Um dia após a Câmara Municipal de Franca reprovar o projeto de lei que propunha a criação da Semana LGBTQIA+ em Franca, o assunto ainda repercute na cidade. Dois vereadores autores do projeto, Lindsay Cardoso (Cidadania) e Marcelo Tidy (DEM), revelaram pressão para que o projeto não fosse à votação. Mas o texto foi e acabou reprovado por 10 votos a 3, na sessão dessa terça-feira, 10.
Dois dos autores do projeto que pretendia instituir a Semana da Comunidade LGBTQIA+ no calendário oficial do município – Lindsay Cardoso e Gilson Pelizaro (PT) – sustentaram suas posições, enquanto Marcelo Tidy, também autor do projeto, surpreendeu ao votar contra sua própria assinatura.
“Durante o trâmite do projeto, cheguei a pedir a retirada do meu nome, dizendo para os autores que votaria contrário. Mas não foi possível, porque precisava da assinatura dos três. Eu tinha um compromisso com a bancada evangélica e, qualquer coisa que eu falar, existe um errado, que sou eu. Foi um erro da minha parte, que eu assumo. Errei em não ter parado para analisar os impactos que iria ter”, disse Tidy, em entrevista ao programa A Hora é Essa, da rádio Difusora.
Tidy confirmou receber pressão da bancada evangélica para retirar o projeto. Antes da votação, o presidente da Câmara, Claudinei da Rocha (MDB), anunciou a presença no plenário de vários líderes evangélicos, que normalmente são contrários à causa LGBT.
“Eu não sou evangélico, mas tive um apoio grande deles, que me apoiaram na eleição, e tinha umas coisas dentro do projeto que eles são contrários. Aí, eu segui a determinação deles”, revelou o parlamentar, sem citar quais “coisas” eram essas.
O vereador disse que pode repensar sua posição no futuro. “Aquele momento que eu votei não tem como mudar. Acho que, agora, eu tenho que arcar com minha responsabilidade. Eu fiz o voto, está registrado, não tem como mudar. Talvez hoje, vendo tudo que aconteceu, eu possa votar favorável no futuro.”
Tidy afirmou que errou e “não tenho como mudar”. “Acho que magoei muita gente, principalmente esse pessoal LGBTQIA+. Vi a frustação que essas pessoas tiveram comigo. Então, num primeiro momento, o que eu tenho que pedir são desculpas. A minha decisão gerou uma frustação em amigos, em pessoas muito queridas que são homossexuais.”
O democrata atribuiu seu posicionamento, que causou polêmica, à inexperiência política. “Teve uma conversa (com os evangélicos), mas pela minha inexperiência de estar vivendo um momento único na minha vida, que foi o primeiro embate - talvez, o mais polêmico... Quando cheguei à noite, em casa, conversando com minha esposa, foi que eu senti a frustação de pessoas que gostam de mim.”
“Eu não tinha essa noção. Eu peço desculpas a toda a comunidade LGTBQIA+. Eu não tenho preconceito nenhum, mesmo que meu voto tinha sido preconceituoso naquele momento. Eu tendo outra oportunidade, vou reparar meu erro, fazer uma coisa justa, respeitando essa comunidade. Se existe um errado, sou eu, nenhum outro colega”, finalizou.
Lindsay, que também evitou entrevistas logo após a votação, disse nesta quarta-feira, 11, que foi uma vergonha o que aconteceu na Câmara. “Fiquei muito chateada e foi uma vergonha a gente não poder lutar pela comunidade LGBTQIA+, como se eles não fossem dignos. Eles não estavam pedindo nada, não estavam pedindo esmolas, apenas uma semana para falar de preconceito, homofobia. Lá (na Câmara), foi um retrato da nossa sociedade, infelizmente.”
A vereadora também confirmou que a pressão da bancada evangélica foi determinante na hora do voto. Atualmente, há pelo menos cinco vereadores ligados a igrejas evangélicas na Câmara de Franca. “Sim, foi decisivo. Tem muito rabo preso. Eu não tenho rabo preso com ninguém, eu luto pelos meus objetivos, meus ideais”, disse.
Lindsay afirmou que a comunidade LGBT é uma de suas pautas. “As pessoas falam que não podem ter causas específicas. Eu fui eleita por uma causa específica (animais). No mundo perfeito, todos nós somos iguais, mas o mundo não é perfeito. O mundo está doente”, afirmou a vereadora.
Debutando na política, assim como seu colega Tidy, Lindsay destacou que a Câmara já aprovou datas comemorativas para vários segmentos e lamenta que a comunidade LGBT não fora reconhecida.
“Pode ter dia do padre, do cristão, do pastor, do Jeep e por que não pode ter um dia para a comunidade LGBT? Que preconceito é esse? É muito bonito quando eles fazem marmitas, fazem cestas básicas... É atrás dessas pessoas que esses parlamentares vão quando precisam. Agora, quando eles precisam ser representados, essa Casa de Leis não pôde atendê-los”, disse, finalizando:
“Falaram em grupo de pastores (WhatsApp) que o projeto tinha ideologia de gênero, que iria ser passado nas escolas: mentira. Não tinha nada disso. Não iria ter cartazes mostrando homem beijando homem, mulher beijando mulher, nada disso. Estávamos buscando respeito e não preconceito.”