10 de julho de 2026
RETOMADA

Motoristas de vans escolares vivem expectativa com volta às aulas em agosto

Por Higor Goulart | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Higor Goulart/GCN
Vans nos dias atuais: sem crianças e com bancos vazios

Os motoristas de transporte escolar vivem há mais de um ano um período de total incerteza. Por dependerem das atividades escolares para que trabalhem normalmente, todos da classe foram totalmente afetados pelos efeitos da pandemia, logo no início de tudo. Agora, um ano e quase cinco meses depois, com a iminente volta às aulas, após autorização pelo Governo do Estado de retorno de 100% da educação básica e parte do ensino superior em agosto, a categoria se enche de esperança, estimulada também pelo avanço da vacinação.

Com a interrupção das aulas presenciais, logo no começo do ano passado, muitos dos motoristas se viram sem renda e com as contas decorrentes dos investimentos e manutenções nos veículos, que fazem, normalmente, antes do ano letivo. 

Ronald de Souza está há mais de 30 anos na profissão. Ele e sua mulher, Cláudia, trabalham com o transporte escolar. Por conta desse investimento sem retorno, que para ser pago foi necessário usar de poupança além de empréstimos, mais de R$ 30 mil foram perdidos.

“Quando veio a pandemia, nos pegou completamente desprevenidos e já estávamos cheios de dívidas. Meu prejuízo foi de R$ 30 mil. Tinha dinheiro de uma van que vendi antes, mas acabou, além de um empréstimo que peguei”, contou Ronald.

Um que não está há tanto tempo na categoria, mas foi fortemente afetado é Edcarlos Antunes. Tendo de pegar empréstimos para pagar as contas criadas antes da pandemia, o rapaz desenvolveu uma dívida de mais de R$ 20 mil. “Fora as despesas que eu contava com o salário da van, contando só as despesas da van, eu calculo que gastei em torno de R$ 4 mil. Mas, se eu for colocar despesas de sobrevivência, que tive que pegar financiamento, meu prejuízo é de R$ 20 mil ou mais”, disse Edcarlos.

Os motoristas também tiveram de buscar alternativas em outros empregos. Ronald, que também é presidente da Atef (Associação de Transporte Escolar de Franca), disse que seus companheiros de classe tiverem de se virar, indo trabalhar em serviços alternativos. “Alguns foram trabalhar como pedreiros, outros começaram a vender coisas na rua, alguns com aplicativo... Estão vivendo dessa forma”, disse.

No caso de Ronald, esse "se virar’ veio em dobro, já que ele e a esposa trabalhavam com isso. Ronald precisou pegar o carro e trabalhar como motorista de aplicativo, enquanto Cláudia começou a trabalhar meio período como empregada. “Ela começou a trabalhar como empregada e eu como motorista de aplicativo. Nossa van e ônibus estão parados”, disse Ronald.

Edcarlos não teve a sorte de ter alternativas. Por ter crianças pequenas em casa, que não puderam ir às creches para estudar e com a mulher professora, ele não pôde arrumar um outro emprego. “Eu não consegui entrar em outro tipo de trabalho, porque tenho duas crianças pequenas e minha esposa é professora. Então, como as creches também fecharam, minhas filhas não tiveram onde ficar. Não pude arrumar um outro emprego, se não iria ganhar o dinheiro e pagar alguém pra cuidar delas. Tamparia o sol com a peneira”, disse Edcarlos.

Desde março do ano passado, ele e a mulher precisaram readequar suas contas, pegar empréstimos e viver uma vida completamente diferente do que antes. “Cortamos várias despesas e estamos tendo que viver apenas com o básico mesmo. Estamos sobrevivendo apenas com o salário da minha mulher, que é professora da rede estadual. Estou há um ano e meio sem renda”, contou Edcarlos.

Nessas incertezas e buscas por alternativas, muitos já até desistiram da profissão. “No começo da pandemia éramos em torno de 160 motoristas. Hoje, estamos em 130, por enquanto. Se as aulas voltarem agora em agosto, acredito que voltarão uns 60%”, estimou Ronald.

Agora, os motoristas que restam vivem dias de esperança com o progresso da vacinação em Franca. Mesmo com essa expectativa, tendo datas já firmadas para a retomada, eles também não têm respostas para o retorno, projetando a volta aos dias normais apenas para 2022. “Tiveram muitos pais que matricularam os filhos próximo a suas residências, já para diminuir os custos. Fora que estamos falando só em voltar e não colocamos em assunto o preço do combustível. Além de termos que limitar a capacidade, em uns 60%, teremos que repassar os custos aos pais. Se não, nem compensa voltar. Então, essa volta vai ser um tiro no escuro”, finalizou Ronald.