Em 2011, Franca se unia em um tributo a Patrícia. Há dez anos, ela concedeu uma entrevista forte, sincera e emocionante ao GCN. À época, Sônia Menezes Pizzo tinha 80 anos e 53 de carreira. Uma vida inteira de trabalho: "Minha vida sempre foi ralada, embora com aquela máscara de estar tudo bem".
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Sônia Menezes Pizzo nasceu no começo da tarde do dia seis de janeiro em uma casa de fundo de quintal na Rua Tomaz Gonzaga, Centro da Franca. O ano era 1931. O dia, de Santos Reis. Bem na hora do parto, havia um grupo de congada cantando na esquina e o bebê nasceu ao som das músicas. Talvez este fato explique a paixão pelas festas que iria aflorar anos depois.
Na década de 50, já casada com Américo Pizzo, a bela Sônia foi convidada por Alfredo Henrique Costa, então diretor do Comércio da Franca, para assinar uma coluna social no jornal. Incentivada pelo marido, ela aceitou o desafio. A Sônia saia de cena e nascia a Patrícia. Nascia também um novo jeito de contar a vida social da cidade.
O começo como colunista foi duro. Integrante de família simples - o pai Guido foi taxista por 42 anos -, Patrícia enfrentou resistência por parte da elite que predominava em Franca. “Sofri amargamente. Fui muito caluniada, desprezada”. Com a persistência que marcaria sua carreira, ela conquistou seu espaço e escreveu seu nome na história da cidade. Hoje, é a profissional com a carreira mais longa no jornalismo francano.
Patrícia trabalhou 32 anos no Comércio da Franca. Está há 21 no Diário da Franca. Trabalhou nas Rádios Difusora, Hertz, Imperador e Unirádio. Na TV, já soma 26 anos como apresentadora. Começou na Record, passou pela Bandeirantes e retornou para a Record há seis anos.
(A entrevista foi feita antes de Patrícia retornar para o Comércio, Difusora e GCN).
Ao longo de 53 anos de carreira, Patrícia lançou tendências, revolucionou o colunismo social e ajudou a consolidar marcas como Magazine Luiza, Franchini, Francal e Unifran. Foi uma das fundadoras da Apae. Se engajou na causa após perder o irmão Artur, que era excepcional e viveu 21 anos na cadeira de rodas.
Patrícia sempre aparece sorridente na tela da TV ou em fotografias. Ela diz que é sua fantasia. Seu macacão de trabalho. Por dentro, não há muitos motivos para alegria. A história de sucesso no colunismo social contrasta com uma onda de mortes no seio da família. Perdeu o pai, a mãe, o marido, o irmão e a irmã. Os dois golpes mais duros vieram nos últimos cinco anos. Em julho de 2006, morreu o filho Américo Pizzo Júnior. Há dois meses, ficou sem aquele que considerava seu braço direito, o filho Mauro Pizzo. Ainda enlutada com a perda do segundo filho, descobriu que sua empresa de propaganda e publicações estava atolada em dívidas.
Aos 80 anos, Patrícia precisou reunir forçar para continuar. Mas, apesar das perdas na família, ela não estava sozinha. Amigos se uniram e lançaram o “Tributo a Patrícia” que, além de levantar recursos para sanar as dívidas da empresa, fará um reconhecimento público pelo longo trabalho da colunista.
Na noite deste domingo, quando muitos estiverem descansado, Patrícia vai se “empiriquitar”, como gosta de dizer, e gravará entrevistas para seu programa de TV. “E vou feliz. Isto é vida para mim”. Antes, a colunista que passou a vida perguntando, mudou de lado. Acompanhe suas revelações.
Comércio - Como a Sônia se transformou em Patrícia?
Patrícia - Tudo começou quando recebi um convite do saudoso Alfredo Henrique Costa, que foi um dos diretores do Comércio. Ele estava precisando de uma colunista pois a dele, Sônia Lúcia, iria se casar pela segunda vez e o marido dela não queria que ela continuasse. Eu era muito festeira. Como meu marido não se incomodou, acabei aceitando. Naquele tempo, não era comum usar o nome da gente. Mandei três opões para jornal: SMP (abreviatura do nome) e Miss UFA, pois nós tínhamos um grupo chamado União Francana de Amigos, olha só que bobeira, Miss UFA. Também tinha uma música do Perez Prado que estava no auge. Chamava-se Patrícia. Ela começava assim: “Quero, quero ser chamada de Patrícia”. Mandei para o jornal a coluna sobre jantares que a gente participava e saiu com o nome de Patrícia. Achei lindo, porque eu amava aquela música. Aí ficou. Hoje, muitas vezes, esqueço que me chamo Sônia.
