10 de julho de 2026
DIFICULDADE

Nem lockdown segura o francano em casa, enquanto pandemia cresce

Por Lucas Faleiros | da Redação
| Tempo de leitura: 6 min
Dirceu Garcia/GCN
Registro da avenida Brasil no dia 10 de junho, em meio ao lockdown

O título desta reportagem diz muita coisa. Passando por cima de muita reclamação, vinda principalmente de alguns representantes dos setores comerciais, o prefeito Alexandre Ferreira (MDB) anunciou, no dia 24 de maio, que Franca entraria pela primeira vez em lockdown durante o seu governo, em 27 de maio. Era a única maneira de tentar frear o incessante avanço de casos positivos e mortes por covid-19, que, até aquele dia 24, já eram 3.550 e 108, respectivamente, somente no mês de maio.

E assim foi feito. A cidade ficou, ou deveria ter ficado, absolutamente fechada por 15 dias. Mas, a ideia não colou muito bem para vários francanos. Ao longo do período com medidas severas de isolamento, o que se viu nas ruas foi um considerável movimento de veículos, pessoas caminhando, sentadas nos bancos das praças e praticando atividades proibidas. Pior de tudo, também havia vários donos de grandes e pequenos estabelecimentos tentando “furar” o lockdown – alguns dentro da lei, outros fora da legalidade.


Fábrica de solados no Alvorada foi interditada e voltou a funcionar no dia seguinte (WhatsApp/GCN)

Fato é que, no decorrer das duas semanas entre 27 de maio e 10 de junho, os índices de isolamento social da cidade, fator primordial para diminuir o contágio por coronavírus, variaram muito pouco, segundo mostra um levantamento realizado pelo GCN. Enquanto a média no restante do mês de maio (dia 1° a 26) foi de 37% de isolamento, no lockdown esses números foram a 42%, sendo que em alguns dias, como 28 de maio, segundo dia com as medidas em vigor, o registro foi de 35%.

O que cresceu durante o período foram as médias de mortes e diagnósticos positivos, reflexo dos números ruins em semanas anteriores. Nos primeiros 26 dias de maio, 156 pessoas se contaminaram e 5 morreram de coronavírus ao dia, em média. No lockdown, 9 vítimas fatais eram registradas diariamente, juntamente de novos 237 diagnósticos positivos, seguindo o mesmo raciocínio.


Enquanto 9 francanos morriam por dia, 23 pessoas quebravam lockdown em academia (Higor Goulart/GCN)

Ainda que com o movimento dos moradores, que insistentemente decidiram sair de casa, há uma coisa a se comemorar: a diminuição da RT – retransmissão do vírus. No primeiro dia de lockdown, a taxa era de 1,56, ou seja, cada 100 francanos infectavam outros 156. Neste sábado, 12, o número está em 0,99.

Mas a situação ainda é grave. Os leitos de UTI na cidade continuam superlotados. Em 25 de maio, 58 das 59 vagas de UTI do SUS estavam ocupadas e 40 pessoas aguardavam por uma delas no Pronto-socorro Municipal “Álvaro Azzuz”. Na sexta-feira, 11 de junho, dia seguinte ao fim do lockdown, todos os 59 leitos estavam ocupados e 28 pacientes torciam, do mesmo PS, por uma transferência para uma UTI.

Análise do contexto
Pesquisadores do Observatório de Desigualdades, Jacques Felipe Iatchuk Vieira, mestrando em Planejamento e Análise de Políticas Públicas na Unesp de Franca, e Angélica Vieira de Souza Lopes, pós-doutoranda em Geografia pela Unesp de Rio Claro, comentaram a tentativa de lockdown em Franca.

Jacques acredita que muitos pontos contribuíram para que o francano insistisse em desobedecer às medidas de segurança e o isolamento. Para ele, o relaxamento da população e os discursos negacionistas vindos do Governo Federal foram fatores primordiais para o comportamento apresentado em Franca. Vale lembrar que, na cidade, mais de 75% das pessoas votaram em Jair Bolsonaro para presidente no segundo turno das eleições de 2018.

