“Na primeira noite eles se aproximam
roubam uma flor do nosso jardim
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.”
Já perdi a conta de quantas vezes li esse poema ao longo da vida. Não sei exatamente quando me esclareceram sobre o verdadeiro autor, o brasileiro Eduardo Alves da Costa. Como milhares de leitores, também acreditei um dia que fosse Maiakovski. É bem provável que o título, “No caminho com Maiakowski”, tenha nos induzido a erro. E é certo que Roberto Freire agravou o engano ao incluir os versos como epígrafe de um de seus livros mais vendidos, conferindo crédito ao escritor russo. Eduardo contestou mas de nada adiantou. Roberto Freire não fez a necessária retificação.
O verdadeiro autor já havia há algum tempo se formado em Direito, na altura em que escreveu o poema célebre. E se juntara a um grupo no Teatro de Arena, espaço de dramaturgia, circulação de novas ideias, oxigenação de mentalidades, divulgação de talentos literários. Fazia parte dele jovens de esquerda e de direita que participariam do movimento “Os Novíssimos”, do editor e artista Massao Ohno. Houve êxitos; mas também desacertos, decepções, rupturas. Eduardo continuou escrevendo em vários gêneros e viajando pelo mundo. Prolífico, teve mais de trinta títulos publicados.
O poema que ganhou asas e foi parar na França, na Argentina e na Espanha é longo, embora tenham se fixado na memória da maioria apenas os versos acima, que, aliás, nos muitos momentos críticos da nossa frágil democracia estiveram entre os primeiros evocados. Em entrevistas, Eduardo já contou como surgiu a ideia, o sentimento, a forma. Estava sentado no jardim existente ao redor da biblioteca “Mário de Andrade”, na capital paulista, quando as palavras foram lhe surgindo, como se ele conversasse com Maiakoviski.
O tempo era de nuvens negras; o prefácio dos dias ruins avisava sobre a ditadura que estendia suas garras, asfixiando vozes em capítulos que formariam um tomo de horrores, cuja página final seria escrita só em 1985. Eduardo sofreu o peso do regime, foi preso e humilhado. Superou o período mais difícil, viu a Diretas-Já, e nela, pipocando por toda parte, o seu poema, escrito como manifestação de revolta à intolerância e violência impostas. Os versos saíam então da folha impressa e ganhavam pôsteres, cartões, faixas. Ele estava casado e era pai de uma menina que um dia lhe disse: “Olhe na camiseta do moço os seus versos, papai. Mas o nome que está embaixo não é o seu...”
Com a chegada da Internet, o equívoco ampliou-se e se massificou. Manoel Carlos, autor da telenovela Mulheres Apaixonadas, uma história urbana, realista e contemporânea que teve grande audiência em 2003, sentindo-se incomodado com a questão, criou uma fala para a personagem de Cristiane Torloni. Num dos capítulos de maior suspense, ela leu o poema de Eduardo Alves da Costa e lhe deu o devido crédito. Foi um reconhecimento em horário nobre, na maior emissora do país.
Entretanto, sabe-se lá por qual razão, veio a pátina do tempo e levou o poeta de novo para o ostracismo. A ele sim; aos seus versos, não. Só para se ter uma ideia, eles frequentam as redes sociais desde que o presidente eleito se desmascarou e mostrou a que veio. Como o autor legítimo continua não sendo citado pelos internautas, durante uma das últimas sessões da CPI da Covid o senador Omar Azziz fez justiça, lendo o poema e creditando-o a quem é de direito. Foi bonito!
Ao ouvi-lo, fiz uma analogia com o tempo em que vivemos, de ameaças já não mais veladas às instituições democráticas, e de desconstrução de muitas conquistas. É assim que pode começar um processo de ditadura. As instituições têm sido progressivamente subjugadas, contando com mentiras, rede de fake news, troca de favores, fanatismos, ignorância histórica, uso da vaidade alheia - de que é representativo neste momento o BolsonAras.
Em tempo: Eduardo Alves Costa, 86 anos, está vivíssimo. E falante: “O Brasil não tem memória”, gosta de cravar.