A maior vantagem de ser mulher é ela poder ser mãe. Desempenhar papel de mãe é outra coisa, mais moderna. Os jovens pais – das novas gerações - ajudam, cuidam, alimentam, trocam, levam e trazem, educam, levam para tomar vacina, marcam dentista, sabem até levar as crianças ao médico e informar com precisão sobre remédios e tratamentos. Dividem conosco, maravilhosamente, as tarefas do cotidiano. Mas fazer o filho, carregar o filho na barriga, parir o filho, isso só nós podemos. Levantam à noite, acalentam, alentam, preparam e dão mamadeiras, papinhas. Mas trazer o filho ao peito, tirar a mama entumescida, alimentar, matar a fome do filho com o suco retirado da própria carne, só nós podemos.
Homens, perdoem-nos, mas a fauna feminina, internamente, é ainda muito mais diversificada e rica que a masculina embora - mistério absolutamente insolúvel - se possa prever com quase noventa por cento de acerto as reações da mulher diante de algumas situações. Quer ver? Quando o filho chora ela sabe distinguir o que é manha ou dor; o que é real, fingimento ou se o derrame de lágrimas disfarça reação cujo objetivo maior – não digno – é apenas chamar atenção. Ou desviá-la. Quando os pais quiserem encontrar o filho – ou filha – no meio da multidão, chamem as mães: o olhar delas parece o de um robô de alta precisão: falta apenas mostrarem em pixels aquilo que enxergam. O olhar delas esquadrinha, perscruta, bisbilhota ponto por ponto, fila por fila, rosto por rosto ... e heureca! encontra a cria! Amiga achava o Wally nos livros – lembra do jogo? – mais rápido que qualquer uma de nós. Anos mais tarde, revelaria o segredo: imaginava-o com o rosto de um dos filhos e rapidinho o encontrava fosse na praia apinhada, no meio da multidão ou patinando no gelo!
Tornar-se mãe, felizmente, tornou-se escolha para a mulher. Como papel social, se ela não quiser desempenhar, não precisa. Não há mais obrigatoriedade, não é mais finalidade, nem determinação, muito menos pressão social: ela só vai ter filho, se quiser. Casada ou solteira. As mais jovens se surpreendem quando as mais velhas relatam o tormento da cobrança social. Crianças, ganhávamos vassourinhas, rodinhos, fogõezinhos, bonequinhas: preparo para futuras funções. Jovens, éramos colocadas na vitrine para avaliação de dotes e qualidades que fariam de nós mais ou menos elegíveis para o casamento. Namorando, vinha a pergunta: “E o noivado?”. Noivas, era inevitável: “Para quando o casório?”. Recém-casadas, corávamos: “Já encomendaram?”. O patrulhamento era homeopático, mas constante. Isso acabou.
Grande diferença dos antigamentes, a fase da gestação hoje é vista como etapa charmosa. A mulher fica exuberante, resplandescente, usa roupas bonitas, exibe a barriga com orgulho e às vezes até exagera nessa exposição. Não se envergonha e nem fica mais reclusa. A chegada do bebê é alegre, todo mundo participa e há festa, seja a mãe casada ou solteira. Porém a maternidade, enquanto condição, tem seus riscos. Botar um filho no mundo é fácil. Acolher o filho é difícil: a mãe não o conhece, não o escolhe, por vezes ele a desaponta – ela o queria de um sexo, vem de outro; imaginava-o com determinado tipo fisico ele nasce diferente; mais tarde sonha em vê-lo seguir determinado caminho, ele escolhe outro. Todos os dias temos que aprender a vê-lo como ser autônomo; não raro precisamos reaprender a amá-lo; filhos são humanos e podem nos decepcionar com suas atitudes. Nosso amor é inesgotável e moldável, mas somos também humanas e às vezes falhamos. O pior de tudo, porém, é que filho não é imortal. E a gente pode perdê-lo. Esse, sim, é o maior e o pior risco da maternidade.
(Texto originalmente publicado em 6 de maio de 2011)