Andar pelo Centro de Franca e se deparar com vários ambulantes espalhados pelas praças e ruas não é um cenário novo. Há anos camelôs são presença constante nos principais pontos comerciais da cidade. Nos últimos meses, porém, a sensação - tanto dos comerciantes que atuam na área Central como dos próprios consumidores que passam pela região - é que o número deles se multiplicou. Exponencialmente.
Antes mais restritos às praças Barão e Nossa Senhora da Conceição, além das proximidades da agência dos Correios, os ambulantes hoje se espalham por todos os calçadões e corredores comerciais. Somente no Centro da cidade, por volta das 16 horas da última quinta-feira, 29, foi possível contabilizar mais de 50 ambulantes. Ali se encontra de tudo: desde cuecas e meias até roupa de cachorro. Não faltam frutas e, claro, as sempre pitorescas ervas com prometidos efeitos afrodisíacos.
Estigmatizados por parte da população, os ambulantes evitam gravar entrevistas, mas aceitam conversar informalmente, sem se identificar. As histórias se multiplicam – e se repetem. Pessoas que perderam seus empregos, que ficaram sem renda e apostaram nas vendas de produtos diversos, nas ruas, como alternativa para garantir o ganha pão.
Após mais de 10 anos trabalhando como motorista de caminhão, agora é como vendedor de roupas de cachorro, roupas de boneca e máscaras que um dos ambulantes que trabalha no calçadão vem conseguindo sobreviver nesse momento tão difícil.
“Essa semana está mais parado por causa do frio e por não ser data de pagamento. Mas as vendas estão boas, principalmente das roupinhas de cachorro e boneca”, disse o vendedor, que também tem apostado no comércio online para faturar mais. A especialização tem garantido bons resultados. “As de boneca ninguém no Centro vende, então a procura é alta. Fiquei desempregado no ano passado. Desde então, começamos a vender as máscaras e minha esposa começou a produzir as roupinhas de boneca. Está melhor que como motorista. Mas é um leão por dia”, explica.
Na praça Barão, entre cobertores, tapetes, meias, máscaras, brinquedos e frutas, um ambulante chama atenção particular. Com produtos que vão desde canela de velho, funcho, mastruz e hibisco até noz da Índia e orégano fresco, o boliviano oferece para quem passa ervas de todos os tipos. Há opções para todos os gostos, desde produtos que acenam com emagrecimento até os que garantem ajuda extra para aumentar a disposição sexual.
No calçadão da Voluntários da Franca, os produtos se repetem: roupas, cuecas, meias e as onipresentes máscaras. Os vários vendedores espalham seus produtos pelo chão, dividindo o espaço com os pedestres. O que muda de um para outro é a forma de negociar seu produto. O kit com três meias é vendido a R$ 10, mas se você comprar mais e “chorar” no preço é possível conseguir um desconto. Para quem não se importa com marca nem se preocupa com procedência, o negócio pode valer a pena, já que nas lojas físicas três pares de meia custam, em média, de R$ 19,90 a R$ 29,90.
Outro produto muito encontrado nos espaços montados pelos ambulantes, na maioria das vezes no próprio chão, são cobertores e mantas. Diferente do que acontece com as meias, o crescimento nas vendas dos últimos dias por conta das baixas temperaturas fez com que as mantas e cobertores tenham preços parecidos com os praticados nas lojas, custando a partir de R$ 35.
No calçadão da Marechal Deodoro, os camelôs dividem o espaço com artesãos e hippies, na maior parte oriundos de outras cidades, que vendem pulseiras, colares, “apanhadores de sonhos” e pedras de signos. Por ali, há também utensílios domésticos como descascadores de alimentos. O teste é feito na hora, com legumes e frutas frescos.
“Espaço para todos"
Antes alvos de críticas constantes e generalizadas, hoje os comerciantes das barraquinhas da praça do Itaú” acreditam que o pior momento já passou e que há espaço para todos, mas cobram da prefeitura mais organização e uma identificação dos ambulantes eficiente.
“Não vejo problemas deles (ambulantes) aqui. Na pandemia, quando tudo ficou fechado, eles passaram por muitas coisas. Ficaram apertados. A gente fica com dó, porque todo mundo precisava, então, eles não tinham recursos. Tem espaço para todo mundo. Se organizar melhor, ficará muito bom. Nenhum cliente que entra aqui na loja reclama deles”, disse o proprietário de uma loja instalada há mais de 25 anos no Centro.
A representante dos camelôs do Itaú, Dilma Fuentes, de 77 anos, que está na praça há mais de 30 anos, é outra que entende a necessidade de todos, mas também defende melhor organização dos ambulantes para não atrapalhar lojistas nem pedestres nos calçadões.
“Alguns atrapalham. Ficam na porta de lojistas com o mesmo produto, mas eles não pagam aluguel, impostos e IPTU. O pessoal reclama. Têm alguns que vem de fora, eles abaixam o preço do produto até a pessoa comprar, ficamos sem jeito de competir. Mas todos precisam trabalhar, igual eu também preciso. Mas a reclamação é que nós pagamos impostos e eles não pagam. Então a prefeitura tem que fazer alguma coisa para organizar isso”, argumenta Dilma.
A prefeitura de Franca diz que está atenta ao problema. Em nota, informou que nesta última semana uma ação coordenada pela Secretária de Desenvolvimento fez um censo para conhecer as necessidades desses trabalhadores, que atuam nas Praças Dom Pedro, Nove de Julho, artesãos da Carlos Pacheco (em frente ao Cemitério da Saudade), entre outros locais. A perspectiva é implementar o programa “Venda Legal”, para qualificar e oferecer melhores condições para os trabalhadores que comercializam suas mercadorias nas ruas da cidade.
“O programa irá identificar o perfil de cada pessoa para que sejam desenvolvidos cursos e capacitações em vendas, inclusive por mídias digitais, para que tenham acesso a novos mercados, além da liberação de créditos pelo Banco do Povo e o acompanhamento da Vigilância Sanitária, para que possam se formalizar e trabalhar dentro da legalidade e segurança”, disse a prefeitura.
A Acif (Associação do Comércio e Indústria de Franca), sempre vista como antagonista dos ambulantes, diz que a organização é o caminho. Defende também "fiscalizações periódicas de conduta e consequente cumprimento da legislação, em especial o Código Municipal de Obras e Posturas”.