08 de julho de 2026

Mundos distópicos

Por Sonia Machiavelli | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 3 min

No século XVI, sob o regime tirânico de Henrique VIII, Thomas More, diplomata, membro do parlamento e humanista, escreveu um ensaio sobre viajante que aportou numa ilha modelo. Ali não havia crimes, violência ou pobreza; nem luxo, propriedade privada ou desigualdades. Todos viviam contentes nesse bom lugar. Consciente de que tal reino só existiria na imaginação, More buscou no grego a palavra para verbalizá-lo: Utopia, o não-lugar.

Três séculos depois, em 1868, um político também inglês, John Stuart Mill, alicerçado na ideia contrária, trouxe à baila, num discurso no parlamento, outro termo helênico. Com ele pretendeu descrever uma sociedade futura que viveria em sofrimento, sob o comando de um regime autoritário, sem perspectiva de melhora. A palavra era Distopia, um lugar ruim,

Mundos distópicos têm cada vez mais presença na arte e literatura. George Orwell, Aldous Huxley, Kurt Vonnegut, Margaret Atwood, Anthony Burguess e, em língua portuguesa, Ignácio de Loyola Brandão são alguns dos autores que delineiam futuro sombrio para a humanidade.

Na ficção científica, com destaque para o subgênero, o tema aparece em grandes sucessos do cinema como a franquia "Jogos Vorazes", baseada nos livros de Suzanne Collins. Outro exemplo é a série britânica "Black Mirror", com narrativas bem próximas à nossa vida cotidiana, dominada por tecnologia e vigilância nas redes. Eu citaria também o seriado “The Walking Dead”, porque embora o termo distopia tenha uma carga predominantemente política, a presença do medo, da morte, da fome, da opressão, do sofrimento, da perseguição, do desespero é uma constante no mundo imaginado por Robert Kirkman, avassalado por humanos contaminados por vírus desconhecido e que só sobrevivem atacando e destruindo humanos saudáveis. Como milhões de pessoas, assisti à série de vinte temporadas. Mas fui apenas até à metade, porque o excesso de crueldade entre os sobreviventes me apavorou.

Resumo da ópera. Rick Grimes é xerife de pequena cidade do estado norte-americano da Georgia, quando certo dia é baleado por criminosos durante uma perseguição e entra em coma. Semanas depois, acorda em hospital abandonado e totalmente danificado. Ao sair dali, encontra um mundo pós-apocalíptico dominado por “mortos que caminham”, para traduzir o título ao pé da letra.  Depois de conhecer duas pessoas que lhe explicam o que aconteceu, o policial decide ir para Atlanta atrás de sua família, que reencontra salva na cidade vazia e dominada pelos zumbis. Seguem então em busca de novo lugar onde possam permanecer livres das hordas de contaminados, como uma fazenda isolada, onde o grupo tenta dividir espaço com os donos. Em meio ao caos, os sobreviventes vão revelando facetas até então ocultas, e o grupo percebe que os zumbis não são o único perigo que existe. O convívio vai se tornando cada vez mais tóxico e letal, à medida que as temporadas avançam. É preciso escapar dos zumbis; mas também ter cuidado com os vivos, que lutam por poder único. Num dos episódios, Grimes e seus comandados descobrem uma horrorosa prisão abandonada, mas é dentro dela que se sentem livres dos ataques externos. Entretanto, as lutas internas os fragilizam e um dia a vigilância cai, o portão cede, os zumbis entram e contaminam a metade dos vivos. Os que restam terão de continuar procurando outras prisões onde, em constantes sobressaltos, tentarão preservar a vida.

Pois assim tenho visto a nós, brasileiros, nos últimos catorze meses de pandemia: replicando o mundo hostil mostrado em “The Walking Dead”. Humanos conscientes do risco de morrer permanecem em seus refúgios; os que não acreditam na capacidade letal da Covid enfrentam desprotegidos o vírus e podem sucumbir.  O que mais entristece é perceber a polarização perigosa de milhões, desatentos ao fato de que o Coronavirus, como os Zumbis, está procurando brechas no nosso sistema de defesa para nos atacar.

Neste momento, perto de contabilizar 500 mil mortos, estamos vivendo no pior dos mundos, quando, se unidos em favor da vida, já poderíamos estar sãos e salvos do flagelo, num lugar bem melhor.  Infelizmente, acima de nós estão os que lutam por outra coisa, o Poder. Este que corrompe e, quando absoluto, corrompe absolutamente, como escreveu Ruy Barbosa.  É assustador, mas é nessa direção, a do poder absoluto, que o presidente da nossa pobre república avança célere.

 E “o povo que exploda”, como escreveu um dia Chico Anysio.