09 de julho de 2026
TRANSPORTE INCERTO

Motoristas de APP escolhem corridas para tentar minimizar prejuízo com a alta dos combustíveis

Por Heloísa Taveira | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Arquivo/GCN
Dentre os gastos diários de um motorista, combustível representa cerca de 50% do total

Sair de casa contando que vai chegar ao seu destino na hora programada já não é mais tão certeiro assim. Não, se você depende de aplicativos de transporte. Com a disparada nos preços do combustível, a oferta de motoristas caiu e hoje os que permanecem selecionam corridas para obter algum lucro no fim do dia.

É por esse motivo que se tornou tão comum esperar pela confirmação do motorista por mais de 20 minutos – claro, quando a corrida é aceita. Além disso, andar com carros de aplicativo ficou mais caro.

Moara Ribeiro, de 22 anos, mora no bairro Paineiras, zona Norte da cidade, e trabalha no setor comercial de uma empresa no Centro. Há meses, ela sente diferença no preço das corridas, seja para o trabalho ou qualquer outro compromisso.

“Eu sempre tive dois aplicativos: o Uber e 99. O 99 era conhecido pelos preços mais acessíveis, só que isso mudou. Hoje, pelo menos para onde eu costumo ir, está mais caro, porém, chega mais rápido também. Em contrapartida, o Uber está mais barato, só que demora muito a achar um motorista”, disse Moara.

A jovem relatou que na última semana teve de esperar 25 minutos e ainda assim não encontrou nenhum motorista. “Nesses casos, eu tenho de pegar ônibus, carona... Tenho de me virar. Se precisar estar em algum lugar em 30 minutos, é melhor procurar um carro com pelo menos uma hora de antecedência para garantir.”

Por morar em um bairro mais distante, por diversas vezes, Moara escutou dos motoristas que teve “sorte”, porque eles não costumam pegar corridas para a região. “O preço já é caro e ainda passo raiva esperando motorista. Se for à noite, pior ainda, porque tenho medo de ficar esperando por muito tempo sozinha e, às vezes, nem encontrar. Se encontra, corridas que eram R$ 20 vão para R$ 40”, disse.


Print enviado por Moara, em um dos dias que não encontrou motorista

Breno Penha, de 40 anos, trabalha dirigindo para aplicativos e confirma o que sentiu Moara: não é mais tão simples assim chamar um carro. Ele explica que não é “sacanagem” do motorista, mas que o aumento em geral dos preços impacta diretamente no lucro. Atualmente, dentre os gastos diários de um motorista, a gasolina representa 50%.

“Antes o combustível equivalia a 25%, 30% dos nossos ganhos. Hoje já chega a 50%. Além disso, a manutenção e os documentos do veículo também contam muito. Pneu subiu muito, óleo, então, demais da conta! Isso tudo influencia o passageiro a não conseguir certas viagens. Tem corrida que está dando prejuízo para a gente”, disse.

O motorista afirmou que a tarifa que os aplicativos pagam é a mesma desde que o sistema começou a operar no Brasil, há sete anos. “Por isso que muitos motoristas estão largando a profissão, e não acham ninguém quando o passageiro solicita”, disse Breno, que também pensa em desistir da área. “Você tem que trabalhar de 12 a 16 horas por dia e sete dias por semana. Nisso, você mata os momentos com a família para conseguir levar o pão para casa.”

Além das longas horas de trabalho para garantir o sustento, o investimento para quem planeja entrar no mundo dos aplicativos de transporte é alto. É exigido que o motorista trabalhe com um carro de no máximo nove anos, com ar condicionado e quatro portas. Um veículo que atenda esses critérios custa em torno de R$ 30 mil, pelo menos.

“Se os aplicativos não organizarem uma forma de o motorista ganhar um pouco mais, o passageiro vai ficar sem carro. Hoje em dia o passageiro não pode mais sair de casa contando que vai encontrar um carro de aplicativo. Tem que pensar que ele pode ir embora a pé ou de ônibus. Se não compensar, a gente nem aceita a corrida, porque sair cedo de casa e pagar para trabalhar é complicado”, afirmou Breno.


Breno Penha, motorista de APP, planeja deixar profissão

Sete aumentos em 2021
Trabalhar com aplicativos de transporte já foi uma opção muito rentável para grande parte dos motoristas, mas com o aumento quase que mensal do combustível, está cada dia mais inviável. Somente neste ano, o preço já foi reajustado sete vezes.

Em janeiro, a gasolina custava menos de R$ 4,50 e o etanol, por volta de R$ 3,30. Sete meses depois, o valor subiu para R$ 5,80 e R$ 4,30 em média, respectivamente, em Franca. Foi em 2020 que o combustível encareceu de vez e em 2021 os reajustes continuaram.

Valmir Augusto de Oliveira tem 42 anos e é autônomo. Ele trabalha na fabricação de calçados, mas quando não tem serviço, faz corridas de aplicativo. Assim como Breno, Valmir encontra dificuldade para lucrar com a área.

“A porcentagem que os aplicativos pegam já é alta, com o valor do combustível, então, não sobra quase nada. Dependendo da distância que você vê na corrida, nós nem aceitamos”, disse.

Ele conta que, por vezes, já se viu no prejuízo por aceitar corridas que não pagavam sequer a gasolina. “Teve um dia que peguei uma passageira na avenida Brasil e deixei ela no Luiza II, a corrida deu R$ 12. Hora que finalizei a corrida e vi o valor que tinha dado eu fiquei até desanimado. Se soubesse que ia ter dado esse preço, nem tinha aceitado. Pela distância teria que ser, no mínimo, R$ 17.”

Não é exclusividade de Franca
A demora para achar um carro e os altos preços não são um problema exclusivo de Franca. O país inteiro sofre com a pouca oferta de motoristas por conta das diversas razões já elencadas, principalmente, as cidades grandes. Na capital paulista, 25% dos motoristas desistiram de prestar serviço.

A dificuldade é tão comum que ganhou até os memes dos internautas. Confira as postagens de redes sociais.

(via Instagram)