Pintar quadros - bem - é privilégio para um pequeno número de pessoas. Mesmo assim, o que uns poucos talentosos fazem com as mãos, um morador de Restinga, de apenas 8 anos, faz com a boca. O que poderia ser considerado um obstáculo intransponível para a maioria - Diogo Alexandre de Souza Silva nasceu com artrogripose e amioplasia, doenças que impedem o movimento das mãos e permitem pouca mobilidade nas pernas, afetando a musculatura) - não impediu o pequeno artista de ser uma das estrelas da 46º Semana de Portinari com suas telas.
“Comecei a pintar por causa de um passeio no shopping. Vi a irmã da Maria Gorete Chagas, que possui o mesmo tipo de deficiência, mas ela pinta com os pés. Isso mexeu comigo. Aí ela nos apresentou, vi que queria ser pintor e conversei com meus pais”, contou o menino.
Depois do encontro com Gorete, pintora natural de Delfinópolis, mas que adotou Franca e vive na cidade há 59 anos, a mãe do pintor-mirim, Ana Cristina de Sousa, procurou uma professora de artes para que ele começasse a aprender e desenvolvesse mais autonomia em sua vida.
“O Diogo nos surpreendeu muito. Mesmo com a deficiência, sem nenhuma mobilidade nos braços, ele mostra que já é um vencedor. A pintura está abrindo um leque muito grande para ele, mostrando que ele é capaz de fazer o que bem entender. Que ele não é um coitado como todos falam”, disse a mãe, orgulhosa.
Diogo nasceu prematuro e por falta de oxigenação, teve sequelas e precisou ser internado várias vezes. Numa delas, chegou a ser intubado, passando 19 dias na UTI (Unidade de Terapia Intensiva).
Mesmo com suas limitações, a família de Diogo tenta, na medida do possível, dar toda autonomia a ele. Diego frequenta a escola regular e aprendeu a se alimentar sozinho. A mãe conta que seu sonho é seguir os passos de Gorete e também se tornar advogado. “Ele nos fala que quer ser igual à Gorete. Um pintor conhecido, além de ser advogado.”
Por conta da sua deficiência, Diogo usa uma prótese nas pernas. O material é metálico. Um episódio no primeiro dia de escola marcou a família e mostrou à mãe a grande coragem e vontade de vencer do garoto.
“Na escola uma menininha falou que ele era um menino robô. Eu achei que ele não tinha escutado. Fui embora. Ele chegou em casa e a primeira coisa que fez foi se olhar no espelho. Nisso ele me olhou e disse ‘Mãe, eu sou um robô mesmo. Olha que máximo’. Isso mexeu muito comigo, mas me mostrou que ele sempre quer vencer os desafios”, disse Ana Cristina.
Após iniciar o estudo de pintura com a professora Amanda Rodrigues, em 2019, e revelar o dom que tinha, Gorete passou o contato da artista plástica e educadora Telma Hartmann, que possui um ateliê em São Paulo.
“Através do ateliê fui convidado para participar da semana do Portinari. Foi uma sensação incrível. Eu fiquei muito feliz, muito emocionado. Eu não sei explicar. É um significado muito grande. Uma surpresa tamanha, felicidade sem explicações”, contou o garoto.
Por conta da pandemia, a Semana Portinari, feita anualmente em homenagem ao artista Cândido Portinari, aconteceu online. Pintando com a técnica aquarela sobre papel, Diogo encontra nas paisagens suas principais fontes de inspiração.
Agora, Diogo planeja postar todas suas obras em suas redes sociais e inspirar as pessoas que possuem algum tipo de deficiência. O artista pode ser acompanhado pelo
Instagram.
Confira o vídeo da participação de Diego de Souza Silva na Semana de Portinari.