08 de julho de 2026

Sonia Machiavelli

Por Avós | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 4 min

“E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino que se lhe é “devolvido“.

Este é um trecho de crônica de Rachel de Queiroz, publicada nos anos 70. Chama-se “A arte de ser avó”. É um clássico que já reli algumas vezes. A autora nos fala de um tempo da vida em que os filhos, já adultos, apagaram aos olhos dos pais a imagem da criança que foram e isso causa difusa nostalgia especialmente nas mães. É pela memória que elas procuram resgatar o seu bebê, a menina em quem colocavam laços, o menino que começava a andar. Pois providencialmente, diz nossa escritora cearense, é neste instante que chegam os netos, para suprir a falta dos corpinhos miúdos circulando pela casa, o choro sentido de quem se assustou com algum barulho, as manchas de mertiolate nas escoriações dos primeiros tombos depois do engatinhar.

Junto com o bebê nasce a avó e seu amor inusitado, que não é igual ao da mãe.  No amor da avó não impera a preocupação constante e exaustiva de quem dá à luz e pretendo a todo custo acertar na criação do rebento, o que toma todo o tempo e alimenta a ansiedade. A avó já viveu a experiência da maternidade, avalia o que valeu a pena e o que foi desnecessário, ela é amor em estado puro, o que significa não dar importância a fatos que a desgastavam enquanto mãe.  Nada de se afligir com a antiga compoteira de cristal estilhaçada por conta de uma bolada; com o vidro de tinta vermelha derrubado no sofá branco; com a  sopeira chinesa quebrada em mil pedacinhos depois de um empurrão no móvel onde descansava. Esses desastres domésticos agora são apenas registros da presença do neto na casa de sua avó. Para tudo haverá justificativa: “Ele não viu a compoteira”; “Eu já ia mesmo trocar o tecido do estofado”; “ O que seria dos fabricantes de louças se elas não quebrassem? ”

Rachel de Queiroz, que não teve filhos saídos de seu ventre, descreve melhor que muitas avós de sangue o sentimento de quem recebe nos braços os filhos dos filhos. Acontece que os de sua irmã tornaram-se os do seu coração e com os filhos deles a escritora viveu a experiência extraordinária de um amor que já deveria ter encontrado na língua portuguesa adjetivo mais poético que “avoengo”para o caracterizar. Temos amor materno, paterno, fraterno, filial. Todos bonitos. Mas amor avoengo? É feio, antigo, esquisito, mais lusitano que português.  Só mesmo no Direito de Família.  

 Se não possuímos uma palavra mais bela, pelo menos temos agora uma data para lembrar a importância dos avós na família. É o 26 de julho, quando a igreja católica celebra Santa Ana e São Joaquim, pais da Virgem Maria e, portanto, avós de Jesus Cristo. Eles são considerados os padroeiros de todos os avós.

 A despeito da adesão ou não à tradição dos santos, as imagens de Ana e Joaquim (só descritas nos evangelhos apócrifos) dizem muito na cultura cristã ocidental sobre o papel importante dos avós nos fundamentos de uma família, sejam quais forem as alegrias ou as tristezas que ela venha a vivenciar. No Brasil, dadas as condições socioeconômicas, avós muitas vezes desempenham o papel de pais de seus netos, assumindo inteiramente sua criação na falta da mãe ou do pai ou de ambos, tragados pelas tragédias cotidianas que ignoramos na sua essência. E com a pandemia, já chega a milhares o número de crianças cuja orfandade necessitou da proteção dos avós, heróis anônimos instados a retomar funções que acreditavam já cumpridas. São fatos dos quais ainda não tomamos preciso conhecimento, junto a outros que derivam da catástrofe que foi (e continua a ser) a gestão da Covid-19.

Quero cumprimentar todos os avós ricos ou pobres, saudáveis ou doentes, cultos ou analfabetos, mas amorosos e atentos, fonte de sabedoria para quem tem ouvidos abertos, inspiração para os que começam a viver, lembretes vivos de ancestralidade. Eles são os fios de um longo tapete que vem sendotecido desde tempo imemorial e em cujo desenho o neto um dia acaba por se reconhecer. Porque não há dúvida sobre o fato de que somos  o resultado  de todos que nos antecederam na grande família humana e a eles devemos ser gratos