Em meio à natureza, Virgínia Maria de Jesus Pereira desfruta os seus 107 anos. Nascida no ano de 1913 em Salinas, interior de Minas Gerais, dona Virgínia tem história em todos os cantos do Brasil, mas foi em Franca que decidiu se acomodar. Solteira e mãe de seis filhos, foi trabalhando pesado que conseguiu tocar a vida: “Não há nada nesse mundo que eu não saiba fazer”.
Em quarentena desde o início da pandemia, em uma chácara perto da cidade, dona Virgínia já tomou as duas doses da vacina contra a covid, mas ainda se protege. Mesmo com a idade avançada, ela se lembra de outras doenças que aterrorizaram o mundo inteiro e faz questão de deixar o recado: “Tem que se cuidar”.
Desde que dona Virgínia é nascida, várias pandemias e epidemias assombraram a humanidade. A tuberculose, que aconteceu entre, aproximadamente, 1850 a 1950, deixou 1 bilhão de mortos. O surto de varíola, entre 1896 e 1980, acometeu cerca de 300 milhões de pessoas. A gripe espanhola, de 1918 a 1919, matou 20 milhões. A idosa se lembra de todas elas.
“Para mim, o pior de todos foi o sarampo. Esse quase me levou para o buraco. Tive febre, dor de cabeça, uma dor terrível atrás dos olhos. Fiquei de cama um tempão. Era difícil”, disse Virgínia. “Em vista do que o povo está passando com essa covid, eu estou bem. Minha filha cuidou depressa, providenciou a 1ª e 2ª dose e agora estou aqui. Graças a Deus, não senti a humilhação dos efeitos da vacina.”
Origem
Virgínia perdeu a mãe aos 7 anos de idade, e, a partir de então, passou a acompanhar o pai no trabalho árduo. Passou de cidade em cidade, trabalhando na roça, limpando casa de “madame” e cozinhando para político. “Eu fiz tudo quanto é serviço. Sou fazedora de teia, cortadeira de cana, cuidava de roça, de casa, tudo isso eu fiz. Para falar a verdade, não tem serviço no mundo que se possa falar que é serviço que eu não saiba fazer”, disse.
Depois se mudou para São Paulo – a cidade que ela mais gostou. Ficou na capital por seis meses, mas depois de ter sua casa roubada, veio morar com um dos filhos em Franca. “Em São Paulo, tinha muita coisa. Muita coisa boa e bonita. O que fez eu mudar de São Paulo, porque lá eu tinha uma casinha de tijolo, foi por causa de bandido. Não foi por causa de mais nada, foi por conta de bandido.”
Em Franca, Virgínia, que sempre foi solteira, continuou trabalhando muito. Quando relembra, as lágrimas vêm no rosto. “Eu não me queixo de nenhum serviço que eu fiz. E tenho vontade de voltar a ser o que eu era. Tem hora que eu choro quando lembro como eu tinha disposição para trabalhar. Queria poder trabalhar ainda para ajudar minha filha, que fica na correria”, falou, olhando para sua filha Maria Helena, de 67 anos.
Maria Helena cuida da mãe há anos. Além da relação familiar, as duas se tornaram grandes amigas e são companhia uma para outra. “A gente já passou muita coisa juntas. Lembro quando ela me levava, em época de eleição, nos banquetes para políticos. Fazia comida naqueles fornos enormes de barro. Sempre muito esforçada e, mesmo que a gente passasse fome, ensinou a nunca pegar nada de ninguém”, disse Helena.
Essa foi a única dos seis filhos que restou. Todos os outros morreram por conta de doenças, com exceção de um, que desapareceu aos 17 anos. Quando questionada sobre o sentimento de perder um filho, dona Virgínia, que já estava emocionada, não se conteve. “Sempre que morre alguém da família, a gente sofre demais.”
Daqui para frente
Apesar de não conseguir andar, dona Virgínia é totalmente lúcida e interage com todos. Para ela, tudo que é preciso para viver bem, ela já teve e ainda tem, que são o trabalho e a fé. “Não sinto vontade de nada, da vida não quero mais nada. Não sinto vontade de uma roupa nova, de sapato, de nada. Eu adoro estar no mato. No mato, você vê um pássaro cantar, tem lugar para plantar alguma coisa e alimentar o corpo. Eu não sinto vontade de mais nada nesse mundo. Eu tendo minha barriguinha cheia e não estando suja, estou ótima.”