Em um mundo ainda repleto de barreiras e preconceitos, as mulheres têm mostrado cada vez mais que podem, sim, estarem em qualquer lugar. Atualmente em Franca, as mulheres representam 44% dos empregos formais da cidade, segundo a Acif (Associação do Comérico e Industria de Franca). Até mesmo em áreas onde a predominância é masculina, elas têm brilhado diariamente: são pintoras, motoristas e até guincheiras, entre tantas outras profissões.
Letícia Batista Ribeiro Andrade, de 24 anos, há cinco anos resolveu sair da empresa de cosméticos que trabalhava e entrou na empresa de guincho, junto do seu pai. A jovem, que se deu o apelido de “Penélope” - alusão a personagem do desenho animado da “Corrida Maluca” - atende os clientes com um laço na cabeça, unhas bem feitas e um grande sorriso no rosto. Ela pilota um Ford-814, fabricado em 1997, que agora está ficando do jeitinho que ela gosta.
“No começo foi um pouco difícil. Tive medo, porque meu pai é muito exigente e rígido. Tem que fazer direito (risos). Agora estou deixando o caminhão do meu jeito, mais com a minha cara. Mais emperiquitado. Eu gosto muito de trabalhar com o guincho. Ainda mais que sou a única mulher da cidade”, contou a jovem, que já colocou adesivos rosa no guincho, bancos rosa, pelúcia nos tapetes e uma cortina também rosa.
Apesar de sempre estar com o sorriso no rosto e tratar bem os clientes, Letícia conta que nem todos aceitam quando veem que quem removerá o veículo é uma mulher. “Tem gente que olha esquisito. Na hora que você chega e começa a olhar estranho. Diferente. Mas a gente trabalha com todos os tipos de pessoas. Tem gente que aceita, tem gente que não. Tem gente que olha feio. Desacredita que é uma mulher que faz o serviço. Mas, mesmo assim, tem gente que gosta, acha super legal. Muitas mulheres gostam, acham diferente ser guinchadas por uma mulher”, continuou Letícia, que agora é Penélope.
Em toda a região de Franca, Letícia é a única mulher que trabalha com remoção de veículos.
Letícia Andrade há cinco anos opera um guincho
Transportando vidas
Casada e mãe de dois filhos, Carina Cardoso, de 41 anos, transporta trabalhadores em um ônibus de uma firma de calçados da cidade. A ideia de ser motorista nunca passou na cabeça de Carina, mas após muita insistência do marido e mudança de emprego, ela começou a pensar na hipótese.
“Trabalhávamos em uma banca de pesponto. Mas o serviço estava muito pouco e meu marido decidiu mudar de profissão. Um dia, lendo os classificados do jornal, ele achou um anúncio de uma van. Compramos a van e ele começou a transportar as crianças. No começo era só ele, eu tinha muito medo de dirigir. Nem carro e moto eu dirigia. Mas depois de muita insistência, eu perdi o medo e tirei a CNH”, disse Carina.
Após comprar um micro-ônibus, Marcos Cardoso, marido de Carina, começou a falar para ela tirar a CNH (Carteira Nacional de Habilitação) de categoria profissional, para poder dirigir o veículo também. “Eu sempre falava ‘Você tá doido? Como que eu vou carregar pessoas comigo, eu perdi o medo de dirigir faz pouco tempo’. Eu tinha muito medo. Mas ele me apoiou e eu tirei a carta profissional. Fiz todos os cursos. Na época era só eu de mulher, mas foi tranquilo, passei em todos os cursos e as provas. Daí comecei a transportar alunos para a faculdade”, contou Carina.
Depois que veio a pandemia e as aulas foram suspensas, Carina, o marido e o filho mais velho foram trabalhar em aplicativos de transporte. Apesar de já ter experiência na área e com o marido hoje, sendo proprietário de uma empresa de turismo, a motorista conta que ainda tem pessoas que a discriminam e fazem brincadeiras.
“Uma vez fui levar um pessoal em um culto de igreja e quando cheguei para buscar eles o pastor se assustou. Eu sou muito baixinha e ele chegou em mim e perguntou assustado, ‘cadê o motorista?’. Eu me apresentei e disse que era a motorista e ele disse que pensava que era um homem. Durante a viagem o pastor ficou muito apreensivo. Ninguém falava nada. Mas quando fui levar todos para casa, o pastor me agradeceu e disse que estava de parabéns e que dirigia bem. Então, ainda hoje, tem muita piadinha.”
