Diagnosticado com uma doença rara, aguardou durante muito tempo um transplante de intestino. Morou quatro anos longe de casa. Não conseguiu ser transplantado após uma trombose. Doze horas diárias de sonda. Médicos apontando que ele não passaria de três meses. Tudo parecia impossível para o pequeno Davi Miguel Gama. Aos sete anos, com bastante ajuda, oração e persistência, o francano calou qualquer expectativa.
Inclusão das microvilosidades intestinais. A doença rara do intestino de nome complicado que acomete Davi Miguel impede que seu organismo absorva nutrientes através da alimentação. Davi Miguel morou apenas seus primeiros cinco dias de vida em casa antes de iniciar tratamento no Regional/São Francisco, depois Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto e Hospital Samaritano em São Paulo. Os médicos apontavam o transplante multivisceral (estômago, fígado, intestino, intestino delgado e pâncreas), como a única forma de sobrevivência. O procedimento só podia ser realizado nos Estados Unidos. Começava então uma corrida contra o tempo para viajar.
Amigos e familiares iniciaram uma campanha em Franca e região para arrecadar fundos no procedimento. Na época, o GCN promoveu também uma grande campanha em parceria com o jornal Comércio da Franca para reverter dinheiro para o garoto. Após nove meses, a Justiça determinou ao Governo Federal que arcasse com o tratamento em solo americano. Na companhia dos pais Dinea e Jesimar Gama, Davi Miguel embarcou rumo ao Jackson Memorial Hospital em Miami, na Flórida.
Lá, passaram mais de três anos à espera da cirurgia, que não ocorreu após a formação de uma trombose. As artérias de Davi não suportariam receber as medicações pós-operatório, impossibilitando a cirurgia. Davi Miguel saiu da lista de candidatos e retornou ao Brasil, onde seguiu tratamento no Hospital Menino Jesus, em São Paulo. Em junho de 2019, a família retornou para Franca.
“É um pouco frustrante. A gente conseguiu, ganhou a ação. Conseguiu ajuda do pessoal de Franca. Você chegar lá e não poder fazer, foi muito difícil, muito dolorido, porque a gente foi com um sonho. Mas, temos que acreditar que Deus tem um proposito na vida dele”, disse Dinea.
Mesmo sem o transplante, Davi Miguel superou as expectativas dos médicos e continuou o tratamento paliativo, que não cura, mas permite que ele prossiga com sua linda história. Uma vez ao mês retorna ao Hospital Menino Jesus para realizar exames. Toda semana, recebe acompanhamento de uma psicóloga e fisioterapeuta. O pequeno recebe duas injeções diariamente, uma de manhã e outra à tarde, para tratar a trombose.
Embora consiga comer todos os tipos de alimentos, o que parecia impossível nos seus primeiros anos, ele segue sem conseguir transformar a comida em energia. Assim, a ingestão de nutrientes acontece através de um cateter. A sonda é aplicada na barriga durante doze horas, das 21 horas às 9 horas do dia seguinte. As bolsas são disponibilizadas pelo hospital da capital paulista. O menino toma dois comprimidos contra cirrose, uma vez que a sonda afeta ao fígado.
Na hora de escolher, duas comidas são suas preferidas. “Sabe quais são as minhas comidas favoritas de verdade? Tulipa e sushi”. Davi Miguel também gosta de ir ao shopping para comprar doces. “Eu comprei bala Fini. Uma bala Fini ardida, ardida pra caramba. Mas, comi uma muito ardida, muita ardida. A bala Fini de pimenta. Ela faz a boca pegar fogo”, diverte-se o pequeno.
Apesar do tratamento médico, Davi Miguel aproveita ao máximo sua infância. “Lógico, ele é uma criança que tem as limitações dele. Ele é uma criança que não pode nadar, brincar com barro ou brincar na chuva. Mas, tirando isso, é uma criança que pode brincar com tudo. Pode brincar com outras crianças. Pode frequentar a escola”, afirma Dinea.
Após mais de um ano sem ir à escola, Davi Miguel retornou para a sala de aula no dia 9 de agosto. Matriculado no segundo ano do ensino básico, no período da tarde, na Escola Municipal "Prof. Aldo Prata", no bairro City Petrópolis, ele frequenta uma semana sim e outra não, devido à pandemia do coronavírus. A mãe registrou o momento em vídeo publicado nas redes sociais. “Vou estudar. Vou tirar nota dez, tomara que não tire nota zero”, disse o menino nas imagens.
Davi gosta de brincar de esconde-esconde, pega-pega e slime. "Expert", ensina até os materiais necessários para fazer a gosma. “Precisa de cola, ativador e tinta”. O são-paulino sonha ser jogador de futebol e conseguir nadar no futuro. Por causa do cateter, não pode entrar em piscina.
As chances de realizar a cirurgia diminuem conforme o tempo, devido à complexidade do procedimento e pelo tempo de espera. Ainda assim, a mãe sonha com a cirurgia do filho. “Nós temos que acreditar, porque para Deus nada é impossível e a gente está sempre orando e pedindo. Muita gente está orando por ele. Então, assim, pode estar distante para os médicos, mas, a gente acredita que se Deus quiser a hora dele vai chegar”, acredita. Que ninguém duvide. Davi Miguel já deixou claro para a vida que não aceita limitações definitivas.