08 de julho de 2026

Sonia Machiavelli:

Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 5 min

O escritor francano Baltazar Gonçalves, cujo talento para a escrita se concretiza em prosa e verso, traz a público “Tanto mar entre nós: diásporas”. É uma coletânea de 40 autores de língua portuguesa, mas não apenas brasileiros.

 A iniciativa de timbre gregário, neste tempo onde a literatura, como as artes em geral no Brasil, sente falta de amparo, estímulo, interesse, é mais que louvável, apresenta-se como resistência. Poetas não param de sentir, ficcionistas não recusam personagens, como mostrou Pirandello. Artistas da palavra continuam acolhendo e verbalizando as emoções que os afetam, por mais que “Adamastores fascistas e Leviatãs opressores” tentem calar suas vozes. É assim, resgatando figuras míticas, que Gonçalves resvala pelo momento político de nosso país e pelo contexto do mundo capitalista, imediatista, consumista, onde tudo parece fluido. Tocado pela importância da literatura contemporânea de língua portuguesa, o organizador do livro e seus participantes sugerem ao leitor que, onde quer que ela esteja sendo produzida, é importante mostrá-la em suas características próprias que o oceano separou sem elidir.

Brasileiros, estamos sozinhos nessa América de majoritários falares hispânicos que o Tratado de Tordesilhas determinou; somos o único no continente a ter o português como língua oficial, já que todos os outros vinte países da América do Sul e Central falam espanhol. Mas, se somos os únicos por aqui, não estamos sozinhos, nos sugere Baltazar Gonçalves. Além de Portugal, país do qual herdamos não só o idioma mas também muitos aspectos da cultura, outras nações têm a língua portuguesa como seu idioma oficial. Ao todo, fazem parte do chamado mundo lusófono Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Tímor Leste, Guiné Equatorial. Somos cerca de 260 milhões espalhados em nove países de quatro continentes- Europa, América, África e Ásia.

Sim, há muito mar entre falantes do português, pois o idioma abrange área descontínua, fator que provocou ao longo do tempo algumas diferenças na gramática, no léxico, na pronúncia. Singrar o mar dos vocábulos para estreitar os laços sintáticos tem sido um propósito dos que mourejam no mundo das palavras literárias e sentem bater no peito o mesmo coração do idioma.   

A propósito, com a intenção de aumentar a cooperação e o intercâmbio cultural entre os países lusófonos, foi criada em 1996 a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. O Brasil figura como principal representante, uma vez que somos o de maior número de falantes. Isso instituiu  um senso de dever. Graças à nossa representatividade dentro da CPLP e perante a comunidade internacional, devemos zelar por nosso idioma e promover sua divulgação. Sob esse aspecto, “Tanto mar entre nós: diásporas” cumpre esse papel. E vai muito além, pois ao incluir escritores oriundos de quatro países, contribui para mostrar a condição de um idioma rico na sua capacidade de traduzir estados de espírito, compreender realidades, reivindicar direitos, aceitar alteridades, desdobrar vontades, afirmar  identidades, reinventar a vida e abranger tudo mais que se referindo aos falantes de uma língua, diz respeito à linguagem universal dos sentimentos que a literatura busca registrar.

Nas páginas de “Tanto mar entre nós: diásporas”, artistas da escrita vão surfando às vezes ondas desafiadoras; aproximando margens; fazendo de sentimentos e ideias, laços vinculantes. Os textos se destacam pela originalidade de percepções e pela riqueza de uma língua cuja sonoridade encanta ouvidos estrangeiros. É a língua que deu ao mundo poetas como Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Carlos Drummond de Andrade, Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso...  Ficcionistas como Machado de Assis, Guimarães Rosa, José Régio, Valter Hugo Mãe... É a mesma língua que permitiu a uma favelada brasileira, Carolina Maria de Jesus, expressar seu lirismo diante das durezas da vida; ao médico angolano Agostinho Neto, alimentar a esperança durante a luta pela independência de seu país;  a José Saramago, chegar ao Prêmio Nobel de Literatura.  Não por acaso os três são homenageados na obra de que se fala.

Logo no início de seu prefácio, um pequeno e precioso ensaio, o coordenador da antologia nos avisa que “Ao ler este livro, o leitor ouvirá um coro de vozes irmãs: Brasil, Angola, Portugal e Moçambique.  Este projeto inclusivo revela a coragem dos que se lançam em busca do seu destino como se atravessando o cabo das tormentas (...) Olhar para o passado será sempre por uma fresta no presente. A dispersão dos povos iniciada à força dos colonizadores no século XV hoje é expressão de liberdade.”  Depois surge sucinto mas vibrante Carlos de Assumpção, o poeta dos protestos, nome já icônico da literatura  brasileira. Na quarta capa, Marcella Lopes Guimarães revela que “o  leitor vai encontrar gêneros literários diferentes em que se exprime muito mais que reclamações a que os escritores têm/nós temos direito. Elas e eles concertam propostas e sonhos (...) E fazem mais: teimam no amor e no desejo; maravilham-se com o corpo; enfrentam a desgraça; desdobram a política e a História em poesia; olham-se no espelho.”

Muito bom e esperançoso é saber que entre os dezesseis brasileiros incluídos no livro estão seis francanos:  Luís Antônio Pereira (professor de português/inglês), José Lourenço Alves (membro da Academia Francana de Letras), Maria Helena Zeotti (supervisora de ensino e professora de ciências), Rogéria Santos (psicóloga), Tania Mara (administradora de empresas, e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Economia Criativa em Franca) e Tarcia Caires Saad (professora).  

Ao ver os 40 nomes reunidos, ocorre-me à lembrança um mosaico, nome que tem sua gênese na arte das musas que se empenhavam em lindar imagens e se tornou elemento milenar da estética lusitana. O coral de vozes fixa um conjunto de frações de mundo crivadas pelo pertencimento a culturas diversas, mas filiadas a um mesmo idioma que une em coração e mente seus escritores (e leitores!)

Quando se impõem em nossa pátria a exclusão, o caos, o desmonte do que é belo e útil, a ideia de acolhimento e coesão trazida pela coletânea é no mínimo alentadora. Porque como disse Elsa Ferrante, romancista italiana, “a arte é o contrário da desintegração. E por quê? Simplesmente porque a razão da arte, sua justificação, seu único motivo de presença e sobrevivência, ou, caso se prefira, sua função, é exatamente a seguinte: impedir a desintegração da consciência humana.”

Meus cumprimentos aos escritores que nadam por tantas águas, construindo pontes e conexões.

Serviço

Título: “Tanto Mar Entre Nós:  Diásporas”

Organizador: Baltazar Gonçalves

Editora: Kotter Editorial

Número de páginas: 328

Preço: R$50

e-mail: kotter.com.br

Como comprar: já está em pré-venda pelo site

Site: https:kotter.com.br/loja/tanto-mar-entre-nos-diasporas-org-baltazar-gonçalves