Roberto Haddad, no Jardim Aeroporto I.
Algumas horas se passaram e o jovem não voltou. A irmã mais velha de Wesley, entretida com o videogame, demorou a perceber que o irmão não estava em casa, o que se aconteceu por volta de 19h. Ligou na mesma hora para o gerente do mercado e pediu que a mãe fosse avisada do que acontecia.
Camila e seu marido saíram imediatamente do trabalho e iniciaram a procura pelo filho. Encontraram uma viatura da Polícia Militar e avisaram do desaparecimento. A cunhada de Camila, Monique, fez um post no Facebook na mesma noite pedindo a ajuda da população. O Boletim de Ocorrência foi registrado no dia seguinte – sábado, 29. Os pais seguiam sem qualquer notícia de Weslinho.
No domingo, 30, após mais de 24 horas procurando o filho, os pais tiveram acesso à gravação da câmera de segurança de uma casa no Jardim Flórida. As imagens mostram Wesley andando pelo bairro onde já havia morado, que também fica na zona Sul da cidade. O relógio apontava 17h15 do dia 28.
Câmeras flagram Wesley caminhando pela zona Sul
As buscas ficaram concentradas naquele bairro até a noite da segunda-feira, 31. Os familiares acreditavam que o jovem estaria em uma mata. Enquanto os pais buscavam na mata, com auxílio de um cão farejador, a reportagem do GCN foi até uma residência na rua Aparecida Donizete Cassanta, na Vila Real, e encontrou uma imagem de Wesley subindo a rua no sentido da avenida Emílio Paludetto.
Apesar do esforço dos familiares e de pessoas que auxiliavam os pais, as buscas naquele dia foram encerradas.
Já no início da manhã de 1º de setembro, três dias depois do desaparecimento, novas imagens de câmeras de segurança de estabelecimentos comerciais foram obtidas. Nelas, Wesley aparece cruzando a avenida Emílio Paludetto e entrando na mata, ainda na tarde de sexta-feira, por volta das 17h20.
Com o apoio da equipe da DIG (Delegacia de Investigações Gerais), familiares e amigos, buscas foram feitas na mata. A suspeita é de que Wesley tenha deixado a mata já na altura da rodovia Ronan Rocha, a cruzado e entrado nos fundos do Jardim Aeroporto.
Família, amigos e populares fizeram buscas pelo garoto
De lá, ele saiu com uma bicicleta vermelha, que estava em frente a um espetinho, e entrou novamente na rodovia.
Câmeras de uma empresa instalada às margens da Ronan Rocha registraram Wesley empurrando a bicicleta e, depois, seguindo no sentido a Patrocínio Paulista. O relógio das câmeras registrava 17h35, também do dia 28.
Investigações
Depois da imagem na rodovia Ronan Rocha, nunca mais se teve algo tangível que apontasse o paradeiro do Wesley. O primeiro passo da Polícia Civil, após o desaparecimento, foi traçar o perfil psicológico do jovem. O segundo, tentar entender o que poderia ter acontecido para justificar uma possível fuga. O terceiro, identificar o proprietário da bicicleta.
Sem nenhum envolvimento com drogas, Wesley era tímido e tinha poucos amigos.
Os policiais apreenderam o único celular utilizado por toda a família. Várias varreduras foram feitas com o Cellebrite Premium - aplicativo israelense de extração de dados, mas nada além de jogos foram encontrados.
As duas irmãs do adolescente foram ouvidas pelos policiais e, em todos os depoimentos, falavam a mesma coisa. A família era unida e nada de anormal acontecia dentro de casa.
Pais de Wesley com cartazes, à procura do filho
Depois de ouvir a família e averiguar o celular, os policiais miraram o proprietário do espetinho onde a bicicleta havia sido pega por Wesley. Um boletim de ocorrência, registrado no dia seguinte ao desaparecimento do garoto, ajudou os policiais a encontrarem também a possível dona da bike.
Apesar de os pais acreditarem que a explicação para o desaparecimento do jovem poderia estar naquele estabelecimento comercial, a Polícia Civil descarta qualquer envolvimento do proprietário e donos da bicicleta com o fato.
O sapateiro Luiz Eduardo Borges, morador do Jardim Tropical, confirmou aos pais e à reportagem do portal GCN que viu a bicicleta jogada em uma estrada de terra próximo à Boipec, na Ronan Rocha. Ela teria ficado no local por mais de três horas. Até hoje, a bicicleta que possivelmente Wesley usou nunca foi encontrada.
O pai da jovem proprietária da bicicleta, que estava preso na ocasião do desaparecimento, também foi ouvido pelos investigadores e negou qualquer envolvimento com o sumiço do garoto.
Uma testemunha que chegou a prestar depoimento na sede da DIG disse aos policiais que viu o garoto entrando em um caminhão próximo à Boipec, na Ronan Rocha, mas não há nenhuma imagem ou outro depoimento que reforce a possibilidade.
Era Weslinho em Serrana?
A pista que chegou a ser a “mais concreta” do paradeiro de Wesley é a do dia 9 de setembro do ano passado, quando três testemunhas confirmaram ter visto o garoto perambulando pelas ruas de Serrana. Mas, apenas na semana seguinte, o motorista de uma van, após ver uma matéria na TV, reconheceu o jovem que transportou até a cidade de Ribeirão Preto.
