A crise gerada pela disseminação do coronavírus trouxe aos esportistas uma série de dificuldades nunca antes enfrentadas. Passar por cima do distanciamento social, da dor causada pelas incontáveis perdas para a covid-19, das adversidades de treinar através de uma tela e da ausência de competições se tornou, mais do que tudo, uma verdadeira luta para qualquer pessoa ligada ao ramo do esporte, que segue brigando para não agonizar.
O sensei Rodrigo Vilela, professor da escola de judô Ro-kan, onde treina seus alunos desde pequenos para disputar competições regionais, inter-regionais e o estadual, conta que os efeitos da pandemia foram muito intensos e geraram reações diversas não só nos próprios competidores, mas também nos técnicos, pais e todos os envolvidos no meio esportivo.
Desde março de 2020, quando começaram a circular as primeiras notícias de que haviam pessoas infectadas pelo coronavírus no Estado, a arte marcial não tem um torneio presencial. “Nós estamos parados, desde então. Estávamos às vésperas de disputar a Copa São Paulo, um dos campeonatos mais importantes. Tudo certo e acabou cancelado. Até a federação sentiu e ficou meio perdida depois disso.”
Segundo Rodrigo, a expectativa da FPJ (Federação Paulista de Judô) é que só volte a acontecer uma competição oficial no meio deste segundo semestre de 2021, o que ele não acredita ser tão viável. “A perspectiva da federação é para agosto. Querem começar pelo menos com o sub-21 e fazer em formatos diferentes, sem gerar aglomeração. Até a última reunião ficou definido isso, mas eu não acredito muito, não.”
O sensei diz que enfrentou dificuldades com a pandemia, mas conseguiu segurar muitos alunos até o fim do ano passado. O problema, porém, é que muitos atletas acabaram deixando o esporte em 2021. Atualmente, os treinamentos têm sido feitos na academia de maneira híbrida: uma pequena parcela de judocas participa presencialmente, enquanto os demais acompanham pela internet.
“Foi um grande desafio tocar tudo sem perspectivas, mas nos adaptamos. Os treinos são importantes para manter o preparo físico, só que, a meu ver, a parte mais importante é continuar com o contato. Essa parte da sociabilização. Movimentar o corpo e se relacionar é o que faz a cabeça funcionar. Eu mesmo enfrentei dificuldades para me manter bem mentalmente no começo da pandemia. Senti que comecei a entrar em uma crise depressiva. Os exercícios são muito importantes e foram a minha terapia”, desabafa.
Alunos da Ro-kan treinam sem tocar uns aos outros
Para o professor, os efeitos pandêmicos também foram intensos no psicológico dos próprios atletas. “Eu vejo, não só pelo judô, mas também por ter muitas experiências, que a vida, quando sem um objetivo, se torna vazia. Todos temos nossas ambições e objetivos. Quando se perde isso, fica um marasmo. A pandemia fez isso. O atleta vive de treinar e alcançar objetivos. ‘ó, tem que se preparar para o campeonato em tal dia’. Quando ele só vem para a academia sem saber o que vai ser, quando vai voltar a disputar algo, perde a motivação. Eu tento motivá-los. Logo tudo isso vai acabar.”
João Pedro Trevisani, aluno de Rodrigo Vilela na Ro-kan, confirma a fala do treinador e conta sobre o abalo sofrido. “Antes, nós tínhamos as nossas metas, que eram as competições e conseguir levar uma medalha para casa, mostrar para a mãe. Agora, meio que não tem mais isso. Faz quase dois anos que não competimos. Abalou, sim. Desmotiva. O que traz combustível são os treinos e a esperança por uma melhora das coisas.”
Em 2019, o último ano em que os torneios de judô foram realizados, saíram, de Franca, duas campeãs brasileiras: Isabella Justino e Eduarda Moreira Leite. Até por isso, Rodrigo crê que o esporte francano pode se reerguer, mas afirma que, para isso, será necessária muita atenção para a área.
“A Feac nos contatou e abriu a possibilidade de bolsas, mas só uma atleta conseguiria, a Isabella, que foi embora e está em Bauru. Eu me comprometi com o Mateus (presidente da Feac) a lutar por Franca nos Jogos da Juventude e nos regionais, desde que, em contrapartida, eles pleiteiem o esporte. Confio no trabalho da atual gestão do prefeito Alexandre Ferreira e vamos tentar nos aproximar para elevar o patamar do judô de Franca. O esporte merece mais atenção e oportunidades. É necessário plantar uma semente pensando no futuro, para ver resultados daqui a 8, 10 anos e todos digam ‘isso foi plantado em 2021, no meio de uma pandemia’. Está nas mãos deles. Potencial a cidade tem”, afirma.
