Estabelecimentos comerciais recebendo consumidores. Restaurantes e bares abertos. Pessoas caminhando nas ruas. Crianças nas escolas. Este cenário, em tempos de pandemia, já é uma realidade em Serrana, cidade localizada a cerca de 100 quilômetros de Franca. Enquanto aqui a vacinação está longe de atingir todos os adultos, por lá, em um projeto inédito no mundo realizado pelo Instituto Butantan, 95% da população adulta já foi imunizada.
Graças a isso, a cidade vive uma realidade muito diferente da vivida em todo o país e suspira um pouco de normalidade.
No momento em que Franca enfrenta pela primeira vez as consequências de um lockdown, além de registrar os índices mais altos de mortes e o momento mais tenebroso da pandemia, em Serrana praticamente todos os setores econômicos estão funcionando. Com a imunização em massa e uma sensação maior de segurança, que une “bolsonaristas” e “petistas”, as aulas não foram interrompidas em 2021, bares e restaurantes estão abertos, academias estão funcionando e o prefeito cogita a realização de um evento teste.
“A imunização em massa aqui em Serrana foi muito importante para a vida poder voltar ao normal. Poder ficar tranquilo, você saber que está imune, que vai correr menos riscos. É importante saber que você pode sonhar de novo, depois de tudo que passamos”, disse o comerciante José Roberto Issa.
Ele, que tem duas lanchonetes na cidade e como muitas pessoas também foi impactado pela pandemia, comemora os resultados. “O desejo nosso era que todos tivessem a oportunidade e a sorte que nós tivemos (imunização em massa). Uma campanha bem-feita e organizada. Tomei tranquilo, se tivesse a terceira dose eu tomaria. Independente da vacina, as pessoas têm que tomar, tem que acreditar. Só temos a agradecer.”
Diferente de Franca, onde um grupo passou mais de 5 horas trancado em uma academia para fugir do flagrante da fiscalização, os serranenses estão tranquilos para frequentar os espaços esportivos. “Ser imunizado dá uma sensação de segurança. Tem muita gente parada, que está passando dificuldade, não pode levar a vida de uma forma mais parecida com o normal. É claro que não está tudo normal, mas estar vacinada traz um alivio”, afirmou a recepcionista Beatriz Gonçalves, de 22 anos.
Apesar da abertura, as academias da cidade ainda limitam a entrada de alunos em 30% da capacidade do local, respeitando todas a normas implantadas para diminuir a Covid-19.
Quem também festeja a eficácia da vacina e o momento que a cidade vive é o aposentado Amélio Valdeviti, de 87 anos. O morador da cidade, que no início da pandemia estava no estado de Mato Grosso, retornou para Serrana após a pandemia se agravar. Agora, com a população adulta vacinada, ele pode aproveitar os fins de tarde para se reunir com os amigos na Praça Matriz.
“Graças a Deus a família inteira está vacinada. Tem o receio de aparecer algum estranho, morador de fora e atrapalhar as coisas. Tive medo de pegar a doença. Quem não tem medo de morrer? Mas agora estou tranquilo”, contou o aposentado, que estava com amigos na praça da cidade na última quarta-feira.
Avanço positivo
Os dados da pesquisa feita pelo Instituto saíram na última segunda-feira, 31. Os resultados apontaram que 95% das mortes por Covid diminuíram após a vacinação. A redução também foi satisfatória nos casos de internações e assintomáticos - 86% e 80%, respectivamente.
“O método utilizado para o ensaio clínico é chamado de implementação escalonada por conglomerados (stepped-wedge trial). Serrana foi dividida em 25 áreas, formando quatro grupos: verde, amarelo, cinza e azul – que receberam o imunizante seguindo esta ordem. A vacina foi ofertada a todos os maiores de 18 anos elegíveis para o estudo nestas áreas, de forma sequencial, em quatro etapas. Entre 17 de fevereiro e abril deste ano, ao longo de oito semanas, cerca de 27 mil moradores do município receberam o esquema vacinal completo: duas doses da CoronaVac com intervalo de 28 dias entre a primeira e a segunda”, explicou o Instituto Butantan.
O prefeito Léo Capitteli (MDB) comemorou os primeiros resultados do estudo e adiantou que já pensa em realizar um evento teste na cidade. "Estamos muito orgulhosos por ter sediado um projeto de tamanha magnitude como o 'Projeto S'. Projeto que vai muito além da vacinação em massa. Esse projeto pode levar esperança de dias melhores para a população brasileira e mundial, com a vacinação aliada a protocolos sanitários. O projeto devolveu a autoestima e isso tem siso importante para a cidade. Agora vamos pensar na retomada para que no futuro isso sirva de parâmetro para o Brasil”, afirmou o emedebista.
Para Capitteli a adesão da população foi importante para o sucesso do projeto da cidade. “A população entendeu a magnitude do projeto. Participando em massa. Quase 98% do público alvo participou. Foi um sucesso isso para o projeto”.
Agora o prefeito ainda conta com a colaboração da população para continuar com a queda no número de casos e mortes. “No Brasil, por não termos uma situação homogênia em todas as cidades, é necessário alinhar vacinação mais protocolos sanitários. Mesmo vacinado use máscara se proteja. Para que a gente some forças e vencer essa guerra contra a covid-19”, continuou o prefeito.
O otimismo para vencer a guerra mundial contra a Covid-19 vem também dos pesquisadores do projeto. O médico hematologista, Pedro Garibaldi, um dos responsáveis pela pesquisa na cidade, contou a importância da vacinação em massa e a efetividade da vacina.
"A gente já estava vendo uma redução de casos no último mês, principalmente em relação as cidades ao redor de Serrana. Agora com esses dados preliminares a gente conseguiu mostrar que a vacina é efetiva quando se usada em um grupo populacional, em um grande da população. Ela consegue ter tanto uma efetividade direta, mas também indireta. A gente conseguiu mostrar que mesmo as pessoas que não foram vacinadas tiveram uma redução no número de casos. Isso mostra que a vacina é o caminho para esse momento que estamos passando", disse o médico que foi um dos idealizadores para o projeto acontecer em Serrana.
Pedro ainda conta que os próximos passos do estudo é saber como será a vida pós-vacinação. "Todo mundo quer saber como será o Novo normal. Então, Serrana tem muito para mostrar, não só para o Brasil, mas para o Mundo", finalizou o médico.
Realidade de Franca
Enquanto a menos de 100 quilômetros de Franca, Serrana comemora a queda no número de casos e mortes, em Franca a realidade é muito diferente, com hospitais lotados e pessoas morrendo antes mesmo de conseguir um leito de internação. Na cidade foram vacinadas apenas pessoas com 60 anos ou mais, profissionais de saúde, policiais, pacientes com 37 anos ou mais com comorbidades e profissionais da educação com 47 anos ou mais. O restante da população ainda aguarda as próximas etapas sem saber exatamente quando poderá ter dias mais tranquilos.