“No dia que fui fazer a prova da carteira profissional dois homens tomaram bomba. Aí um rapaz até disse, ‘Vocês não têm vergonha? Até a moça aqui passou e os marmanjos não’ (risos). Sempre tem uma piadinha assim, principalmente dos homens. Alguns mandam ir pilotar fogão, mas graças a Deus nunca me envolvi em acidente, em nada. Levo na esportiva e sigo trabalhando”, finalizou Carina.
Carina Cardoso: motorista
Colorindo casas
A pintora de casas Daniela Cintra, de 38 anos, começou em um trabalho que tem predominância masculina por acaso. Em 2010, após ganhar uma textura para parede para passar no muro de sua casa e não ter dinheiro para pagar alguém para realizar o trabalho, ela contou com a ajuda do cunhado para fazer seu primeiro serviço.
"Ganhei um grafiato que sobrou de uma obra. Eu não tinha dinheiro para pagar alguém pra fazer, sabe? Era caro na época. Meu cunhado era ajudante de um pintor e me ofereceu para passar no meu muro, mas se eu ajudasse. Com isso, acabei pegando o gosto e já estava achando que era pintora (risos). Fui ajudar meu pai a pintar a casa de uma vizinha e comecei a pegar alguns serviços para fazer", contou a sempre sorridente Daniela.
Após começar a realizar alguns serviços, Daniela contou que algumas pessoas se assustavam ao vê-la nas obras, mas que nunca ninguém a maltratou pelo fato de ser mulher. "No começo as pessoas achavam estranho me ver nessa área. Às vezes meu marido me acompanhava em alguma obra que eu estava executando o serviço. Sempre que passava uma pessoa pedindo orçamento, 100% das pessoas iam direto nele. Por ele ser homem né! Ele falava 'Olha, a dona da obra é ela'. A pessoa ficava meio espantada, mas falava comigo. Dava para ver na cara o espanto", continuou a pintora.
Em uma dessas obras, a pintora estava sendo observada por um vizinho que era dono de fábrica. "Ele me viu e disse que estava me observando há alguns dias. Ele olhou e disse: 'Você é a pessoa certa para pintar minha casa'. Isso no começo. Depois de fazer o serviço na casa dele, ele me indicou para outras pessoas e isso me ajudou muito. As outras pessoas iam me indicando", continuou Daniela, que afirmou que o dono da fábrica é seu cliente até hoje.
Daniela Cintra: pintora por acaso
Preconceito
Para as profissionais, uma situação, infelizmente, ainda é comum: o preconceito. Em ambientes de predominância masculina, elas relatam ter que lidar com “brincadeiras” e até questionamentos sobre sexualidade, somente por causa da profissão que escolheram seguir.
Muitas vezes, buscando fugir de cantadas, Letícia, a Penélope, se vê obrigada a manter uma cara fechada, algo bem diferente da sua personalidade. “Eu sou sorridente, atendo todos, independente de homem ou mulher, com um sorriso no rosto. Mas muitas vezes, infelizmente, os homens confundem isso”, conta. “Outras vezes já tive a minha orientação sexual questionada apenas por trabalhar com guincho e isso me incomoda. Obviamente não teria nenhum problema se minha orientação fosse outra, o que me incomoda e muito é que isso não deveria ser uma questão. Muitas pessoas têm muito a evoluir ainda.”
O mesmo acontece com Carina e Daniela. Elas afirmam que, apesar do preconceito, o que deve ser considerado é o comprometimento que elas têm com o serviço e não o fato de serem mulher. “Eu me preocupo com as pessoas que transporto. Sou comprometida com o que faço, independente de ser mulher e isso é que tem que ser observado. Já evoluímos muito, mas ainda temos muito a alcançar. O profissional deve ser reconhecido pela sua capacidade e não por ser homem ou mulher”, disse Carina.
Já Daniela garante que sua exigência, comprometimento e responsabilidade com o serviço são diferenciais. “A cada dia mais as pessoas estão se libertando dos preconceitos. Muitas vezes sou procurada para realizar o serviço pelo meu comprometimento, minha exigência e isso vai além do fato de ser mulher. É uma característica profissional e isso que deve ser levado em consideração”, finaliza.