“Estamos há muito tempo em uma situação pandêmica grave e sem previsão de retorno à normalidade, o que gera cansaço e relaxamento na população inicialmente mais responsável. Além disso, desde o início da pandemia, o Governo Federal tem insistido em discursos e atitudes negacionistas, estimulando desrespeito às medidas de segurança, recomendando tratamentos comprovadamente ineficazes e subestimando os riscos dessa doença. Essa desinformação, que está sendo exposta na CPI da Covid, mobiliza pessoas, confunde parcela do povo sobre a verdadeira gravidade da situação e banaliza centenas de milhares de mortes”, afirma.

O mestrando em Planejamento e Análise de Políticas Públicas diz que foi difundida uma narrativa de que “respeitar ou não o isolamento era atitude individual com consequências individuais, o que está completamente equivocado. Cada ato de irresponsabilidade reverbera na situação coletiva da pandemia, prolongando sua duração e reforçando sua letalidade”.

Ele crê que o difícil contexto vivido em Franca contribuiu para que as coisas acontecessem como tem sido visto. “Estamos há décadas em uma crise permanente da indústria do calçado, sem que o município tenha conseguido redirecionar seu desenvolvimento econômico e social. Isso faz com que, por exemplo, a renda do trabalhador formal francano fique abaixo da média no comparativo com os outros municípios da nossa Região Administrativa. Soma-se a isso o desemprego, onde entram cerca de 10 mil sapateiros, e o aumento contínuo do custo de vida, é reforçada a falsa narrativa de que ‘ou se morre de Covid-19, ou se morre de fome’. Faltaram ações articuladas entre as esferas federal, estadual e municipal para combater essa ideia e garantir condições.”

Faltou planejamento?
Jacques Iatchuk diz que o lockdown de Franca foi anunciado em um momento de “descrédito e falta de planejamento”. O pesquisador afirma que a Prefeitura tem tomado ações hesitantes, mal articuladas e contraditórias.

“Tentaram apostar em remédios ineficazes e insistem nesses endurecimentos e relaxamentos contínuos das medidas sem um planejamento adequado, baseados mais no número de leitos do que nas curvas da doença. Essa falta de planejamento prejudica a comunicação com a população e tira a credibilidade. Um lockdown com menos de 50% de isolamento na média já é ineficaz, aí se encerram em um momento de colapso, como está sendo feito, reforça-se o sentimento de que o endurecimento foi desnecessário e demagógico, ou que a situação já está resolvida.”

Quebrar o lockdown é justificável em algum caso?
Com exceção de situações extremamente pontuais, Angélica Vieira não vê motivos plausíveis para se desobedecer à ordem de ficar em casa. “Acredito que não há justificativa para a quebra da quarentena durante o decreto de lockdown. Só conseguiremos diminuir a transmissão do vírus se respeitarmos as regras de isolamento social, diminuindo o contato entre as pessoas. O aumento de circulação nas ruas propicia a exposição e o risco de contágio.”

Mesmo assim, a pós-doutoranda em Geografia faz questão de ressaltar que a população não colaborou. “Mesmo com os leitos de UTI com ocupação superior a 90%, as pessoas não respeitaram o decreto. Houve autuações em academia de ginástica, barbearia, restaurante e quadra de esportes, evidenciando o quanto parte da população francana não encara a gravidade da pandemia com seriedade. O número de óbitos se manteve alto, assim como a taxa de contaminação.”

Eficiência das medidas
Os números de isolamento social alcançados com o lockdown, segundo a pesquisadora, são insatisfatórios. “Estão muito abaixo do ideal. A taxa de isolamento social oscilou entre 35% e 50%, sendo a maior atingida no dia 3 de junho, feriado de Corpus Christi. A segunda maior taxa de isolamento social conquistada durante o lockdown foi em um domingo, 30 de maio, com 49% de isolamento. Infelizmente, a ação não se mostrou efetiva na diminuição da circulação das pessoas no município. Para esse isolamento ser eficiente, a taxa deveria ser superior a 70%.”

Solução
Angélica conclui afirmando que a única saída para que todos possam retomar suas atividades da forma desejada é a vacina. “As pessoas mantêm o discurso de perda da liberdade e do direito de ir e vir. O que não compreendem é que apenas com a vacinação em massa todos terão o direito de ir e vir sem provocar aumento no número de contaminados e de óbitos. Portanto, como ainda não temos vacinas para todos, devemos respeitar as regras de isolamento social propostas.”