Comércio - Qual é o momento inesquecível de sua carreira?
Patrícia - Primeiro, o meu começo, porque sofri amargamente. Na década de 50, quem mandava em Franca era uma meia dúzia de famílias, aquelas que eram fazendeiras e que tinham de tudo nas mãos. Eles não aceitavam uma filha de um motorista de táxi querer estar no meio deles. Sofri terrivelmente. Mas tive muita gente me apoiando. Sempre foi assim. O saudoso médico Jonas Deucleciano Ribeiro era uma glória e foi um dos meus maiores inspiradores. Um dia, ele e a dona Genoveva me chamaram na casa deles e falaram assim: “O sol nasceu para quem sabe trabalhar. Vá em frente que estamos com você”. Então, eu fui, mas sofri muito. Fui muito caluniada, desprezada. Meu pai era motorista de táxi, mas queria o melhor para os filhos. Ele teimou e colocou a gente no Colégio de Lourdes, que era o centro dos grã-finos. Um dia, no 2º ano primário, minhas amigas estavam brincando de roda e eu ficava de fora. Pedi para brincar, mas uma delas disse que eu só poderia entrar quando três ou quatro delas faltassem. Eu não ia poder brincar nunca. Mas isto foi muito bom para mim, pois coloquei na cabeça querer ser alguém na vida.
Comércio - Qual foi a entrevista mais marcante que realizou?
Patrícia - Foi uma muito rápida que fiz com o ex-presidente da França, François Mitterrand. Eu estava no Rio. Aconteceria um almoço no Hotel Mediterranée. Fui para lá com a Nenzinha Franchini e esperei por duas horas. Quando ele desceu do elevador, eu cheguei nele. Os guardas nem se importaram. Peguei na mão dele - eu sabia um pouquinho de Francês. Ele foi de uma atenção incrível. Falou que amava o Brasil e que gostaria de abraçar todos os brasileiros. Uma vez, entrevistei o Anthony Quinn em Nova Iorque. Numa noite gelada, tive o privilégio de assistir Zorba, o Grego, na Broadway. E era ele o ator principal. Havia um carro imenso esperando por ele. Me aproximei com meu inglês muito “macarrônico”, porcaria, e falei que era jornalista do Brasil. Ele mandou um abraço para o Brasil e tiramos uma foto. Era a Nenzinha que estava comigo, mas ela ficou muito emocionada e cortou a cabeça dele daqui para cima (pouco acima dos olhos). Nem pude aproveitar a foto, mas foi um momento muito marcante. Um dia, saiu uma foto minha no Estadão fazendo assim (com o dedo em riste) para o presidente Costa e Silva. Ele foi a Barretos para uma inauguração e eu lá, xeretando. Conversei com ele e tinha a mania de fazer assim com o dedo (apontar o indicador para a pessoa) e disse: “presidente, o senhor precisa ajudar minha Franca, a nossa indústria de sapato”. Saí na primeira página apontando o dedo para o presidente.
Comércio - Quem a senhora gostaria de entrevistar?
Patrícia - Admiro muito o presidente dos Estados Unidos, o Obama. Este, um dia, eu gostaria de apertar a mão.
Comércio - De qual fase da carreira a senhora sente saudades?
Patrícia - De quando eu fazia rádio junto com o meu Mauro. Ah, como era bom. E era na Rádio Difusora. Nós fazíamos aquelas apostas de música. Ele escolhia uma e, eu, outra. Era tão gostoso, aquele carinho. O rádio é o que dá o contato mais íntimo.
Comércio - A senhora perdeu dois filhos em cinco anos. Onde encontra forças para seguir em frente?
