08 de julho de 2026

Brasileiras no pódio

Por Sonia Machiavelli | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 3 min

Resgatar a história das Olimpíadas é oportunidade para avaliar como as mulheres tiveram de lutar também por espaços de igualdade nos esportes. Para começo de conversa, os Jogos que surgiram em Olímpia, cidade-estado da antiga Grécia, e tinham por objetivo homenagear deuses e promover a interação dos povos helênicos, eram interditados a elas, apesar da força que as deusas manifestavam no Olimpo. A mitologia não tinha correspondência na realidade que excluía as mulheres até de sentarem-se no anfiteatro. A entrada delas nos estádios foi vetada desde o surgimento dos jogos em 776 a.C, ano em que os nomes dos atletas passaram a ser registrados, até 393 d.C, quando decreto do imperador Teodósio pôs fim ao maior evento da Grécia. Portanto, por doze séculos as Olimpíadas foram espaço exclusivamente masculino.

Esquecidos por mais de um milênio, os Jogos foram restaurados em 1896  por um suíço conhecido como Barão de Coubertin. Mas as mulheres continuaram ignoradas, já que esporte continuava coisa de homem, e segundo o aristocrata machista, “às mulheres cabe apenas coroar os vencedores”. Porém, ele não esperava o que aconteceria no dia seguinte à abertura do grande acontecimento da Era Moderna, na mesma  Atenas onde tinham nascido as Olimpíadas. Uma grega de nome Stamata Revithi, impedida de disputar a corrida com os homens, conseguiu assinaturas de muitas pessoas para comprovar sua largada às 8h30 da manhã seguinte, e sua chegada às 13h30  ao estádio Panathinaiko - onde sua entrada foi interditada. Demoraria mais de 70 anos até que outra mulher pudesse correr oficialmente uma maratona – foi em Boston, 1967, que Kathrine Switzer quebrou as regras e conseguiu se inscrever. Somente em 1984 mulheres foram definitivamente aceitas para competir essa prova nos Jogos Olímpicos.

No Brasil, a participação feminina em Olimpíadas foi negada por décadas. Mas em 1932, ano em que as mulheres conquistaram o direito ao voto no País, os brasileiros acompanharam a ousadia de Maria Lenk, que aos 17 anos  integrou a delegação que foi a Los Angeles competindo na natação. Como Stamata  Revithi, ela abriu caminho para brasileiras cuja participação vem crescendo a cada quatro anos. Em Tóquio, neste 2021, elas conquistaram oito medalhas, o que representa o melhor desempenho do nosso país até agora.

Rayssa Leal (skate), 13 anos, foi a primeira. A Fadinha do Maranhão, como é chamada, fez  manobras que  encheram de alegria o coração dos brasileiros. Seguiram-se Rebeca Andrade (duas conquistas na ginástica), Mayra Aguiar (judô), Beatriz  Ferreira (boxe), Ana Marcela Cunha (maratona aquática), Martine Grael/Kahena Kunze (vela) e a dupla de tênis Luísa Stefani e Laura Pigossi. 

Atrás de cada medalha, houve anos de preparo,  empenho,  frustração, sacrifícios, superação- que esta é a palavra mais definidora quando se fala de uma Olimpíada. No caso de Rayssa e Rebeca, essas superações alçaram o nível das finanças domésticas, pois ambas são oriundas de famílias pobres, que vivenciam dificuldades tornadas piores nos últimos anos.

Todas as medalhistas brasileiras merecem muitas homenagens, porque é desafiador, e por vezes desalentador, sobreviver com ideais num país cujo governo não dá valor à educação, à cultura, ao conhecimento, à história, às artes, ao esporte. Merecem também cumprimentos os treinadores, profissionais incansáveis que enxergam no esporte uma possibilidade de crescimento, autoestima, afirmação, liberdade e autonomia.

Brasileiras e brasileiros, vivemos nas últimas semanas dias de ânimo no meio do caos  que nos assola. Atletas que subiram ao pódio representaram  um raio de luz, uma chama de esperança, a inspiração para mantermos nosso espírito de luta. Na edição das Olimpíadas que se encerram neste domingo,  mulheres tiveram 48% de representatividade, e em 2024,  em Paris, ao que tudo indica serão 50%.

"Mulher pode ser o que ela quiser, onde quiser e na hora que quiser”, disse a vibrante  Ana Marcela ao presentear o Brasil com  mais uma medalha  nos Jogos de Tóquio. Pensemos nisso ao assistir neste domingo Rebeca Andrade à frente da delegação brasileira, empunhando a bandeira que nos representa e é de todos os que aqui nasceram, vivem e lutam.