Entrei numa conversa virtual de viagens onde a proposta da hora era descrever situações curiosas ou constrangedoras pelas quais os internautas haviam passado no exterior. Os relatos variavam do interessante ao hilário e abrangiam desde a língua aos costumes. No que se refere ao idioma, Liana P. contou que estando num restaurante português, chamou o garçom que parecia ver todo mundo, menos ela. Levantou a mão e nada. Então, quando ele passou ao seu lado, ela disse: “Moço, por favor...”, recebendo de volta um olhar fuzilante, como se tivesse ofendido brutalmente o rapaz. Meia hora depois, quando ele se dignou a lhe trazer o cardápio e a carta de vinhos, falou:“Nunca nos chame de moço, essa palavra nos ofende!”
Nessa vibe, Juliano W. lembrou que estando em Seul, foi a um restaurante especializado em um prato do qual sua família de imigrantes falava com saudades. Foi recebido com gentileza, fez o pedido e não demorou a ser atendido com elegância. Ficou tão empolgado que ao final do jantar, ao conferir a conta e verificar que ali não constavam os 10% que são praxe no mundo todo, perguntou ao garçom como lhe deixar uma gratificação. A resposta foi um misto de surpresa e ofensa. Para um coreano, todo trabalho é uma honra e a gorjeta, algo malvisto.
Marília S, que tinha voltado recentemente da Malásia, disse que por lá ninguém usa o indicador e sim o polegar para apontar alguma coisa. Mas outro internauta, J L., registrou na hora que o polegar em regiões do Oriente Médio é ofensivo. Carlos B. ficou assustado na capital do Paquistão, ao ver ao lado do táxi que o levava do aeroporto a um hotel grande e plácido elefante, rente à sua porta de passageiro. Luísa T., que trabalhou como babá na Irlanda, considerou original o fato de que mesmo no verão por lá ninguém sai de casa de short ou bermuda.
Hábitos ligados à alimentação foram muito citados. Na Índia, não se ingere comida do dia anterior, ainda que esteja fresca; por isso, todos os dias as mulheres devem cozinhar para sua família. Na China, há muitas superstições sobre a água gelada, de tal forma que as bebidas que acompanham as refeições são sempre quentes. Na Espanha, a sesta é um costume arraigado e espanhóis não jantam antes das nove, ao contrário dos americanos que jantam mais cedo do que todo o resto do mundo.
Essas diferenças entre povos levam aos chamados choques culturais. Brasileiros no Japão surpreendem-se vendo crianças pequenas indo sozinhas à escola; transeuntes deixando de lado mochilas para comprar algo na rua; bicicletas sem cadeado à espera de seus donos. Por conta dessa confiança, a paranaense Mariana N. foi olhada com espanto pela jovem a quem pediu que olhasse suas coisas por um minuto, enquanto ia comprar lanche num parque de Tóquio: “- Por que olhar suas coisas?” Outra civilização, outra cultura.
Quis contar o meu perrengue. Aconteceu na Turquia, país bonito que visitei no século passado. Estávamos em Konya, cidade milenar, conservadora, diferente da liberal e cosmopolita Istambul. Seu coração, o museu de torre azul turquesa dedicado ao poeta Rumi, marcava a principal artéria, a avenida Mevlana. Foi por ela que chegamos, duas amigas e eu, a um shopping famoso pelas joalherias. Assim que entramos nossos olhos foram ofuscados pelo brilho das lojas, verdadeiros baús de Aladim.
Enquanto olhávamos aquela abundância de ouro em forma de brincos, colares, pulseiras e broches, fui lembrada de que havia tomado diurético. Deixei as amigas apreciando as joias e saí à procura de banheiro. Quando vi a placa com ícones, entrei direto num corredor e depois avancei para a primeira porta aberta. Mas recuei porque só vi um buraco no chão azulejado. Pensei que o lugar estaria em reforma e me dirigi à porta seguinte. A mesma coisa. Lá estava o buraco no chão, nada de assento, ao lado um latão de cobre com água e pequena bacia. De papel higiênico, nem sombra.Pensei que não seria possível um shopping tão rico oferecer aquele tipo de toalete ao público. Deveria estar no lugar errado. Retornei ao corredor e vi sair de um dos cubículos jovem muçulmana, coberta até os olhos de ouros e brocados. Concluí que eu não tinha escapatória. Encarei o buraco.
Nem sob tortura direi como me saí dessa saia (literalmente) justa. Ainda bem que o hotel era próximo e nos hotéis os banheiros não são turcos, são decentes.