Patrícia - O Ameriquinho foi enterrado numa segunda-feira. Me deram calmante para poder dormir. No dia seguinte, chorei como nunca havia chorado. Quando foi no terceiro dia, pensei que fosse enlouquecer se ficasse em casa. Fui trabalhar e Deus me deu força. A mesma coisa foi com o meu Maurinho. Ele foi enterrado num domingo. Tanto que eu ando com pavor de sábado e domingo. Um morreu no domingo à noite e outro, no sábado à tardinha. Chega domingo, me dá uma dor no coração. Você acha que meu coração não está negro, não está sofrido? Não há mãe que perde um filho e que fica alegre, feliz. Não sei, mas acho que tem alguma coisa dentro de mim que me leva a seguir trabalhando. Talvez eu seja até criticada por alguns. “Nossa, o filho foi enterrado e ela já está trabalhando.” O meu trabalho, para mim, é vida. Deus me pôs neste trabalho em que sou obrigada a ficar enfeitada, emperiquitada. O meu uniforme de trabalho é estar arrumadinha. Enquanto estou trabalhando, esqueço de tudo, mas quando chego de noite em casa (ela se emociona e chora), você não pode imaginar o que é tristeza que vai neste coração. É muita dor, mas nunca briguei com Deus. Nunca briguei com meu Deus. Nunca perguntei: “‘ó, meu pai, isto é maldade. Por que o senhor levou os meus dois filhos e eu estou ficando?”. Nas duas vezes, eu descobri o para quê ele levou. Eu descobri o para quê do Ameriquinho.Não sei se caberia aqui, mas eu tive os meus dois filhos com o Américo (marido), os dois muito queridos, mas desde novinhos, quando eu estava grávida do Mauro, parecia que eu não queria ter aquele filho naquele momento. Eu cheguei a falar para o Américo que eu queria esperar mais um pouco. Acho que ele sentiu isto na minha barriga. O Ameriquinho puxou ao pai dele, era muito certinho. O Mauro me puxou. Eu nunca fui organizada. Eu via meus defeitos no Mauro e não queria que ele tivesse. Eu brigava muito com ele por causa disto (chora novamente). O Mauro não me dava trabalho, me dava amor. Amor igual ao que o Mauro soube me dar, pode ter igual, maior não. Acho que fui mal entendida em uma entrevista e disse que o Mauro quebrou a nossa firma. Fomos eu e ele. Se é que quebrou, porque não chegou a quebrar. Nem eu, nem ele, tínhamos o dom de dirigir. Eu quis mostrar a ele que confiava nele, mas deveria ter chegado mais junto.
Comércio - Em que se consistem as dívidas da empresa?
Patrícia - São todas de impostos federal, estadual, municipal. Um dia eu perguntei ao Mauro se ele estava pagando os impostos. Ele disse que, uns, sim, outros, não. Como eu era igual a ele, não quis saber, deixei correr. Então ele não quebrou nossa firma. Fomos nós dois juntos que tivemos este contratempo. Vou falar para todos: paguem impostos. Nunca fui favorável. Agora, está doendo na minha carne.
Comércio - Como a senhora avalia este tributo que está sendo realizado pelos empresários da cidade para a senhora?
Patrícia - Primeiramente, senti medo, senti vergonha. Sou um ser humano e sou cheia de defeitos. Expor publicamente não é fácil. Muitas empresas quebram, mas você não vê ninguém ir a público falar que quebrou. Nossa vida está aí, à mostra para quem quiser ver e saber. Nunca, nada caiu do céu para mim. Minha vida sempre foi sofrida, ralada, embora com aquela máscara de estar tudo bem, tudo feliz, porque o público não tem nada com o que estou passando. Quando eu vi que a Luizinha (Luiza Helena Trajano, presidente do Grupo Magazine Luiza) entrou mesmo para valer, comecei a sentir que os amigos estão junto (chora novamente), abraçando a causa...
Comércio - Quem a senhora vê como a sucessora da Patrícia?
Patrícia - Acho que tem muita gente boa em Franca no setor, mas gostaria de falar uma coisa para os meus amiguinhos mais jovens. Precisa levar o trabalho muito a sério. A gente não pode bobear, a gente não pode ter preguiça. Eu quero e a Luizinha também quer que a minha neta Camila siga na minha profissão. Ela se formou em publicidade e propaganda e já apresentou algumas reportagens. A menina é danada. Ela não precisa de texto para ler. Estou apostando muito na minha Camilinha.
Comércio - A senhora tem 80 anos de idade, 53 de profissão e não pensa em se afastar dos microfones. O que faz a senhora continuar trabalhando?
Patrícia - Lutei tanto e pedi a Deus para me dar força, para alcançar um lugarzinho ao sol. O que estão fazendo por mim (tributo), acho que são os acréscimos que Deus está me dando. Eu não pedi para ele esta grandeza. Acho que Deus me predestinou. Me deu esta força interior que me faz trabalhar como se eu fosse a menina de quando comecei. De verdade, eu falo isto. Não sei fingir. Quem me conhece sabe quando estou triste, vê nos meus olhos. Quando estou brava, sou muito brava. Todo mundo que trabalhou comigo, virou gente para valer, mas eu sou dura, sou dura comigo mesma. Veja bem, domingo é o único dia que eu tiro para mim, mas neste (hoje) tenho uma reportagem à noite. Vou trabalhar das sete e meia em diante. Vou me emperiquitar toda e vou fazer uma gravação. E vou feliz. Isto é vida para mim.