A literaturanoir se caracteriza por apresentar histórias que mesclam mistério, medo e sugestões que vão além do nível denotativo. Já a narrativa macabra perturba por abordar o caos de repente instaurado, a subversão da ordem, a ideia de morte. Uma história de terror desencadeia sustos no leitor ao trazer para o nível das palavras o desconhecido, o sobrenatural, os acontecimentos que a ciência não consegue explicar. E o gênero fabuloso, seja em prosa ou versos, empodera os animais descortinando verdades ou pautando reflexões para os humanos.
Olga Tokarczuc, escritora polonesa laureada com o Nobel de Literatura em 2019, lançou mão de todos os elementos acima mencionados no romance “Sobre os ossos dos mortos”, lançado em seu país há onze anos e só recentemente traduzido para o português. O noir, o macabro, o terror reúnem-se a leves traços de humor para erguer fábula humanista que segura o leitor pelo suspense e fixa um estilo marcado pelo vigor. Em choque e em xeque, natureza e cultura.
Vamos ao resumo da enredo. Em remota região da Polônia, solitária professora de inglês aposentada, Janina Dusheiko, costuma se dedicar ao estudo da astrologia e à poesia de William Blake. Para aumentar sua pequena renda, dá aulas particulares e cuida da manutenção de casas de veraneio. Mas sua atividade preferida é sabotar armadilhas para impedir a caça de animais silvestres como raposas e alces, pois prefere a companhia dos bichos à dos humanos.
Vista como excêntrica pelos moradores, ela vai levando a existência até que passa a dividir com a polícia a investigação sobre a morte de alguns caçadores. Acredita que estes foram vítimas de assassinato e os culpados seriam os animais, exasperados com a perseguição dos homens que estariam tramando o tempo todo contra suas vidas.
Temas como injustiça, respeito à vida animal, indiferença, carência de afetos, morte e loucura passam a pontuar a vida dessa velha senhora que nomeia seus vizinhos como “Esquisito”, “Pé Grande”, “ Acinzentada”, e sobre os quais elabora teses engraçadas, enquanto faz seu elogio à República Tcheca, que idealiza, ou depois de escrever longas cartas ao delegado denunciando atrocidades humanas contra os bichos.
O eixo da trama - “Quem matou?”- é bem mantido, embora a protagonista, com sua fina ironia, conceda ao leitor algumas piscadelas que podem ser entendidas como pistas. A estrutura do enredo policial tem bons momentos, embora às vezes se perca pelas elucubrações da narradora em seu entusiasmo pelos versos do poeta inglês, ou pelo estudo do mapa astral que consulta de forma pouco entendível a leigos que não se interessam pelo zodíaco.
Dignos de destaque são momentos gloriosos como este lírico registro de mudança de estação:
“ O inverno começa logo depois do Dia de Todos os Santos. As coisas aqui funcionam assim, o outono retira todas as suas ferramentas e os seus brinquedos, sacode as folhas, pois já não serão mais necessárias, varre-as para debaixo das divisas dos campos, retira as cores das gramas até ficarem cinzentas e desbotadas. Depois, tudo ganha nitidez e se torna branco e negro; a neve cai sobre os campos lavrados”
Ou como a reflexão contundente a respeito do envelhecimento:
“E então algo acontece no meu corpo, os ossos começam a doer. É uma dor desagradável, revoltante- essa é a palavra que eu uso. É constante, persiste por horas, às vezes dias. Não há como se esconder, nem remédio ou injeção para aliviá-la. Tem que doer, do mesmo jeito que um rio precisa fluir, e a chama queimar. Ela me lembra, cruel, que sou composta de partículas de matéria que morrem a cada segundo. Alguém consegue se acostumar com isso? Aprender a viver com isso assim como as pessoas que vivem na cidade de Oswiçcim (que abrigou Auschwitz) ou Hiroshima, sem pensar jamais no que aconteceu lá no passado. Elas simplesmente vivem suas vidas.”
“Sobre os ossos dos mortos” chegou ao Brasil recentemente pela editora Todavia, com tradução de Olga Baginska-Shinzato, e sua leitura corresponde à alta expectativa que se cria a respeito de autora laureada com o Nobel: estilo vigoroso e narrativa de tema contemporâneo.
Olga Tokarczuk nasceu em 1962 na Polônia. Graduou-se em Psicologia pela Universidade de Varsóvia e trabalhou como terapeuta antes de dar início à sua carreira de escritora, tendo publicado o seu primeiro livro em 1989. Além de vencedora do Nobel de Literatura de 2019, a autora recebeu o Man Booker Prize e foi finalista em diversos outros prêmios europeus. Atuou como co-roteirista de Pokot (“Rastros”, em português), adaptação cinematográfica do livro aqui comentado.