A primeira testemunha em Serrana foi o comerciante Sérgio, que pediu para não ter seu sobrenome divulgado. Ele é dono de uma mercearia que fica em frente à rodoviária de Serrana. Segundo ele, em entrevista exclusiva ao portal GCN, Wesley esteve no seu estabelecimento na manhã de uma quarta-feira. Comprou dois pirulitos. Pagou R$ 0,50.
"Ele entrou, colocou a mão nos potes de bala e perguntou os preços. Eu disse e ele pediu dois pirulitos de morango. Depois, pediu para trocar. Um menino com uma voz baixa e que parecia estar calmo. Debilitado, mas calmo. Ele pediu um copo de água, eu dei. Em seguida, ele saiu."
O fiscal da cooperativa de vans, Jonathan Almeida, 29, foi o primeiro a ser abordado pelo garoto que se acredita ser Wesley em busca de informações sobre transporte para Franca. O garoto parecia abatido e depressivo.
Policiais rodoviários também participaram das buscas
“Ele não estava bem, não”, disse. O menino perguntou ao fiscal o preço da passagem para Ribeirão Preto e, depois, quis saber sobre o trajeto para Franca. “Aí ele pediu para o motorista levar ele (de carona). Ele disse que tinha familiares em Ribeirão”, explica. “Dei um copo de água para ele, montou na van e foi.”
Silvio Ferreira, motorista de van, foi quem transportou o menino de Serrana para Ribeirão. “Ele falou que não tinha dinheiro para ir. Falei para ele: monta lá atrás que eu te levo para Ribeirão, então”, disse.
O garoto repetiu para o motorista que precisaria depois ir para Franca. “Tudo bem. Eu te levo (até Ribeirão).” O menino, que carregava uma mochilinha nas costas, desceu no Centro de Ribeirão, a duas quadras da rodoviária. Disse “obrigado” e desapareceu.
Nas proximidades da rodoviária de Ribeirão Preto, há muitos moradores de rua. Por ali, diferente do que aconteceu em Serrana, ninguém o viu. A exceção fica por conta de uma comerciante, que disse ter dado um pão de queijo para o menino que, ela também tem certeza, era Wesley.
Sílvio Ferreira, o motorista de van que transportou o menino
A Polícia Civil, em ação conjunta a Polícia Militar, realizou buscas por toda a cidade de Ribeirão, mas nunca mais se teve informações do jovem na cidade vizinha.
A Polícia de Franca acredita que Wesley pegou o ônibus em Serrana, mas não tem pistas de onde ele possa ter ido na sequência.
Pistas falsas
Após o desaparecimento, várias pistas falsas surgiram, como denúncias de que o jovem estaria em Serrana (SP), Ribeirão Preto (SP), São Paulo (SP), Ubatuba (SP), São Sebastião do Paraíso (MG), Campo Grande (MS) e outras cidades.
A última delas aconteceu em Araçatuba (SP), quando populares afirmaram que avistaram o garoto em um hospital da cidade. Camila e Wesley foram até a cidade, mas, de novo, não era seu filho o jovem que passou pelo hospital.
Camila Alves, mãe de Wesley, em Araçatuba
Camila Alves, mãe de Wesley, viu as imagens e confirmou que o garoto que aparecia nas câmeras não era Weslinho. “O moço que disse ter visto ele se confundiu, mas era muito parecido mesmo. Ele não estava errado em me chamar, porque um ano depois, não tem como ter certeza mesmo. Eu agradeço por ele ter me ligado, já que ficou na dúvida e fez o certo”, disse.
Inquérito aberto e retrato envelhecido
Agora responsável pelas investigações, o delegado da Polícia Civil Márcio Murari solicitou ao Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa, de São Paulo, uma simulação de como estaria o adolescente Wesley atualmente.
“O principal motivo desse pedido é saber como o Wesley estaria um ano depois de seu desaparecimento, porque a imagem que todos têm são as do dia do acontecido. Agora, encaminharemos fotos dele e de seus pais para fazer a simulação. O Wesley ainda era uma criança, um adolescente e pessoas dessa faixa etária sofrem muitas modificações no rosto, no corpo, no cabelo. Então, daqui uns dias, teremos uma nova imagem de como estaria o Wesley”, disse o delegado.
O caso de Wesley ainda é olhado com cuidado pelos policiais. Em março deste ano, um inquérito para apurar o sumiço do adolescente foi instaurado. Com o procedimento aberto, o caso terá uma formalidade maior e acompanhamento do Ministério Público e do Poder Judiciário. Normalmente, desaparecimento de pessoas não resultam em inquéritos.
Policiais civis em buscas por Wesley
Depois da instauração do inquérito, a equipe comandada por Murari realizou várias diligências e ouviu as testemunhas novamente. Além das novas medidas adotadas, o delegado afirmou que a equipe que está no caso desde o início é a mesma que localizou várias pessoas no ano de 2020, inclusive, uma criança de 12 anos, que desapareceu em Franca e foi encontrada no interior da Bahia.
“Não há o que questionar da equipe de investigação e do comando do Dr. Eduardo (Bonfim). Tudo que tinha que ser feito, foi feito. Todas as denúncias apuradas, muitas delas infundadas. Mas, mesmo assim, foram checadas. Infelizmente, muitas pessoas querem aparecer, passando informações que não correspondem à verdade, colocando em dúvida até o trabalho da polícia”, concluiu Murari.
Enquanto a polícia trabalha, a família segue na angústia. Angústia acompanhada de esperança. Esperança de um dia reencontrar Wesley.