Voleibol em espera
Patrícia de Oliveira, líbero da equipe de vôlei de Franca, afirma que a categoria só não ficou parada em 2021 por causa do clube Rose’n Boys. A última partida do time aconteceu em fevereiro deste ano, pela Superliga B, competição que acabou cancelada em abril devido ao então avanço da pandemia.
“A última vez que estivemos em atividade foi disputando a Superliga B, campeonato do qual só conseguimos participar graças ao suporte do clube Rose'n Boys Sports, que foram os únicos que nos deram respaldo. Desde essa pausa, não voltamos mais”, relata a atleta.
Ainda segundo a líbero, o cenário não parece ter perspectiva de melhora a um curto prazo. “Há cerca de três semanas atrás, o técnico da equipe, Paulo Silveira, me ligou e disse que não existe previsão para voltarmos.”
Patrícia está ansiosa pela volta dos campeonatos
Para lidar com a ansiedade e manter o preparo físico, Patrícia segue com os treinamentos em casa. “Continuo com os treinos, pois não quero estar ‘enferrujada’ quando retornar. Mal posso esperar para voltar a fazer o que eu amo, que, certamente, é estar nas quadras. Acredito que as outras atletas, assim como eu, também estão ansiosas para o retorno das atividades.”
Futebol feminino à deriva
O time de futebol feminino de Franca amarga o mesmo gosto da pausa que os demais esportes. Atualmente, a categoria encontra-se absolutamente parada. As atletas ainda não estão vinculadas à equipe, aguardam por uma liberação para voltar a treinar e estão se exercitando em casa, de maneira individual, segundo fontes ligadas ao time.
Equipe do futebol feminino antes de partida em 2018
Talento com a raquete
A (boa) exceção quando o assunto é a paralisação das atividades dos esportistas francanos fica por conta de Letícia Marangoni, talentosa tenista de 13 anos que embarcou no final desta semana para a disputa do torneio Sul-Americano de Tênis, que será realizado no Paraguai. A jovem chega a Assunção dias após vencer, pela terceira vez, a Copa São Paulo de Tênis.
Sua rotina de treinos durante a pandemia não foi simples. O pai da esportista, Gabriel Marangoni, conta que Letícia chegou a ter que se mudar de Franca para seguir praticando. “Tudo ficou muito restrito. Não se tem a mesma liberdade para fazer os treinos. Ela passou a treinar a parte física em casa e, na época do lockdown, precisou passar uns dias fora de Franca fora para não perder o ritmo.”
Letícia se sagrou campeã da Copa São Paulo de Tênis recentemente
Mesmo no período conturbado, Gabriel conta que sua filha manteve a cabeça no lugar e não se desfocou. “Ela sempre permaneceu tranquila e participou dos torneios que aconteceram. A Letícia tem um nível elevado. Se perder o foco, deixar de treinar, não consegue continuar com esse nível competitivo. Ela seguiu bem. Tomou os cuidados e se manteve firme nos treinamentos”.
Feac
O presidente da Feac (Fundação para o Esporte, Arte e Cultura), Mateus Caetano, afirmou que os profissionais da fundação seguem trabalhando das formas possíveis e apresentou estruturas que devem ser construídas visando o esporte na cidade.
Segundo ele, os treinadores e professores estão dando os treinamentos de maneira online e monitoram constantemente os atletas. “Eles fazem o acompanhamento e nos enviam um relatório sobre cada equipe todo mês ou a cada 15 dias. Até por isso, a primeira etapa do Bolsa Atleta e do Bolsa Treinador está liberada. Estamos seguindo o decreto estadual e, assim que permitido, voltaremos a fazer os treinos presencialmente com as porcentagens permitidas.”
Mateus Caetano cita alguns exemplos de modalidades que têm se movimentado durante os últimos dias, critica a gestão de Gilson de Souza e afirma que a cidade deve receber novas estruturas esportivas no futuro.
“A nossa equipe de vôlei de praia esteve no Rio de Janeiro, em uma etapa representando o estado de São Paulo. A categoria do xadrez foi fazer curso no Sesc (Serviço Social do Comércio) e está sendo treinada. (...) Recentemente, nós adquirimos todos os materiais necessários para gerir o esporte, já que a outra gestão deixou sem nada, desde limpeza até a manutenção. Além disso, estivemos em São Paulo e conseguimos, junto ao Estado, uma quadra no Parque Vicente Leporace, terminamos o processo para a construção da quadra de futebol Society no Residencial Zanetti, que estava parado, e acabamos o processo para construir uma nova pista de skate”, disse o presidente da Feac.